LusoJornal | Carlos Pereira

João Corrêa – O cineasta que resgatou da sombra o Cônsul de Bordéus


O LusoJornal publica, com a devida autorização, um texto sobre o realizador João Corrêa, que faleceu recentemente em Bruxelas, que integra o volume 2 do livro da Poemar “O que muitos andaram para aqui chegarmos..”

A fotografia do livro é precisamente da autoria do jornalista Carlos Pereira, Diretor do LusoJornal e amigo do realizador.

O LusoJornal agradece a autorização de publicação da Poemar, sabendo que essa era também a vontade de João Corrêa.

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Corre o ano de 1962. O clima internacional é inspirador com o exemplo emblemático de figuras como Guevara, Amílcar Cabral ou Mandela. A nível nacional as eleições de 1958 deixam a fermentar a auréola de Humberto Delgado, mas a guerra colonial ensombra o futuro dos jovens.

A 24 de março o governo de Salazar, com base no decreto 40900 de 1957 para acabar com a autonomia universitária, proíbe as comemorações tradicionais do Dia do Estudante. Os universitários não se resignam e avançam. A polícia de choque invade a Cidade Universitária carregando violentamente sobre os jovens.

Dois dias depois, a 26, os estudantes de todas as Escolas Superiores de Lisboa declaram o luto académico fazendo greve às aulas.

A 9 de maio, um plenário aprova uma inédita e ousada greve de fome coletiva na cantina, medida proposta por Eurico Figueiredo e seguida por centenas de estudantes.

A 11 de maio, a cantina, onde cerca de oitenta ativistas faziam greve de fome e centenas de outros, solidários, faziam piquetes, é invadida – mais uma vez – pela polícia de choque. 800 estudantes, de acordo com a PSP, 1.200 segundo as Associações Académicas, 1.500 segundo o participante Octávio Quintela, são presos e levados de autocarro, da uma às sete da manhã, para o quartel da polícia na Parede. Cerca de 20 são selecionados pela PIDE para Caxias.

A maior operação policial contra os estudantes durante o Estado Novo!

A indignação e a revolta são enormes e os estudantes são libertados a 14 de maio. Um plenário no Instituto Superior Técnico determina o levantamento da greve.

Mas a crise académica não acaba aqui. No final de junho um despacho ministerial pune 21 grevistas com pena de expulsão durante 30 meses de todas as Escolas de Lisboa.

Os cerca de 25.000 (segundo relatos da época) estudantes de Lisboa, apoiados pela Academia Coimbrã, que ocupa a Associação Académica em solidariedade com os grevistas da fome cuja palavra de ordem «Ofenderam-te? Enluta-te!», protagonizam, assim, a primeira das grandes lutas de estudantes que varreram a Europa na década de 60 antes, portanto, do maio 68!

João Francisco de Almeida Manso Corrêa é, aos dezoito anos, um dos protagonistas da Crise Académica de 62 em Lisboa.

Nasce a 9 de abril de 1943 em Leiria, filho de uma professora e de um oficial do Ministério da Justiça do Tribunal de Leiria.

Janica, como ternamente é chamado em família, frequenta a escola primária em Marrazes onde conhece aquele que seria o seu maior amigo de infância, Joaquim José Sousa Dinis que viria a ser Juiz do Supremo e que, num testemunho comovente a propósito da carreira de João Corrêa, diz «Os sucessos do meu amigo de infância deixam-me feliz. A amizade enraizada na infância não morre».

Vida feliz e despreocupada no campo, brincando na eira, com idas no verão à praia de Pedrógão com o amigo e respetivas famílias!

Em meados dos anos 50, Janica vai para Leiria e o amigo parte para Aveiro distanciando-se um do outro por causa das voltas da vida.

Entretanto a família desloca-se para Lisboa, o pai será oficial de justiça no Tribunal da Boa Hora, e João completa o ensino secundário no Liceu Passos Manuel.

Aos 18 anos é aluno da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

A 24 de março de 62 está na cidade universitária para comemorar, com tantos outros, o Dia do Estudante.

Quando a 11 de maio a cantina é invadida pela polícia de choque é apanhado na leva das centenas de estudantes que vão presos. É o pai que o vai buscar argumentando, com o seu peso político, que o filho não está ali a fazer nada!

Mas, quando o decreto ministerial pune 21 estudantes com pena de expulsão, durante 30 meses, de todas as Escolas de Lisboa, João Corrêa é um deles. Não lhe valeu o pai oficial de justiça conservador, nem o primo, Ministro da Educação, José Hermano Saraiva!

Resta-lhe esperar a chamada para a tropa, isto é, a guerra colonial que começava a incendiar o medo nos jovens…

Não se resigna e decide partir. «Quando comecei a pensar vi que tinha de dar o salto…»

Vai a uma agência de viagens na Baixa com um amigo que disse ter um correspondente em Paris e querer viajar até lá. João Corrêa diz: «Vi o que os outros pediam e pedi a mesma coisa. É por isso que no meu nome atual Corrêa é com i. Quando tive o passaporte com Correia, não disse nada! Era proibido pedir passaporte…, mas tive essa oportunidade…».

Relembra o problema do i: «Já o meu avô, médico e senador que participara na Revolução de Outubro de 1910, tirava o i cada vez que o professor do meu pai escrevia mal o apelido dele!»

Um episódio trágico ocorrido numa praia da linha, o aparecimento de um jovem morto, é investigado pela PIDE que interroga a torto e a direito, o que choca João que se apercebe melhor dos comportamentos violentos da polícia política e dos preconceitos quanto à homossexualidade ligada, eventualmente, àquele acontecimento. Mais uma razão para partir.

No carro do pai de um amigo segue com mais três companheiros até Évora donde, após alguns dias, partem para França com paragem em Biarritz.

Portanto, não deu o salto: tem passaporte, carro e amigos que o acompanham até França. Vai para Paris. Leva consigo uma encomenda para entregar na Cidade Luz a António José Saraiva que está exilado em França desde 1960 (depois de ter sido expulso do ensino universitário e do ensino secundário e diversas vezes preso pela PIDE) e, desde 61, colocado no Centre National de Recherche Scientifique de Paris, na secção de História Moderna.

Quem lhe confia a encomenda (espécie de salvo-conduto nas fronteiras) é, nem mais nem menos, José Hermano Saraiva, Ministro da Educação, irmão do professor chercheur… Como os laços de sangue podem ser poderosos!

Chega a Paris.

É preciso sobreviver. No início a família ajuda-o, depois pensa que tem de trabalhar. «Fiz uns trabalhinhos». Liga-se a um grupo de opositores ao regime fascista «que eram ajudados pelo partido comunista francês». Descobre que «havia dois cafés onde os portugueses se reuniam». Vai com amigos a um deles e vê lá «o ídolo do liceu, o Morna, que às onze da noite diz que tem de ir embora porque trabalha numa fábrica e vive num bidonville em Ivry». Por curiosidade, afirma, vai com ele e fica horrorizado com o que vê: «era tudo muito pior do que os bairros de lata de Lisboa! Não havia água, mas havia máfia! Vi como os portugueses estavam a ser tratados… ouvi testemunhos de jovens sobre o trabalho dos pais e avós e pensei: eu tenho de me tirar daqui!». Refere os vários livros que falam, «com imagens e relatos dos pobres que não sabiam ler nem escrever», desses espaços de heroísmo dos imigrantes e vergonha de todos nós… O amigo vivia ali!

Permanece em Paris, inscreve-se na Sorbonne num curso de Letras, vagueia pelo Quartier Latin… Diz assim o testemunho do seu companheiro de boémia Germano Rocha: «Conheci o João na primavera de 63… ano em que Kennedy foi assassinado… Cruzámo-nos no Boulevard Saint-Germain onde com a minha guitarra eu passava de bar em bar e João pedia para o músico… Lembro-me da nossa vida de boémia no Quartier Latin, nas boîtes da Rive Gauche como L’Escale, Chez Georges, La Contre Escarpe, l’Académie de la Guitare… em noites loucas que terminavam nos Halles a comer uma sopa de cebola. Era o tempo da despreocupação…».

Abandona Paris. Cansa-se da insegurança, da incerteza, da vadiagem…

Um dia, num encontro casual com um grupo de jovens dinamarquesas estas propõem-lhe que abandone a cidade luz e aproveite a boleia de carro com elas: «O que estás aqui a fazer? Aqui não te ajudaram. Vem para a Dinamarca. Vais para a universidade, aprendes dinamarquês, obténs uma bolsa de estudos e já não vives na rua. Eu disse: Ok!».

Decide acompanhá-las.

Mas, já em Bruxelas, à chegada a Rogier, «Lembrei-me que falavam francês e havia uma universidade que eu conhecia vagamente. Disse às miúdas: dêem-me aí o vosso endereço. Se isto aqui não der, eu depois vou para lá. Emprestem-me dez francos franceses», sai do carro.

Percorre a Rue Neuve, troca o dinheiro, vê que há um filme àquela hora no cinema Métropole, compra um bilhete e entra. «Balcão, trinta francos belgas. Com dez francos franceses, tinha cem francos belgas. Cem francos belgas e a primeira coisa que faço é ir ao cinema!» Insiste: «Ir ao cinema… Estava predestinado!».

Sai do cinema e pensa «Ai, meu Deus, tenho fome». Deambula à toa e «na Rue des petits Bouchers que vejo eu? Um restaurantezinho com a bandeira portuguesa. É lá que eu vou. Peço para ver o proprietário. É uma senhora. Apresento-me e digo: olhe, acabo de chegar e, se não se importa, eu poderia vir aqui comer os restos… durante algum tempo? Ela respondeu: não, não, vai para a sala e vem comer quando quiser!». Come lá durante um mês.

Quando, mais tarde, já tem trabalho, volta ao restaurante para pagar a dívida e a proprietária responde-lhe «Não, pá, não!». Comentário do João: «Não é que havia uma solidariedade extraordinária?! É também a natureza dos portugueses».

Inscreve-se na Universidade Livre de Bruxelas. Trouxera um certificado da Sorbonne e sugerem-lhe que escolha o curso de Ciências Políticas.

Um serviço da universidade dá apoio aos estudantes oferecendo tarefas pagas. É assim que organiza a sobrevivência. Desses pequenos trabalhos vai viver ainda muito tempo. Uma das suas amizades de longa data, Aimé Kabergs, refere que conheceu João em 67 nas caves do Palais des Académies de Bruxelas onde ambos cumpriam tarefas. Também Paul Vandendries, produtor e cenarista, refere que se encontraram e se tornaram amigos quando ambos viviam desses pequenos empregos de sobrevivência numa biblioteca.

Jacques Bourgaux, advogado insigne, militante associativo para a defesa e solidariedade da Francofonia, conta que conheceu João «sem dúvida em 67, como um dos jovens portugueses oponentes ao regime fascista de Salazar, alguns por simples convicção democrática, ou por compromisso junto dos partidos ou movimentos políticos clandestinos, ou ainda, recusando fazer o serviço militar tendo como única perspetiva irem bater-se em África nas guerras coloniais de Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Cabo Verde» e continua: «nós cruzámo-nos por ocasião de atividades da Associação Geral dos Estudantes e do Cercle du Libre-Examen da ULB, principalmente por ocasião de atividades decorrentes do golpe dos coronéis, instaurando uma ditadura na Grécia em 1967, e do ‘Comité Portugal pour le retour à la démocracie’ de que eu assumi a presidência e a animação ao lado de Brigitte Wets, Sérgio Palma Brito, e sobretudo do casal Zeca e João Andrade Santos».

Vemos, pois, um João Corrêa empenhado nas lutas universitárias da ULB.

Há, entretanto, um desapontamento, uma insatisfação crescente. Recorda: «Eu não saí de Portugal para vir para Bruxelas, mesmo se um tio meu, que viera à Expo 58, me falara dessa hipótese, eu não via nada para fazer…» e desabafa «Conheci um bocado os meios da oposição portuguesa…, mas nunca acreditei… esta gentinha, disse para mim, nunca fará revolução nenhuma…» Pensou voltar ao país. Mas era impossível. «E agora o que é que eu vou fazer?… eu só gosto de cinema…».

Após dois anos a frequentar Ciências Políticas, sem bolsa de estudos, sublinha, desiste e entra para o IAD, Institut des Arts de Diffusion, prestigiada escola de cinema da Universidade Católica, «então em Bruxelas, agora em Louvain-la-Neuve», onde faz amizade com Alexandre Beja que não terminará o curso e se tornará galerista de prestígio, hoje na Figueira da Foz. João, pelo contrário, não só terminará o curso como fará uma brilhante carreira cinematográfica como vamos ver mais tarde.

Questionado sobre o pedido de refúgio da ONU, responde «Pedi, mas não podia…». Não podia obter o refúgio porque não se dirigira diretamente para a Bélgica; chegara a Bruxelas depois de dois anos em França, comprovados por um certificado de frequência da Sorbonne que entregara na ULB. E relembra: «Houve uma altura em que tive problemas com o passaporte… mas depois de várias peripécias, obtive um passaporte belga». Mas tendo um passaporte belga, devia fazer o serviço militar que era obrigatório na Bélgica… «Só fui dispensado de cumprir esse dever porque, entretanto, tive uma filha nascida em Bruxelas».

Fica com a nacionalidade belga. «Mas não perdi a nacionalidade portuguesa, porque pela Constituição Portuguesa não se perde nunca a nacionalidade».

Constitui família. Casa com Evangelia Adamopoulos, grega da belíssima ilha de Creta, intérprete do seu primeiro filme e companheira de vida. Tem dois filhos Alexandra e Laurent, nomes fáceis de pronunciar, faz questão de salientar, em qualquer das línguas.

Segundo o testemunho de outro amigo, Paul Geens, «estuda Ciências Políticas até 65, mas a sua paixão pelo cinema é mais forte: inscreve-se no IAD (Bruxelas) para estudar realização cinematográfica; termina o curso em 1968 com a curta-metragem ‘Anne’ interpretada pela sua futura esposa Lia Adamapoulos que é selecionada para diversos festivais, entre eles o de Adelaide, Austrália».

É ainda o mesmo amigo que sublinha a determinação do seu pensamento quando ele lhe explica: «Um filme para mim, é antes de tudo, qualquer coisa que ofereça espetáculo ao público… eu não quero parecer pretensioso nem dar lições aos outros. Respeito os que querem fazer filmes que os satisfaçam a eles, indiferentes ao resto do mundo. É uma opção. A minha é querer fazer não UM filme, o Meu filme, mas exercer toda a minha vida a profissão de cineasta».

Afirma que os filmes devem, antes de tudo, contar uma história, tão animada quanto possível, com saltos dramáticos que mantenham o interesse do espectador sem que, por isso, qualquer preocupação cultural possa ficar de fora.

Em 1970 escreve e roda em vários lugares da Bélgica, entre eles Bruxelas, o filme «Féminin féminin». Trata-se de um filme psicológico e intimista que, em entrevista, classificou de variações sobre o eterno feminino. Nas salas em 1973, apesar das reticências da crítica, obtém um sucesso confortável junto do público, sendo os direitos de distribuição vendidos para fora de portas, França, Itália, Argentina, Grécia…

Depois de trabalhos de encomenda, filmes publicitários, documentários como «Francorchamps», escreve em dois meses o guião de «Son premier été» rodado em 1974.

Conta como foi: «Como português da Bélgica, deixei-me fascinar, na minha infância, pela existência duma filial da FN Herstal (fábrica nacional belga de armamento) perto da minha aldeia natal. Este traço de união entre as minhas duas pátrias sempre me traumatizou. Interessei-me, do exterior, pelos problemas das armas, das fábricas de armas, do tráfico de armas que, necessariamente, dão origem à violência. Por isso, fiz das personagens da minha história gente que representava as diversas engrenagens do tráfico de armas».

A história é, em resumo, a de uma jovem que por amor a um gangster se encontra implicada num esquema de tráfico de armas e escolhe morrer no lugar do seu amante.

Curiosamente, a denúncia da violência das armas, compromisso ético de João, surge no ano em que Portugal deseja renunciar a elas…

Quando se dá o 25 de Abril, de que tem notícia num bar, «estava a rodar um filme importante».

Por causa do cinema e da família não pensou regressar ao país.

«Só voltei a Portugal em 75». Entretanto, pais, irmão e outros familiares tinham visitado João em Bruxelas.

É ainda o compromisso ético que leva, mais tarde, João Corrêa a produzir «Les enfants de l’oubli».

Diga-se, antes de mais, que na Bélgica, segundo o seu testemunho, cerca de 35.000 crianças são colocadas em instituições, não sendo, na maior parte dos casos, delinquentes, mas vítimas de dramas familiares, crianças abandonadas, provenientes de meios social e intelectualmente desfavorecidos. A vida e a educação destas crianças revelam-se um falhanço pois, privadas de liberdades, sem direitos, sem afetos, estão entregues à autoridade absoluta dos educadores, prevendo-se-lhes apenas um futuro sombrio…

Vejamos como ele recorda a experiência: «Eu tinha lido o livro de Jules Brunin ‘L’enfer des gosses’ onde ele contava dez anos da sua infância passados em casas de acolhimento de jovens. Na noite de Natal de 1977 Jules levou-me a visitar crianças que sofriam de uma verdadeira falta de ternura… Quando voltei para casa vi o sorriso dos meus filhos ao pé da árvore e tive uma enorme má consciência…. Disse-lhe: eu vou fazer um filme para ti. Para provar que tu tens razão! Um filme para os que não acreditam em ti! Nos dias seguintes começámos a rodar um filme que devia ser uma curta-metragem, que serviria de documento para ilustrar as conferências de Jules Brunin. Mas a cada visita a uma casa de acolhimento assinalavam-me que, noutras, o inferno era ainda pior. Durante nove meses filmámos sem parar. Como toda a gente, eu sabia que a vida nas casas de acolhimento não era agradável, mas estava longe de imaginar o que eu vi, um inferno! Eu não poderia nunca ter pensado em tamanho escândalo!».

Rapidamente a ideia de uma curta-metragem se transformou num filme mais longo, tantas eram as coisas a dizer, a mostrar, a denunciar!

Feito sem dinheiro, graças a um extraordinário gesto de boa vontade dum grande número de profissionais do cinema que trabalharam benevolamente, era um filme que «era preciso fazer, custasse o que custasse, porque era necessário testemunhar!».

Em janeiro de 1979 é apresentado no sétimo ‘Festival Internacional dos Direitos do Homem’, em Estrasburgo e no sexto ‘Festival Internacional de Cinema de Bruxelas’ e recebe críticas muito elogiosas, apesar dos incómodos que uma situação tão delicada como esta, provocou: queixas por difamação da parte de responsáveis das casas de acolhimento e até, em dado momento, a confiscação do filme por parte do Procurador do Rei…

Mas, a 21 de outubro, recebeu em Itália, na Feira de Milão, o Diploma d’Onoro Del Festival Competitivo «The Child of our Time» por esse mesmo filme!

Sublinhamos, mais uma vez, o carácter humanista e até o desassombro do nosso cineasta!

Nos anos que se seguem, João Corrêa inicia um projeto para um documentário destinado a sensibilizar o público para o fenómeno da droga.

São palavras suas: «A toxicodependência e, em particular, o crescimento do consumo da droga nos jovens, levam a uma situação de extrema gravidade, que diz respeito a toda a sociedade. Situação tanto mais angustiante quanto são parciais as informações a este respeito. O fenómeno da droga é tão obscuro quanto tocante; não evolui senão lenta e subterraneamente, passando, pouco a pouco, do secreto ao conhecido, do marginal ao coletivo… É na esperança de lutar contra esta tendência que rodo este filme… Um filme que entra no circuito comercial e que é suscetível de tocar todos os públicos…. Construído a partir de um conjunto de testemunhos de jovens drogados, o filme mostra o seu sofrimento, por vezes a sua esperança, muitas vezes a sua resignação».

«Les territoires de la défonce» sai em 1984.

A propósito deste trabalho, a sua consciência dos problemas sociais é sublinhada por Marcy Calamatra, ator e produtor: «O seu compromisso social manifesta-se no ‘docudrama’ «Les territoires de la défonce» sobre a expansão da toxicodependência num bairro específico de Bruxelas. Para a época foi uma revelação que, ao mesmo tempo, embaraçava as autoridades governamentais, mas reforçava também o movimento das ONG socialmente empenhadas e da Igreja. Este filme tem uma mensagem tão forte que, 35 anos mais tarde, continua a revelar-se de atualidade depois da sua inserção no programa da Netflix nos últimos meses de 2022».

Porém, o vínculo ético e social do cineasta não se limita a questões como as que o seu olhar atento denuncia nos exemplos que abordámos. Também a defesa dos direitos da sua classe é uma luta que trava ativamente ao longo dos anos e o leva ao cargo de Secretário-Geral da AIAA (Associação Internacional dos Autores do Audiovisual) e da FERA (Federação Europeia dos Realizadores do Audiovisual).

Françoise Havegange, diretora jurídica da FERA entre 1989 e 1999, testemunha: «João era um infatigável defensor dos autores e das suas preocupações. Tinha uma grande capacidade de convicção que aplicava na arte dos encontros. O seu objetivo era construir uma política europeia do audiovisual e da cultura, respeitadora dos autores e valorizando a criação europeia. Nós organizámos um encontro de realizadores europeus no Parlamento, em Estrasburgo. João fez vir realizadores de toda a Europa o que foi um enorme sucesso mediático e político com a presença também de Jacques Delors, Presidente da Comissão Europeia».

O encontro foi decisivo para reconhecer no realizador de uma obra audiovisual a qualidade de autor e para defender as produções nacionais do domínio do cinema americano.

Quando da queda dos regimes comunistas, João põe em marcha programas de apoio aos autores dos países de Leste, fazendo valer os seus direitos, preservando as suas obras e organizando financiamento.

Este olhar atento ao outro, revela-se também na defesa dos direitos de autor, o do direito moral dos cineastas africanos; a sua grande missão é a obtenção de fundos para promover a cooperação com África.

Jacck Bromski, realizador polaco, diz: «Penso com ternura na época em que João sabia unir à sua volta cineastas notáveis de toda a Europa e se batia no Parlamento Europeu pelos interesses do nosso meio profissional…».

Depois da criação de múltiplas outras obras de tipo variado, surge a que será a sua obra-prima: «O Cônsul de Bordéus».

Relembremos, rapidamente, quem foi Aristides de Sousa Mendes, o famoso Cônsul de Bordéus.

Nascido a 19 de junho de 1885 em Cabanas de Viriato, filho de uma família da aristocracia rural abastada, católica e monárquica, destinado à carreira diplomática, como o irmão gémeo, passa por diversos Consulados em vários países, Zanzibar, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Bélgica, onde vai nascendo a numerosa prole de catorze filhos.

Depois de uma estadia de nove anos como Cônsul-Geral de Antuérpia, vai em 1938 para Bordéus, quando o fermento da guerra se vai instalando e muitos são já os angustiados fugitivos da Alemanha nazi por razões de nacionalidade, credo político ou religioso.

Importa dizer que, durante os anos 30 Portugal, por razões geográficas, é destino apetecível de refugiados que pretendem obter passaportes e vistos para alcançar o Atlântico Oeste. O regime, apertado pela fobia anticomunista, restringe a concessão de vistos com medo dos polacos, russos e judeus que desembarcam no país com esperança de salvar a vida. É assim que surge a fatídica Circular 14 do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 11 de novembro de 39 obrigando os serviços consulares a consultar a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e o Ministério antes de concederem vistos para trânsito a apátridas, russos, judeus… expulsos dos seus países.

Quando, depois da invasão da Polónia, a 1 de setembro de 1939 é declarada a guerra, o Cônsul de Bordéus envia parte da família para Portugal como se pressentisse já a ofensiva alemã sobre a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo e a França que surge em maio de 1940, criando um êxodo de cerca de 8 milhões de pessoas, sobretudo mulheres, velhos e crianças, para sul. Muitos chegam a Bordéus.

Desde os primeiros dias de junho, o Consulado não tem mãos a medir tantos são os que alentam a esperança de salvação pela mão do nosso Cônsul. Depois de se manter fechado no quarto por uma crise de fadiga e consciência, exasperado por causa da Circular 14, decide que «já não há nacionalidade, nem raça, nem religião». Com a ajuda dos filhos e outros familiares e do Rabino Jacob Kruger que conhecera em Antuérpia, carimba passaportes, assina vistos, indiscriminadamente, usando todo o papel disponível no Consulado. Advertido por Lisboa do não cumprimento de regras, responde: «Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus».

Pressionado pela Embaixada em Paris, Sousa Mendes deixa Bordéus, mas vai para o Consulado de Baiona continuando, de 20 a 23 de junho segundo alguns testemunhos, a atividade no mesmo ritmo, perante um Vice-Cônsul estupefacto. Quando já não possui mais papel, organiza uma coluna de veículos de refugiados liderada por ele até à fronteira com Espanha, conseguindo fazê-los passar com êxito.

Terá salvo 30.000 refugiados, dos quais 10.000 judeus! João Corrêa diz que «segundo o historiador Yehuda Bauer terá levado a cabo a maior operação de salvamento de refugiados, conduzida por um só homem, durante a Segunda Guerra Mundial»!

Caído em desgraça, Salazar nunca lhe perdoará a traição, vive os últimos anos de vida, em Cabanas de Viriato, longe dos filhos, chegando a comer da sopa dos pobres…

Hoje é apelidado de «Justo entre as Nações» no Memorial do Holocausto.

Portugal reconheceu-o condecorando-o a título póstumo: como Oficial da Ordem da Liberdade e com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade!

Às perguntas porquê esta escolha e se tem origem judaica, João Corrêa responde que não é a primeira vez que o questionam sobre a pertença ao judaísmo, afirmando que, após pesquisa na Torre do Tombo, certamente não. A seguir recorda como descobriu a história do Cônsul «Aristides de Sousa Mendes, personagem fascinante que no primeiro momento não me foi simpática; este aristocrata monárquico e reacionário era como que o retrato de certos membros da minha família em Portugal de que eu tinha fugido sem arrependimento».

Em 1990 estava em Riga, capital duma Letónia acabada de se tornar independente após a queda do muro de Berlim, passeando com um alto funcionário do Ministério da Cultura que o convidou a visitar a casa onde nascera o grande realizador soviético Eisenstein, judeu alemão de origem. Em conversa, deu-lhe conhecimento da sua preocupação de encontrar «uma boa história» que lhe fora pedida por um dos canais de televisão pertencentes à União Europeia de Radiodifusão que, agrupando grandes canais de televisão pública, produzia histórias capazes de interessar vários países europeus. Confessou-lhe que tinha já uma ideia para uma série: se a Espanha e Portugal tinham expulsado os judeus em 1492 dos seus territórios, nos anos 30 do século XX, ironia das ironias, muitos voltavam a Portugal, fugidos do poder nazi, sobretudo na esperança de passar para a América.

«Pensei ter encontrado nesta surpreendente reviravolta da história, as bases dum bom cenário para os produtores dos grandes canais europeus. Já tinha intitulado a série em quatro episódios de Viagem a Lisboa que passava por Varsóvia, Berlim, Paris e Bordéus. Procurando informação, em Bordéus encontrei um frade franciscano, Padre Bernard Rivière que com o professor Manuel Dias foram os precursores do combate para a reabilitação de Aristides de Sousa Mendes. O Padre Rivière entusiasmou-se com o meu projeto acrescentando: «um bom filme seria sobre o Cônsul de Bordéus, sobre Mendes!».

De regresso a Bruxelas, começa uma pesquisa que se afigura desanimadora, pois nada consegue saber, nem mesmo junto da comunidade judaica da Bélgica.

Finalmente, em contacto com o Centro Simon Wiesenthal que organizara uma cerimónia a Sousa Mendes, consegue um encontro com o Rabino Marvin a quem pediu mais precisões sobre o cônsul. E conta: «Imediatamente me interrogou: quais? Como podia ter o Cônsul de Portugal passado mais de 30 mil visas em pouco mais de duas semanas?… O Rabino sorriu, levantou-se e perguntou-me «Já viu um visa Mendes» Eu respondi que não com a cabeça, o Rabino levantou-se, dirigiu-se a um grande cofre, abriu-o e estendeu-me um pequeno papel amarelado dobrado em quatro. «Aqui está, repare este pequeno retângulo de papel e compreenderá». Eu desdobrei o pequeno papel amarelado e li um nome judeu escrito à mão, um tampão do Consulado de Portugal em Bordéus, uma data de junho de 1940 e uma assinatura MENDES! Digo-lhe, espantado, isto parece um salvo-conduto da Idade Média! Responde-me «É isso mesmo» e, dobrando o papel deposita-o de novo no cofre, acrescentando, «mas esta estratégia funcionou. É por isso que se tornou um «Justo entre as Nações». Neste preciso momento eu decidi fazer tudo para escrever e realizar O Cônsul de Bordéus!».

O filme sai em 2011, sendo projetado a 26 de junho em antestreia em Bruxelas, com a presença do Presidente da Comissão Europeia, de alguns descendentes do Cônsul e de um público verdadeiramente emocionado, numa sessão inesquecível!

É em 2012 que as salas portuguesas têm o privilégio de o passar dando a conhecer o Justo entre as Nações. Na Bélgica chega aos ecrãs em 2016, depois de um périplo por diversos países, Polónia, Áustria, Alemanha, Israel…

Mas João Corrêa não se fica por aqui, tão fascinado está pela sua descoberta: sobre Aristides de Sousa Mendes escreve uma peça de teatro em 2017, e duas outras obras que divulgam a personagem: Sousa Mendes, le Consul de Bordeaux – Regards sur la Belgique et l’Europe au XXe siècle em 2017, e uma biografia do diplomata Le Consul de Bordeaux-Le cas Sousa Mendes em 2020.

Foi assim que o cineasta resgatou da sombra e de um injusto esquecimento uma figura notável da história de Portugal!

Agora o tempo é mais propício à escrita. Em 2020 publica “Murmures de Liberté – Chroniques de quatre jeunes portugais dans les années soixante”, ficionando, entre outros aspetos, a sua experiência de partida de Portugal durante a ditadura. Anunciado está também um texto que evidencia a sua atenção ao mundo presente, as suas preocupações de defesa da liberdade e a condenação da opressão: “Bruxelles Centre de l’Europe face à la Guerre de l’Ukraine”. Isto depois de o filme sobre o Cônsul ter sido de novo difundido para ajudar os refugiados ucranianos.

Perante a pergunta «Sente-se mais belga ou português?», responde «Não posso negar que tenho uma raiz portuguesa. É impossível, é impossível! O meu avô, a minha mãe, o meu pai… é, estou muito ligado…, mas depois da morte da minha mãe afastei-me de Portugal…».

Se a raiz portuguesa está também em 52 hectares de terra que tem na Vila da Marmeleira onde tinha vivido o avô médico e senador, o seu coração está mais próximo de outro solo: a propriedade que possui na mágica ilha de Creta, terra da sua companheira de sempre Evangelia Adamopoulos.

No Boulevard Louis Schmidt onde mora, num anoitecer de janeiro de grande nevão, depois de uma longa e amável conversa, diz evasivo: «é tudo muito simples na minha vida; as coisas decidem-se de forma muito simples, mesmo…».

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