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Cultura

 

Depois do Canadá, os EUA e o Brasil são, respetivamente, os maiores países das Américas, sendo também os mais populosos. O Brasil, com 8,5 milhões de km2 tem exatamente o dobro da superfície da União Europeia. É, portanto, das relações entre estes dois gigantes que, juntos, possuem mais de 600 milhões de habitantes, que Catherine Leterrier trata em “Brésil-États-Unis, pour mieux comprendre une relation complexe”.

Doutorada em estudos latino-americanos, Catherine Leterrier viveu os primeiros vinte anos da sua vida no Brasil e é professora na Universidade Paris IV-Sorbonne. Este seu trabalho parte da seguinte premissa: como é que dois países, antigas colónias europeias e à partida com os mesmos alicerces históricos (escravocracia, tomada do poder pela elite branca e prossecução da conquista e colonização pós-independência dos territórios indígenas) entram, ao longo dos séculos XIX e XX, em profunda divergência? Mesmo quando parecem próximos politicamente – dois governos de extrema-direita no poder personificados em Trump e Bolsonaro – estes dois países americanos raramente convergem.

Logo na abertura da sua obra, Catherine Leterrier analisa o termo “americano” e estranha que o nome de um continente inteiro sirva para denominar um único país, isto regista-se absolutamente na língua francesa e, em menor escala, na língua portuguesa, na qual o termo “estadunidense” batalha todos os dias para se impor. Esta questão da denominação dos habitantes dos dois países em análise, Brasil – povoado de “brasileiros” – e Estados Unidos – povoado de “americanos” – simboliza vigorosamente a hegemonia dos segundos sobre os primeiros, levando o comum dos mortais a perguntar-se “então os brasileiros não são eles próprios americanos do mesmo modo que portugueses ou franceses são europeus?”.

Ora esta forte simbologia nem sempre representou a hegemonia de um sobre o outro e o Brasil sempre se tentou desmarcar do grande vizinho do norte, utilizando a Amazónia como grande muralha verde e a sua língua como diferenciador cultural. Até o modelo “nacionalista” de crescimento económico do Brasil contrasta com o modelo “liberal” estadunidense.

Porém, à partida, tudo parecia unir estes dois países. A rutura com as respetivas colónias e independências são espaçadas menos de 50 anos e o poder passou para as elites brancas europeizadas. Não devemos esquecer, claro, a longa história escravocrata que ainda hoje se exprime no racismo sistémico e estrutural de que padecem as duas sociedades. Outro ponto comum é a expansão territorial para oeste ao longo da qual as elites brancas europeizadas procederam ao roubo dos territórios indígenas e ao extermínio quase absoluto dos seus povos, prosseguindo, assim, o genocídio iniciado por espanhóis e portugueses séculos antes. Estas antigas colónias tornaram-se então elas próprias novas potências coloniais, diferenciando-se do modelo colonial europeu apenas devido à continuidade territorial dos seus impérios. Trata-se, portanto, de uma “independência sem descolonização”, tal como explica Michel Cahen no prefácio da obra: “os colonos tomaram o poder e fundaram o seu próprio Estado colonial, a sua colónia doravante autocentrada”.

O que irá diferenciar fortemente estes dois países ao longo do século XX é o lugar do Brasil, que nasceu como império, e dos EUA, que nasceram como república, no globalismo capitalista, mormente após o fim da Grande Guerra, esse primeiro suicídio coletivo europeu, que catapultou o gigante norte-americano para um lugar cimeiro da lista das potências industriais, posição que o segundo suicídio coletivo europeu – a ascensão do nazismo e dos fascismos e a consequente Segunda Guerra Mundial – viria a consolidar.

Já o Brasil, sempre financeiramente dependente do Reino Unido desde 1822 e com uma elite escravocrata mais resistente e ampla do que a dos EUA, factos aos quais se acrescentam uma maior ligação ao sul da Europa e não ao centro nevrálgico do capitalismo que residia no norte da Europa, foi sendo afastado para a semiperiferia.

Apesar da sua dimensão geográfica, riqueza natural e peso demográfico, o símbolo maior deste lugar do Brasil na semiperiferia global é a relação entre os dois Chefes de Estado ao longo dos anos de concomitância no poder de Trump e Bolsonaro. Se, nas palavras de Michel Cahen, é verdade que “Bolsonaro morre de amores por Trump, mas este último deixa bem patente que Bolsonaro não passa de um seu subalterno”. América latina como eterno quintal estadunidense?

 

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