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Uma crónica estranha, esta. E difícil. Podem pensar – eu pensei! – que seria difícil, por causa de não acontecer nada nas longas semanas de confinamento que nos esperam.

A agenda de março do Bulletin do Camões, que anuncia as iniciativas do Centre culturel portugais à Paris e recolhe, em cumplicidade, todas as ações relevantes da cultura portuguesa e lusófona em Paris, foi para o lixo. Todas as agendas culturais, aliás, foram para o lixo: as de março e as de abril, provavelmente as de maio e quem sabe se, às de junho, não caberá o mesmo triste destino.

Mas, afinal, o problema não é a falta de eventos e sim o alargamento do espetro conduzido a um evidente excesso de recomendações bloqueador da comunicação. São elas tantas que desisti de as trazer. Aqui apenas vos deixando uma recomendação e uma informação.

A informação é “da casa”: por um lado, publicaremos, 3 vezes por semana, no Facebook do Camões, uma resenha dos acontecimentos portugueses e lusófonos dos últimos 5 anos; por outro lado, retomamos as aulas, inevitavelmente à distância, com os nossos alunos.

A recomendação é a de uma obra que nos ensina a usar a imaginação como meio de sobrevivência e superação de um tempo de isolamento forçado.

Espanta-me não ter ainda ouvido ou lido qualquer menção relativa ao proveito de leitura de “Viagem à volta do meu Quarto”, um livrinho que Xavier de Maîstre, autor francês de origem piemontesa, escreveu em 1794, e que Garrett citará na abertura das suas “Viagens na minha Terra”.

Porquê aquele excesso de recomendações? Porque os agentes e atores culturais (os museus, as companhias de teatro, os artistas e as galerias de arte, as bibliotecas, as rádios, as universidades e as suas conferências …), por generosidade, mas tomados também por um frenesi de sobrevivência, inundam a rede com as suas propostas online.

Esta atitude prolongada é compreensível num conjunto diversificado de disciplinas e profissões, todas frágeis e em geral desamparadas – serve para demonstrar que existem e justificar que continuemos a lembrar-nos deles e a sustentar a sua atividade.

Mas temo que esta solicitude e abertura possa vir a ter efeitos perversos. Trata-se, de facto, de prescindir da relação direta com os tempos únicos de um espetáculo ou mesmo de uma visita a um museu, a uma biblioteca, da relação direta com espírito único dos lugares, com a fisicalidade das obras, com a presença humana dos seus intérpretes e criadores e com a realidade dos outros espetadores ou visitantes.

Tal como a generalização do teletrabalho e do ensino à distância pode ser perverso para as relações de trabalho, para as relações humanas e para a relação dos cidadãos com a cidade, contribuindo para o esfriamento de laços sociais. Também no campo da cultura esta desmaterialização pode acelerar a desertificação dos cinemas, dos teatros, dos museus e livrarias… levar a mais desemprego no campo cultural e, afinal, a mais isolamento social.

Na sequência de crises como a da I Guerra mundial e sucessiva Gripe espanhola, a saída social, artística e cultural encontrada foi a dos Années Folles, os Loucos Anos Vinte, período de euforia cega mas altamente produtiva, e onde o fator humano foi essencial – só que, nessa altura, não havia internet, um meio que tudo nos traz sem trabalho e, principalmente, sem necessitarmos uns dos outros.

Quero crer que muitas obras importantes sairão desta crise para as páginas de um livro, para os palcos de um teatro, para os vários écrans de que dispomos. Eu já aqui pedi, com algum humor, um novo Decameron, livro de esperança e sensualidade, pensado em tempos de peste. Mas o que deveríamos realmente exigir era que nada ficasse na mesma – nem no campo da organização do trabalho artístico, nem no campo do seu consumo.

Ver os canais de Veneza, limpos, sentir o ar puro das cidades, ver no céu apenas nuvens e não rastos cruzados de aviões, ter visto, nas vésperas do fecho do Louvre, a Gioconda sem multidões atiradas sobre ela, tudo isto nos devia levar a encontrar o justo equilíbrio entre as necessidades do mundo contemporâneo, e a rejeição da sua massificação, a rejeição da vertigem a que assistimos inconscientes, e depois impotentes, nos últimos anos ou décadas.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

 

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