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A apresentadora lusodescendente de programas de televisão Karine Lima, que também é manequim, atriz, cenarista, produtora e realizadora, gostava de realizar um filme sobre a emigração portuguesa em França, mas também gostava de gravar um duo com um cantor português.

Numa entrevista ao programa Didascália, no LusoJornal, recentemente regressada dos Estados Unidos, onde viveu alguns anos, Karine Lima falou das suas origens, em Ovar, e da sua infância, em Champigny-sur-Marne (94).

“Quando eu era criança disse aos meus pais que queria ser atriz e apresentadora de televisão. Para eles era impossível. Nunca me impediram de fazer o que eu queria, mas eu penso que na cabeça deles era algo não realizável” disse na entrevista conduzida por Isabel Ribeiro. “Emigraram para França, tiveram de aprender uma nova língua, não podiam imaginar que eu pudesse realizar aqueles sonhos”.

Com apenas 12 anos de idade, Karine Lima inscreveu-se numa agência e começou a ser manequim, depois fez figuração, fez dança, fez teatro…

“Naquela altura não havia internet, havia o magazine Casting e passávamos o tempo a responder a anúncios, a enviar cartas de motivação, currículos e até cassetes VHS” explica ao LusoJornal como se estivesse a falar de tempos remotos. Começou a fazer dança na televisão até que foi animadora. “É uma vida complicada. Estamos sempre em castings” sorri.

Depois de uma passagem pelo canal Comédie foi durante alguns anos a apresentadora do programa M6 Kid, no canal francês M6.

Durante estes anos, recebeu muitas mensagens de carinho por parte de lusodescendentes que a consideravam como sua “representante” na televisão. “Eu nunca me vi como uma representante dos lusodescendentes, mas recebi tantas mensagens simpáticas, tantas coisas agradáveis, que isso deu-me muita força”.

Mais tarde surgiu a oportunidade de trabalhar também para o canal português RTP internacional, no programa Europa Contacto, e apresentou, com José Malato e Merche Romero, algumas edições especiais do programa Portugal no Coração, a partir do estrangeiro. “Foi um orgulho para mim. A minha avó podia ver-me na televisão, a apresentar em língua portuguesa” diz Karine Lima.

Aliás, Karine Lima admira os apresentadores da televisão portuguesa. “Passam 4 a 5 horas por dia de direto e estão fresquíssimos. Aqui em França, uma hora de direto já é bastante”.

Karine Lima é uma trabalhadora, uma guerreira. Gosta de se lançar em novos desafios, mas diz que “tudo se consegue com muito trabalho”. Custa-lhe compreender a situação atual, em que os “influenciadores” e os participantes em programas de realitys-shows “surgem do nada e ganham muito dinheiro. Eu dou-me mal com isto, é gente que não trabalha, não são cultivados, dão muitos erros em francês, veiculam valores que não são os meus, como por exemplo os da cirurgia estética… de uma certa forma, tenho medo desta situação. Normalmente, quando se quer ser artista é necessário trabalhar muito, passar castings toda a vida…”

Os valores que quer transmitir ao filho, ainda bebé, são outros: a honestidade, o respeito pelos outros, pelo planeta, pelos animais, o trabalho e a generosidade. São valores que diz ter herdado da família.

Diz que é uma riqueza ter aprendido a falar português quando era pequena, “porque depois aprende-se mais facilmente outras línguas”.

Lembra-se dos avós, das casas na terra. “Íamos à horta colher o que comíamos, salada, tomates, tudo natural, ‘bio’ como se diz agora”. Lembra-se das vinhas dos bisavôs, quando vindimava e quando pisava as uvas para fazer o vinho. Lembra-se dos cheiros, das comidas, dos coelhos, das galinhas, dos ovos,… “Quando somos pequenos, não nos apercebemos da chance que temos de viver tudo aquilo” diz ao LusoJornal.

Mas também gosta muito da França. “Aqui temos também muita sorte. As gerações de portugueses adaptaram-se tão bem em França. Quando chegaram a França, os meus avós viveram em bidonvilles. Hoje ouve-se falar de bairros da lata, mas os Portugueses viveram a mesma coisa e muita gente não sabe disso! Não tinham luz, nem água, e quando vejo como são bem-sucedidos… é espetacular, admiro-os muito. Se estamos aqui hoje é graças a eles”.

É para transmitir este sentimento de admiração e para retribuir tudo quanto recebeu, que Karine Lima gostava de realizar um documentário sobre a emigração portuguesa em França. “Se conseguir fazer este documentário, é genial”.

Este não será o primeiro filme de Karine Lima. “Um dia, estava na República Dominicana e acordei de noite. Escrevi duas curtas-metragens: “Impuissant” e “Fatale”, “um fala do síndroma de Estocolmo e o outro fala da violência conjugal, mas desta vez é o homem que sofre as violências conjugais. Porque não? É sempre uma violência inadmissível”.

Quando regressou a Paris, acabou por encontrar uma “equipa técnica extraordinária de cerca de 50 pessoas”, e lançou mãos à obra, decidiu fazer a sua primeira realização, filmou os dois filmes em 4 dias. “Fatale” foi filmado em 35 mm e já participou em cerca de 30 festivais em todo o mundo, tendo obtido vários prémios: melhor curta no Cine Fest Global (EUA) e no International Euro Film Festival (Espanha), onde Karine Lima também obteve o prémio de Melhor atriz.

Apesar de ter estado menos presente nos écrãs de televisão, Karine Lima continua a fazer aquilo que sempre sonhou fazer e por isso sente-se… realizada.

Ver a entrevista AQUI.

 

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