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Dia 28 estávamos todos a falar de futebol, mas como sabemos, “prognósticos só o fim do jogo” e eu escrevi esta crónica nas vésperas do encontro de ontem. Não podendo antecipar resultados desportivos usei apenas o futebol como metáfora.

Mas escrevo depois do jogo Portugal-França, cujo empate foi o reflexo do equilíbrio das equipas em campo. Ora o meu campo de jogo, durante seis anos que agora se cumprem, foi o vasto território francês onde levei a jogo, com os meios oficiais colocados à disposição do Centro cultural de Paris e da Embaixada de Portugal em França, a cultura portuguesa.

Foram jogos amigáveis, claro, mas nem por isso menos intensos. De facto, é um verdadeiro Mundial que se trava: para além dos 28 (agora 27) membros da EUNIC (entidade que reúne os países europeus) há ainda que contar com os outros centros e institutos culturais presentes em Paris e reunidos no FICEP, contam-se assim 24 outros, num total de 52 – muitos deles com largos meios disponíveis, locais perfeitamente equipados, vastas equipas.

Para mais, o Campeonato não se trava numa disciplina mas em múltiplas e ainda nas múltiplas declinações de cada uma delas: da dança ao cinema, do teatro às artes visuais, do jazz à literatura, da música clássica à ciência. É mais de Jogos Olímpicos que deveríamos falar – e, como nos JO da Antiguidade, a recompensa não se recebe em ouro, mas em louros e prestígio.

Como no desporto, contamos com o esforço de todos, escolhemos os que acreditamos serem os melhores para apoiar e promover, sofremos e exultamos a cada etapa. Não se trata aqui de fazer um relatório nem um balanço e será impossível referir os nomes de todos os que ajudaram a fazer estes seis anos, mas fica um imenso agradecimento quer aos artistas (pois é deles, sempre, a primeira e a última palavra, gesto, imagem, som…) quer aos que os propõem – penso especialmente nos programadores e nos professores de cultura portuguesa que, nas suas cátedras, os acolhem.

Na cultura, os resultados não são imediatos e ficam sujeitos ainda a mais discussões que os resultados desportivos, mas se passarmos do desporto à agricultura podemos pensar que foi a qualidade dos muitos frutos das muitas árvores da cultura portuguesa, transplantadas em França desde há tantas décadas, que pode ter suscitado nas autoridades franceses o convite, feito em 2018, para uma Temporada entre ambos os países – e que assim os coloca em igualdade. Preparei com desvelo esse projeto cruzado até a responsabilidade ter passado, este ano, à nova Comissária Manuela Júdice, que com brilho o levará a termo.

Sem menosprezar as dezenas de outros eventos que em 2022 todos irão descobrindo em toda a França, deixo-vos dois casos exemplares do que conseguimos colocar num dos centros da cultura francesa e universal: o Louvre. Os responsáveis da pintura ibérica e os responsáveis pela arte contemporânea no Museu, em articulação com o MNAA, em Lisboa, e com os comissariados de ambos os países, decidiram apresentar pintura portuguesa dos séculos XV e XVI nas salas do Museu (notícia que já foi revelada em comunicação jornalística) e convidar Cabrita Reis a criar um conjunto escultórico inédito para os Jardins des Tuileries (notícia esta que vos dou em primeira mão). Completa-se assim o passado com o presente e faz-se história quer dizer, pode fazer-se futuro para a cultura portuguesa em França. Assim o entenda quem o deve entender.

Já perceberam que esta é a minha última crónica. Escrevi-a a pensar no meu mentor e ilustre antecessor Eduardo Prado Coelho e na pequeníssima equipa com que trabalhei e que aturou a minha hiperatividade e irrealismo utópico face aos meios disponíveis. Escrevi-a também a pensar em vós desejando poder ter aqui, com a minha presença regular, despertado alguns para o difícil terreno de jogo que é a cultura.

Boas escolhas culturais e até sempre

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

Opinião

 

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