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“Os Provocadores de Naufrágios” é o segundo romance de João Nuno Azambuja e acaba de chegar às livrarias portuguesas, editado pela “Guerra & Paz”.

Já o seu primeiro romance – “Era uma vez um Homem” – venceu o Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa – de 2016, organizado pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa.

O João Nuno nasceu em Braga em 1974, estudou História, foi Comandante de pelotão nas tropas paraquedistas e proprietário de um bar onde decorreram inesquecíveis concertos de música celta.

“Os Provocadores de Naufrágios” conta-nos a história de Klaus Kittel, um luso-alemão nascido no Porto em 1909 e criado no seio das comunidades alemã e inglesa existentes na cidade. O seu pai, originário de Karlsruhe, veio trabalhar para o Porto e deixou-se ficar pela Cidade Invicta até a família ter sido expulsa de Portugal em 1915, na sequência da Grande Guerra de 14-18.

Kittel, que também se sentia um português, durante a sua vida discursou para a elite nazi e combateu, mais tarde, nos exércitos de Hitler até à derrota do III Reich, tendo sido feito prisioneiro de guerra e tendo-se tornado um trabalhador-escravo na França do pós-guerra.

Um livro raro visto narrar a História da Segunda Guerra Mundial através da perspetiva dos vencidos.

 

João Nuno, sei que chegaste a este homem algo por acaso e esse encontro até envolve um misterioso manuscrito da autoria do próprio Klaus Kittel. Explica-nos como foi?

É verdade, foi por acaso. Klaus Kittel existiu mesmo, ele nasceu e morreu no Porto. Pelo meio, ele teve uma vida muito intensa de viagens e que, desgraçadamente, incluiu também a participação na 2ª Guerra Mundial, como soldado, recrutado pelo regime de Hitler. Ele foi recrutado em 1944, já perto do fim do conflito e quando a Alemanha já estava desesperada.

 

Mas conta-nos como te chegou este manuscrito às mãos.

Ele estava esquecido numa gaveta há quase duas décadas. Na casa onde ele vivia, ele escreveu, datilografou uns pequenos textos…

 

Em português ou em alemão?

Em alemão. Ora esses textos foram encontrados por uma pessoa e ela passou-mos. Ela sabe que eu sou escritor. E disse-me “olha, o que é que achas destes textos?”. Eu comecei a ler e fiquei impressionado com aquela vida.

 

Tu lês alemão?

Não. Os textos foram traduzidos por essa pessoa, que domina perfeitamente o alemão. Então eu li a versão em português e disse-lhe que aquilo não podia ficar esquecido, que era demasiado importante. O próprio Kittel afirma que se lançou na tarefa de escrever as suas memórias, em pequenos textos, separados, porque não quis deixar morrer aquilo que viveu.

 

Já te ouvi dizer que o Klaus Kittel também se sentia um português, apesar de ter combatido pela Alemanha. Explica-nos melhor esta dualidade.

Ele nasceu no Porto, daí sentir-se português. É verdade que os pais eram alemães, ele tinha sangue 100% alemão. O pai, Manfred Kittel, foi trabalhar para a empresa Anderson, no Porto, como contabilista. Era uma empresa que negociava em vinho do Porto, moinhos, navios de pesca. Então fixou residência no Porto.

 

Os Kittel foram expulsos de Portugal, ainda o Klaus Kittel era criança, como consequência da Grande Guerra, e foram viver para a Galiza.

Exatamente. Ele já tinha duas irmãs pequenas. E, sim, em 1915, foram expulsos.

 

Faz sentido. Apesar da declaração de guerra ser de 1916, a verdade é que os exércitos português e alemão já combatiam nas zonas fronteiriças coloniais, no norte de moçambique e no sul de Angola.

Sim, sim, os Kitell foram expulsos ainda antes da declaração de guerra. Portugal, pressionado pela Inglaterra, a velha aliada, confiscou os bens dos alemães a viver no país. Os Kittel viram os seus bens confiscados e tiveram 48h para abandonar Portugal e foram para perto, para a Galiza. Na altura, julgava-se que a guerra iria durar muito menos do que o que durou na realidade. Eles só regressaram em 1919 depois do Tratado de Versalhes.

 

É raro encontrar um romance como este, que analise a História traumática da ascensão e queda do nazismo através dos olhos de um alemão que tenha lutado ao lado dos nazis. Este teu livro faz isso e trata o Klaus Kittel de uma maneira pouco habitual. Isto é, não tratas Kittel como apenas fazendo parte do grupo dos agressores que visavam exterminar judeus, ciganos, homossexuais ou deficientes, mas também o tratas como vítima, principalmente no pós-guerra. Consideras esta abordagem importante para a compreensão no nosso tempo?

É muito, muito importante. O Klaus Kittel tinha um sentido da honra muito forte, muito profundo. E ele jamais conseguiria viver com a vergonha de se ter furtado a apresentar-se quando a Alemanha o chamou para a guerra. Como ele vivia em Portugal, poderia não ter ido, como muitos fizeram. Ele teve de deixar tudo. Tinha um bom emprego, uma filha. Na guerra, ele passou por padecimentos inimagináveis. No fim, ele foi capturado. E este livro conta todas as tormentas pelas quais passou, inclusive o facto de ter sofrido na pele, ele e cerca de três milhões de soldados alemães, crimes cometidos pelos aliados, os vencedores. Os crimes cometidos pelos Aliados ficaram impunes. As pessoas normalmente não falam nisso, nem sabem, nem se apercebem do que se passou, mas os aliados cometeram crimes contra os alemães que quem ler o livro vai compreender.

 

João Nuno, falemos um pouco do nosso tempo, que são tempos de crescimento da Extrema-Direita e do peso cada vez mais relevante dos argumentos racistas, xenófobos e chauvinistas na maior parte da Europa e não só. Em que aspetos é que esperas que este teu romance possa contribuir para uma melhor análise deste fenómeno? Esperas que o teu livro contribua para uma certa clarificação?

Claro que sim. Quais foram os resultados da 2ª Guerra Mundial? Foram massacres, carnificina, ódios exacerbados, levados ao extremo. Milhões de mortos. E qual foi o benefício dessa guerra? No fim de tudo, a Europa decidiu unir-se para não permitir que aquilo voltasse a acontecer. Apesar dos Americanos se tentarem meter nos assuntos europeus com o Plano Marshall, a Europa teve a força e a coragem de unir os inimigos e formar uma Comunidade Europeia que hoje já é União Europeia. Essa União foi uma consequência natural do conflito, pois quem viveu a 2ª Guerra Mundial, quem viu aquelas atrocidades, não poderia querer outra coisa.

 

A verdade é que a Europa parece estar a trilhar o mesmo trágico caminho desses distantes anos 30.

Pois, é isso, as pessoas já não se lembram. Esqueceram.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Isabel Tallysha-Soares autora de “O Homem Manso”

Quarta-feira, 17 de outubro, 9h30

Domingo, 21 de outubro, 14h25

 

 

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