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Política

 

 

Ao cessar funções de Deputado na Assembleia da República pelo círculo eleitoral da Europa, Carlos Gonçalves deu uma entrevista ao LusoJornal para explicar porque não foi candidato à sua própria sucessão, para fazer uma leitura dos resultados eleitorais no círculo da Europa e para falar do seu regresso ao Consulado Geral de Portugal em Paris, onde agora volta a trabalhar.

“Até agora, nunca ninguém da Direção do PSD falou comigo para me explicar as razões pelas quais eu não fui candidato” diz logo no início da entrevista.

Carlos Gonçalves não apoiou a candidatura de Rui Rio a Presidente do Partido e essa foi a principal razão pela qual tanto Carlos Gonçalves como outros Deputados foram excluídos das listas eleitorais. “Eu sou representante de uma área geográfica, mas adquiri também algum estatuto dentro do PSD e tomei várias posições ao longo do último mandato, sempre com lealdade muito grande em termos parlamentares – e o LusoJornal é testemunha disso – mas no plano interno, entendia que o meu Partido devia seguir um rumo diferente e a campanha eleitoral como ela decorreu e sobretudo como ela finalizou, acabou sinceramente por me dar razão relativamente a um conjunto de preocupações que eu tinha em relação ao PSD”.

Aconteceu que o Presidente do Partido não teria gostado e “ele retirou-me da lista dos candidatos e a partir daí, foi um vazio”.

 

Sem programa eleitoral e sem candidatos da emigração

O antigo Deputado teceu algumas críticas em relação a todo o processo eleitoral, desde logo sobre a ausência de programa eleitoral para as Comunidades. “O PSD não teve um programa eleitoral para as Comunidades. Este era um assunto que fazia a diferença pelo passado, em relação a outros Partidos. Nós tínhamos sempre um programa muito alargado, que por vezes era motivo de grande debate, ou de crítica ou de apoio, mas suscitava a opinião das pessoas, era transversal a todas as forças políticas que opinavam, bem ou mal. Desta vez não foi feito, não foi envolvido em todo este processo aquilo que é fundamental, que são as estruturas do Partido Social Democrata, sejam elas em território nacional, nas regiões autónomas ou na emigração”.

A falta de implicação das Secções do Partido nas Comunidades na escolha do candidato foi um dos pontos apontados por Carlos Gonçalves. “Em política, as pessoas são importantes e as ideias também. As pessoas que foram candidatas não eram oriundas da emigração. A minha Secção de Paris até disse que isto tinha sido um retrocesso, sabendo que o PSD foi o Partido que levou os emigrantes à Assembleia da República”.

A candidata escolhida pelo PSD foi Maria Ester Vargas, uma professora no distrito de Viseu. “Nada me move contra ela. Ela aceitou a candidatura e como é evidente acabou por perceber naquilo em que estava realmente envolvida, onde os militantes do PSD não foram ouvidos, como está previsto nos estatutos do Partido, para as escolhas dos seus candidatos” diz Carlos Gonçalves, alegando que os militantes estavam “desiludidos e desanimados, e quando temos as bases do Partido desiludidas e desanimadas, é difícil mobilizar as massas para depois votarem em nós”.

 

Campanha difícil

“Nós não podemos estar sempre a dizer aos emigrantes portugueses que são importantes, que é fundamental que participem, e depois, na hora da verdade, aqueles que são convocados não são propriamente os que deviam ser” diz o antigo Deputado, fazendo uma comparação com o mundo desportivo. “É como se o Selecionador, em vez de convocar Portugueses, convocava Espanhóis. Eles até podiam jogar bem, mas não envolviam os adeptos”. Neste caso, alega que essa foi uma razão para não terem mobilizado os militantes.

Tanto mais que Carlos Gonçalves considera que nas Comunidades não há muitos lugares para distribuir. “Não temos Freguesias, não temos Câmaras, não temos instituições, então quem faz política partidária nas Comunidades fá-lo com a convicção que através do partido político pode ajudar a resolver o problema dos Portugueses”.

Na entrevista ao LusoJornal, Carlos Gonçalves explicou ainda que, apesar de um binacional já poder ser Deputado em Portugal, se tiver cargos políticos em França, tem de os deixar para poder ser candidato e depois Deputado. Confirma, no entanto que “na estrutura do PSD de França há outras pessoas que poderiam ser candidatos”.

“É evidente que o líder do Partido pode escolher o cabeça de lista e tem sempre a legitimidade para escolher. O facto de não gostar de mim é uma razão que lhe assiste, não faço aqui qualquer reparo, mas era a minha expectativa e das outras pessoas da emigração, claramente, que aquele que fosse candidato, fosse alguém destas estruturas”.

Para Carlos Gonçalves, na campanha de janeiro, as sondagens em Portugal que chegaram a dar o PSD vencedor, fez com que muitos militantes tivessem votado. Mas depois, “nesta segunda vez, partem para uma eleição onde sabem que o PSD já perdeu, em que o PS tem a maioria absoluta, quando os candidatos não são conhecidos das pessoas, nem a bem nem a mal, são perfeitamente desconhecidos e tirando a vinda do doutor Rui Rio tanto a Paris como a Londres, não houve propriamente campanha”.

“Este momento desilude-me muito. Em 2002 nós não tínhamos Deputado e eu sei o quanto custou. Depois consolidámos o resultado em 2015, tivemos um resultado extraordinário e alguns acreditavam que este lugar não tinha nenhum problema de eleição, fosse qual fosse o candidato” afirma Carlos Gonçalves. Mas enganaram-se.

 

Paulo Pisco na Secretaria de Estado

Carlos Gonçalves congratulou-se com a eleição de Nathalie de Oliveira. “É evidente que eu queria que o PSD tivesse tido um Deputado, mas conheço bem a Nathalie, ela foi eleita e é sempre um simbolismo importante. Desejo-lhe o maior sucesso no plano pessoal, porque pessoalmente nós respeitamos os nossos adversários”. Espera também que a nova Deputada possa ser “mais uma voz no Parlamento em favor das Comunidades”.

Quanto ao novo Secretário de Estado das Comunidades, Paulo Cafôfo, diz não o conhecer, considera que é alguém com estatuto e “é uma escolha do Primeiro-Ministro. É também uma forma de dar visibilidade a um político” considerando que é o segundo Madeirense a assumir esta função, depois de Correia de Jesus.

“Eu próprio tinha expectativas que o Secretário de Estado fosse outra pessoa, pelo menos com outro perfil, mais próximo do que nós entendemos, que conhecesse bem as Comunidades portuguesas e que não esteja um ano ou dois para perceber” confessa Carlos Gonçalves. “Tinha algumas expectativas dentro do Partido Socialista, eventualmente Paulo Pisco. É Deputado há muitos anos e alguém que se tem esforçado. Foi meu adversário, eu tive debates muito acalorados com ele, como sabe, mas isso não impediu uma relação pessoal muito boa. Sinceramente, eu tinha expectativas que pudesse ser o Paulo Pisco, com muita honestidade, independentemente de ser meu adversário político”.

 

Berta Nunes não teve tempo

Quanto à Secretária de Estado cessante, “Berta Nunes acabou por não estar muito tempo no Governo. Era agora que ela eventualmente teria um conhecimento concreto, sobretudo do que é a máquina do Ministério. É uma máquina complexa, tem uma forma de funcionar diferente dos outros Ministérios, associado a uma área muito importante, e à qual por vezes não se dá muita importância, que é a da política externa”.

“Em algumas áreas eu discordei completamente de Berta Nunes, mas eu não estou aqui para fazer balanços governativos, ela não fez uma legislatura inteira e por isso é complicado fazer um juízo a meio da legislatura”.

O antigo Deputado comentou ainda a eleição de Augusto Santos Silva para a Presidência da Assembleia da República, dizendo que “se tivesse de votar, teria votado por ele” e evocou também o antigo Presidente da República Jaime Gama.

 

Sem querer fazer um balanço pessoal das suas legislaturas

Carlos Gonçalves não quis fazer um balanço sobre o seu próprio trabalho político, alegando ser até bastante autocrítico. “Aqueles que têm falado de diversas correntes políticas, de diferentes horizontes do meu Partido, pessoas até muito próximas da liderança do Partido, tomaram posições sobre esta matéria e não é por acaso que tanto no plano nacional, como internacional, nomeadamente no Conselho da Europa eu mereci elogios” diz ao LusoJornal. “Nós quando saímos da política desta forma, é bom sabermos que em algum momento representámos bem o país e os Portugueses. Cometi certamente muitos erros, porque quem quer fazer muito trabalho, comete sempre erros, mas o balanço do meu trabalho, pelo menos pelo que me tem sido transmitido, pelo que tenho lido e pelos comentários que muita gente tem feito na comunicação social, apontam que essa não deveria ter sido a razão por que o Partido perdeu as eleições”.

“Quando se está na oposição é mais fácil ter iniciativas parlamentares, mas apelando ao bom senso. Nós não podemos apresentar propostas que não sejam exequíveis e eu por vezes vejo isso nos Partidos dos extremos, que propõem tudo e mais alguma coisa” diz Carlos Gonçalves. “Nós temos de ter capacidade, na oposição, de defender as nossas ideias, criticar o que está mal, mas também sustentar as nossas críticas num projeto político próprio. Senão, não tem valor. Quando se está no Governo, temos algumas dificuldades por vezes porque temos que estar sempre à defesa, porque os ataques – sobretudo quando é o PSD no Governo – são muitos, mas também é verdade que também sentimos aí que o nosso trabalho acaba por ter concretização prática. Se o Governo ouvir os Deputados, se o Governo articular o seu trabalho com o Grupo parlamentar. Eu tive momentos em que isso aconteceu e tive momentos em que isso não aconteceu. Mas acaba por ser mais gratificante quando se está no poder”.

 

PSD França vai sair reforçado

Já em 1999, praticamente pelas mesmas razões do PSD ter escolhido um candidato desconhecido nas Comunidades, o PS conseguiu eleger dois Deputados. Carlos Gonçalves recuperou o Deputado para o PSD em 2002 e diz saber “quanto custou”. Por isso, afirmou que “fomos surpreendidos, eu e todos os outros”. Compreende que não tivesse sido ele o escolhido, mas “há pessoas no meu círculo eleitoral que tinham a ambição de serem eles os candidatos se não fosse eu. Mas quando não sou eu, e que essa oportunidade que surge, não é oportunidade para pôr um quadro oriundo das estruturas do PSD da Europa, como é evidente isso criou algum desânimo e desalento”.

Mas Carlos Gonçalves acredita que no futuro este círculo eleitoral vai eleger mais Deputados. Por isso acredita que a situação vai mudar no futuro. Tanto mais que vai haver eleições internas no Partido e o antigo Deputado diz que, se não surgirem outros candidatos, apoiará Luís Montenegro. “Terei todo o gosto em o apoiar. Conheci-o bem, foi líder parlamentar, percebeu sempre muito bem as questões das Comunidades portuguesas, entrámos ao mesmo tempo no Parlamento, foi a segunda pessoa a visitar-me no Gabinete quando fui Secretário de Estado das Comunidades, acompanhou esta matéria com muita proximidade e as pessoas da emigração conhecem-no bem pessoalmente. O facto de o conhecerem pessoalmente pode realmente fazer renascer a esperança de que vamos ter um líder à imagem de outros, que poderá ter uma relação com as Comunidades portuguesas, implicá-las mais no debate político e nas decisões do Partido, ouvi-las, percebê-las, entendê-las, porque nós não podemos entender o país e o Partido, se no país não entendermos os que estão no estrangeiro e no Partido não demos voz àqueles que militam pelo PSD no estrangeiro”.

O próprio Carlos Gonçalves diz que não vai parar de lutar, “dentro do Partido”, mas ainda não sabe se voltará a ser candidato dentro de quatro anos. Promete, no entanto, contribuir para que o Partido tenha um programa para as Comunidades. “Espero que seja um programa ambicioso, que possa mudar um conjunto de parâmetros que têm guiado a política das Comunidades. E nesta travessia do deserto, neste caso no PSD da Europa, podemos ir mais longe do que aquilo que pensávamos, porque quando se perde um Deputado por um círculo tão importante, temos que meditar, temos que trabalhar. Eu sinto os militantes muito mobilizados, o PSD vai continuar a contar, o PSD vai continuar a contar muito e quero continuar a pensar que vai ser uma grande surpresa para aqueles que acompanham estas questões das Comunidades”.

 

Regresso ao Consulado de Paris

Carlos Gonçalves já trabalhou no Consulado de Portugal em Paris, mas quando em 2002 entrou para o Parlamento português, era Técnico no Consulado de Portugal em Nogent-sur-Marne, que entretanto encerrou. Agora, apresentou-se ontem no Consulado Geral de Portugal em Paris, onde aliás também trabalha a mulher.

“Regressei ao Consulado, é o meu local de trabalho. Tenho cá a minha família e é muito natural ficar cá, mas nós também não sabemos do que o futuro é feito” diz ao LusoJornal. “Este Carlos Gonçalves não é o mesmo Carlos Gonçalves que esteve no sindicato, associado a uma luta que durou décadas e eu tive a sorte de estar na última Direção do sindicato que conseguiu o estatuto profissional dos trabalhadores consulares”. Mas agora “não estarei envolvido certamente nesse tipo de lutas”.

Esta é uma mudança significativa na vida de alguém que, confessou na entrevista com uma dose de emoção, está na política inspirado pelo pai.

 

Ver entrevista AQUI:

 

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