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Vasco Martins dava aulas de francês para emigrantes na Renault quando a fábrica entrou em greve, em maio de 68, e participou na criação de um Comité no 14º bairro de Paris que coordenava ações para apoiar «o movimento».

O Português chegou a França, em 1961, escondido num camião de ostras, «com uma mochila às costas, uma manta e alguma fruta», e sete anos depois viveu um movimento de «expressão livre» que associa ao espírito da letra «É preciso avisar a malta», de Zeca Afonso.

O seu «maio de 68» começou em finais de 1967, quando entrou num Comité contra a guerra no Vietname, e em março de 1968, quando assistiu às primeiras manifestações de estudantes e cargas policiais, no Quartier Latin, na altura em que trabalhava na livraria Eyrolles, no boulevard Saint Germain.

Em maio, quando a Renault entrou em greve, Vasco já lá dava algumas horas de alfabetização para emigrantes e conseguiu um cartão para entrar na fábrica ocupada, onde ia, por vezes, comer ao refeitório, conversar com operários portugueses e assistir ao que por lá se passava, como «o voto para continuar ou não a greve».

«Eu não ia lá com um espírito missionário de politizar. Era tentar dar a minha opinião sobre por que é que estávamos cá fora. Portugal era para nós terra madrasta porque havia um Governo que explorava e aproveitava a nossa ignorância», contou o homem que integra o primeiro tomo do livro «Exílios – Testemunhos dos Exilados e Desertores Portugueses na Europa (1961 e 1974)».

Uma «recordação fantástica», que «parece um filme», foi quando percorreu Paris num «autocarro dos antigos, com plataforma», com um grupo de manifestantes, a entoarem «palavras de ordem, canções revolucionárias e outras populares», depois de uma manifestação no Quartier Latin contra a expulsão do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit.

A viagem continuou pela margem direita do rio Sena até à fábrica da Renault-Billancourt, onde o português gritou: «Continuemos o combate» e «Viva a unidade entre os trabalhadores franceses e os trabalhadores emigrantes».

O seu «grande mergulho no ativismo» e a sua «escola primária na política» – que o influenciou «para sempre» – foi a participação no Comité de ação do 14º bairro de Paris, que fazia ações militantes junto de operários e que organizou a pintura, a vermelho, de um dos símbolos de Paris, o leão da rotunda da Praça Denfert-Rochereau.

«Realmente era impressionante ver o leão todo vermelho. Vermelho porque era a cor da revolução. Para uns, a revolução socialista, para outros a revolução comunista, para outros a revolução das ideias. Toda a gente tinha direito a falar da sua revolução ou daquilo que concebia como revolução», recordou o português de 76 anos.

Ainda que fosse a várias manifestações, Vasco só se lembra de ter ajudado, uma vez, a «fazer um embrião de barricada», já que «havia o receio de ser apanhado» e, de facto, meses depois, a PIDE emitiu um mandato de captura contra ele por ter fugido à guerra colonial.

No «Comité de Ação de Paris 14», Vasco era conhecido como «Manuel» e foi como Manuel que se deslocou de camião ao distrito de Loire «para buscar coelhos, alfaces, couves e distribuir, pelo mesmo custo, aos grevistas de pequenas fábricas e ateliês».

Vasco também levou «coelhos, alfaces, cenouras e batatas» ao estaleiro da demolição da antiga Gare de Montparnasse, onde havia muitos Portugueses com quem falou sobre as greves porque, para a maior parte, as ocupações eram «uma situação completamente inédita».

«Tive a oportunidade de falar com alguns, não só lá mas em muitos sítios, e era tentar compreender a situação. Havia uma tentativa de explicar o porquê da greve, o porquê da ocupação, o porquê dessa agitação social que andava à volta e dizer ‘não há que ter medo’», lembrou.

Graças ao Comité de bairro, Vasco ainda colou cartazes a apoiar as greves e participou na edição do boletim «Anti Mythe», no qual se publicavam notícias das ocupações e se dava a palavra aos habitantes e aos grevistas do quarteirão.

Vasco Martins também foi ao grande anfiteatro da Sorbonne, onde ouviu, por exemplo, os líderes estudantis Roland Castro e Jacques Sauvageot, assim como o filósofo Jean-Paul Sartre, num ambiente animado porque «o direito de contestar era interno ao movimento, não era só contestar contra uma ideologia dominante cá fora».

«Para mim, o espírito do maio de 68 é ‘prendre la parole’, quer dizer, é que as pessoas se exprimam. É a coisa mais maravilhosa no maio de 68. ‘É preciso avisar a malta’, mas é preciso também que as pessoas se exprimam. Por vezes, a participação numa greve ou numa manifestação também faz criar um espírito na pessoa que a leitura de dezenas de panfletos não dá», concluiu o homem que vive em Paris há mais de 50 anos.

 

 

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