Oportunidades para um Portugal Global: é necessário aumentar salários e ter mais diplomacia económica

Decorreu nos dias 29 e 30 de abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o primeiro fórum “Portugal Nação Global”, que teve como promotores o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Gabinete da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e a Associação Empresarial Portuguesa (AEP), tendo como parceiros diversos outras instituições estatais, privadas e bancárias.

Um dos debates teve por tema: “2026 oportunidades para Portugal global”. Foi moderador desta sessão plenária o jornalista da RTP, António Esteves, sendo o painel de discussão composto por Paulo Rangel, Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, António Horta-Osório, um dos gestores portugueses mais conhecidos a nível internacional, sobretudo na área da banca e António Calçada de Sá, Presidente da direção do Conselho da diáspora portuguesa.

Paulo Rangel afirmou que Portugal está atento ao que se passa além-fronteiras, nomeadamente na Ásia onde se está a abrir novas Embaixadas e da necessidade de estas e Consulados terem de fazer mais do que se limitarem à diplomacia tradicional, enquanto António Horta-Osório evocou o facto dos salários em Portugal continuarem baixos e terem muito menos progredido estes 25 anos do que na vizinha Espanha ou na Polónia, entre outros países. Portugal deveria aumentar os salários no contexto financeiro favorável que atravessa. O aumento do salário poderia criar uma certa dinâmica e evitar que tantos jovens altamente qualificados saiam de Portugal.

Por seu lado António Calçada de Sá falou da importância de reconhecer o papel das Comunidades portuguesas no estrangeiro que, para além de manterem ligações culturais, têm capacidade de investimento, o seu envolvimento deve ser incentivado através da criação de redes, incluindo plataformas digitais, que permitam uma maior interação e colaboração.

Desafios estruturais e oportunidades para Portugal

O futuro de Portugal deve ser pensado numa lógica global, mas sem esquecer a importância do desenvolvimento local. Não são apenas os grandes investimentos que transformam um país. Existem também investimentos de menor escala que desempenham um papel essencial na dinamização dos territórios, na criação de emprego e no reforço da coesão social. O mais importante não é apenas iniciar projetos, mas garantir que estes geram valor sustentável, recompensam a iniciativa e incentivam uma cultura de audácia e empreendedorismo.

Neste contexto, é fundamental compreender que o mundo está a mudar rapidamente. Regiões como a Ásia-Pacífico apresentam hoje alguns dos maiores níveis de dinamismo económico, com países como o Vietname, a Coreia do Sul, o Japão ou a Indonésia a assumirem um papel cada vez mais relevante. Portugal não pode ficar à margem destas transformações. Pelo contrário, deve posicionar-se estrategicamente, reforçando a sua presença internacional, tanto do ponto de vista económico como cultural.

A rede diplomática portuguesa tem aqui um papel decisivo. As Embaixadas e Consulados não devem limitar-se a funções tradicionais, mas sim atuar como verdadeiros agentes económicos, capazes de apoiar empresas, atrair investimento e facilitar a mobilidade de trabalhadores. Isso implica investir na formação económica dos diplomatas, fortalecer a articulação com o tecido empresarial e garantir uma ação coordenada na defesa dos interesses nacionais.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer o papel das Comunidades portuguesas no estrangeiro. Estas Comunidades representam um ativo estratégico de enorme valor. Para além de manterem ligações culturais, têm capacidade de investimento, conhecimento dos mercados internacionais e experiência que pode ser aproveitada. O seu envolvimento deve ser incentivado através da criação de redes, incluindo plataformas digitais, que permitam uma maior interação e colaboração.

Do ponto de vista interno, Portugal tem registado progressos relevantes ao nível das finanças públicas. O equilíbrio orçamental alcançado nos últimos anos contribuiu para uma maior credibilidade internacional e permitiu reduzir custos de financiamento. Esta estabilidade é fundamental, mas não suficiente. O verdadeiro desafio passa agora por garantir crescimento económico e, sobretudo, melhorar os salários.

A evolução salarial em Portugal tem sido modesta nas últimas décadas, especialmente quando comparada com outros países europeus. Enquanto algumas economias conseguiram duplicar ou até triplicar o rendimento médio, Portugal ficou para trás. Este atraso tem consequências diretas no poder de compra, na qualidade de vida e na capacidade de reter talento.

Uma das razões para este problema está relacionada com obstáculos estruturais, nomeadamente a burocracia. Criar uma empresa em Portugal continua a ser, em muitos casos, um processo complexo e demorado. Pequenos investidores, empreendedores e até emigrantes que pretendem regressar enfrentam dificuldades significativas. Este excesso de procedimentos administrativos traduz-se numa perda de tempo, energia e oportunidades.

A simplificação administrativa surge, assim, como uma prioridade absoluta. Não se trata apenas de melhorar processos, mas de mudar a perceção do país enquanto destino de investimento. Um sistema mais simples, rápido e transparente pode fazer a diferença na atração de empresas e na criação de emprego.

Caminhos para um Portugal mais competitivo

Outro aspeto fundamental é a definição de prioridades estratégicas. Portugal não pode investir em tudo ao mesmo tempo. É necessário identificar setores com maior potencial, como o turismo, a cultura ou a tecnologia e concentrar esforços nesses domínios. Um investimento bem direcionado pode gerar efeitos multiplicadores e impulsionar outras áreas da economia.

Paralelamente, a redução da dívida pública deve continuar a ser uma preocupação. Uma dívida mais baixa aumenta a margem de manobra do Estado, reduz a dependência externa e cria condições para políticas públicas mais ambiciosas, nomeadamente ao nível da redução de impostos e do apoio às famílias.

No entanto, é importante sublinhar que as políticas públicas, por si só, não são suficientes. O desenvolvimento depende também da iniciativa individual, da capacidade de assumir riscos e da vontade de inovar. Nesse sentido, é essencial criar um ambiente que valorize o empreendedorismo e facilite a concretização de projetos.

Um exemplo relevante é o papel das novas gerações. Muitos jovens portugueses têm hoje formação elevada, experiência internacional e uma forte capacidade de adaptação. No entanto, enfrentam dificuldades no acesso ao mercado de trabalho e na criação de projetos próprios. Reduzir barreiras e criar oportunidades para estes jovens é fundamental para o futuro do país.

A diáspora portuguesa, por sua vez, continua a ser uma fonte de inspiração. Ao longo da história, muitos portugueses emigraram e conseguiram construir percursos de sucesso em contextos difíceis. Essa capacidade de adaptação, resiliência e iniciativa deve ser valorizada e integrada numa estratégia nacional mais ampla.

Por fim, é importante transformar ideias em ações concretas. Existe frequentemente uma distância entre o discurso e a prática. Muitas estratégias são bem definidas no papel, mas falham na implementação. Reduzir esta diferença exige liderança, coordenação e uma cultura de responsabilidade.

Em síntese, Portugal tem condições para afirmar-se como um país global, competitivo e inovador. Para isso, é necessário: reforçar a presença internacional, simplificar processos internos, investir de forma estratégica, valorizar o talento e promover uma cultura de iniciativa

O futuro dependerá da capacidade de transformar potencial em resultados concretos, garantindo melhores condições de vida para todos os portugueses.

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