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Inéditos de Amália gravados em Paris são editados dia 23 de julho

Charles Ichaï

Uma caixa com cinco CD com gravações inéditas de Amália Rodrigues (1920-1999) em Paris é editada no próximo dia 23 de julho, pela Valentim de Carvalho, quando a fadista completaria 100 anos, no âmbito da edição da discografia integral da fadista.

Dos cinco discos, apenas um deles é já conhecido, o espetáculo de Amália no Olympia, em 1956, remasterizado a partir das bobinas originais.

Os outros incluem gravações entre 1957 e 1965, de atuações ao vivo e em estúdio na Rádio France, dois espetáculos completos, novamente no Olympia, em 1967 e em 1975, e ainda uma atuação para emigrantes portugueses, em 1964.

“Não era a primeira vez que Amália contactava com a elite do público internacional. Entre 1939 e 1945, precisamente nos primeiros anos da sua carreira, nos retiros e casas de fado de Lisboa, parte do público era feita de milionários, artistas e intelectuais europeus que fugiam da guerra. Essa circunstância histórica única, aliada às suas irrepetíveis qualidades artísticas, também ajudou a esculpir a forma de estar em palco de Amália, tornando-a, mesmo antes dos outros o reconhecerem, numa artista requintadíssima de rasgo internacional”.

Apesar de ter atuado por todo o mundo, o Olympia, em Paris, foi fulcral para a carreira de Amália, que, em várias entrevistas, se referiu à capital francesa como a rampa de lançamento do seu prestígio internacional. “De Paris parti para o mundo”, afirmou a fadista.

Em Paris encontrou “um público culto e sofisticado da Europa de então, habituado ao superlativo artístico em palco, fosse ele um recital da Piaf ou do Brel, um concerto do Sinatra, ou ainda uma ópera com a Callas, encenada pelo Visconti, nem que para isso tivesse de apanhar um avião”.

Em junho de 1956, uma revista portuguesa relatava deste modo o êxito da fadista na capital francesa: “Amália canta, e Paris acredita! A nossa Amália andou ao colo de Paris como se fosse um bebé gorducho e bonito que faz gracinhas. Em toda a parte, e em todos os seus espetáculos no Olympia bastava-lhe chegar… e logo se espalhavam sorrisos de simpatia, expressões de curiosidade, de admiração, talvez algumas de ciúme. Porque Amália é uma espécie de Casanova intelectual…”.

E a mesma publicação acrescentava: “Os franceses ouvem a Amália desde que começou a correr nos écrans de Paris, o filme ‘Les Amants du Tage’. O ‘microsillon’ da Amália que concentra dez trechos dos melhores do seu reportório, existe em todas as emissoras, nos juke-box dos bares e em todas as casas onde há um pick up [gira-discos]”.

O jornalista, Olavo d’Eça Leal, realçou ainda as “muitas solicitações” da artista que “em dez” tinha “de esquivar-se a nove”. “O quadrante do relógio não lhe permite agir de outro modo”, justificava Eça Leal.

Referindo-se à atuação para emigrantes portugueses em 1964, o responsável pela edição discográfica, Frederico Santiago, afirmou à Lusa que “é um exemplo de como Amália não só atuava nas grandes salas como, muitas vezes graciosamente, cantava para associações de portugueses”.

Entre os temas gravados neste conjunto de cinco CD, cite-se “Fado Madragoa”, “Sempre que Lisboa Canta”, “Fado do 31”, “Perseguição”, “Trepa no Coqueiro” ou “Cansaço”.

Frederico Santiago realçou que “apesar de ser já um verdadeiro mito em Portugal, foi o triunfo parisiense, em 1956, que fez o mundo de então reconhecer em Amália uma das maiores cantoras do século”.

“Paris e o seu público conseguiram sempre mitificar ainda mais os grandes artistas. Foi assim com Chopin e Bellini, na década de trinta do século XIX, foi assim com Amália e Maria Callas, nos anos cinquenta do século XX e seria ainda assim com os próprios Beatles, em 1964”, referiu Santiago.

O estudioso de fado Luís de Castro, da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, afirmou que esta caixa “dá uma perspetiva da fulgurante carreira de Amália que se destacou não só pela exuberante voz como pela capacidade criativa de interpretar cada tema, nunca sendo igual, dando-lhe a sua capacidade imaginativa”.

“Amália foi a nossa maior intérprete, não só pela carreira internacional ímpar, mas pela capacidade de ser sempre nova e surpreendente em cada interpretação dos fados, cuja melodia há muito era conhecida”, afirmou.

“Se foi em Paris que Charles Aznavour lhe escreveu ‘Aïe Mourir pour Toi’, ou Salvatore Adamo se rendeu à sua interpretação de ‘Inch’Allah’, foi também em Paris que a França lhe conferiu algumas das suas mais importantes distinções. Da medalha da cidade, em 1959, à Legião de Honra, em 1991. Seis anos depois, em 1997, um canal francês de televisão dedicou-lhe um documentário ao qual chamou ‘Un soleil dans la nuit du siècle’” diz Frederico Santiago.

A edição inclui um livro de 94 páginas com fotografias inéditas, uma cronologia das atuações de Amália na capital francesa, e um texto do historiador Jorge Muchagato, que assinou outros textos sobre a fadista.

 

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