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Cultura

 

Publicada pela Éditions Points no mês passado, “La Saga des Maufrais” é uma coletânea que inclui três importantes obras de literatura de aventura e exploração do século XX francês.

São mais de 800 páginas que levam o leitor até às selvas do Brasil e da Guiana e que, pelo meio, descrevem uma das mais tocantes tragédias dos anos 50: o misterioso desaparecimento de Raymond Maufrais no coração da Amazónia e a consequente (e incessante) procura que, em vão, o seu pai, Edgar, levou a cabo para o encontrar. Um dos mais belos exemplos de amor paternal de que há memória.

Raymond Maufrais (1926/1950?) cedo mostrou a sua aptidão para a aventura e para a escrita. Aos 9 anos de idade, ele e um grupo de amigos percorrem as florestas do Haut-Var com a intenção de atingir, por terra, as colónias francesas da América do Sul.

Já durante a ocupação nazi-fascista da França, Raymond, aos 16 anos, tentou atravessar a Mancha para se refugiar na Inglaterra. A travessia, todavia, terminou antes de começar devido à queda de uma falésia e a várias costelas partidas.

Em 1946, vencida a guerra, Raymond, sem dinheiro ou qualquer meio de subsistência, parte para o Brasil, onde, graças a um misto de sorte e desenrascanço, é admitido no seio de uma “missão de pacificação” em pleno território dos índios Xavantes, ocupantes originais do atual estado do Mato-Grosso e povo bastante hostil à colonização branca. Os Xavantes, pouco antes, haviam exterminado a missão de Pimental Barbosa. Esta nova expedição, capitaneada por Francisco Meirelles, é composta por uma dúzia de exploradores, entre os quais se encontra Raymond.

Após uma viagem de quase três mil quilómetros de travessia de terras inóspitas, a expedição chega às terras dos Xavantes apenas para logo bater em retirada devido a um feroz ataque dos Xavantes. O regresso à costa é terrível, marcado pela fome, a sede e a doença. Desta aventura nascerá o livro “Aventures au Mato-Grosso” que, após inúmeras recusas editoriais, será publicado após o desaparecimento de Raymond.

Depois de uma rápida estadia em França, Raymond Maufrais regressa à América do Sul, desembarcando, desta vez, em Cayenne.

Em 1950, aos 23 anos de idade, ele parte em expedição solitária aos míticos “montes” Tumucumaque (Tumuc-Humac em francês) situados na fronteira entre o Brasil e a Guiana, que constituem, hoje, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque nos estados do Amapá e do Pará.

A verdade é que Raymond Maufrais nunca mais foi visto. Um mês depois da sua partida, um índio Teko encontrou o seu caderno de viagem perdido no último bivaque onde pernoitara, nas margens do rio Tamouri. Foi então graças a esse achado que nasceu o mito Raymond Maufrais e o não menos mítico livro “Aventures en Guyane”, uma narrativa marcada pela doença, o delírio, o desespero e a fome (ele abate e come Bobby, o seu cão e melhor companheiro). Tudo indica que Raymond terá morrido afogado.

É então que entra em ação o seu pai, Edgar Maufrais (1900/1974), um contabilista no arsenal de Toulon. Edgar parte para a Guiana e o Brasil onde passará os 14 anos seguintes movido pela esperança de encontrar o filho desaparecido. Um amor paternal sem limites que dará origem ao livro “À la recherche de mon fils”, publicado após a morte de Edgar.

São, portanto, estas três obras – “Aventures au Mato-Grosso”, “Aventures en Guyane” e “À la recherche de mon fils” – que compõem “La Saga des Maufrais”, uma leitura inolvidável sobre os perigos das selvas brasileiras, a forma como as ancestrais terras dos índios foram usurpadas pelo colonizador branco e o sofrimento que esmaga um pai que perdeu um filho.

 

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