
De 25 a 28 de setembro, o Papa Leão XIV realizou uma visita a França, com várias etapas em Paris e noutras cidades francesas como Lourdes e Metz. Na capital, a passagem do Papa ficou marcada por vários momentos, entre os quais a oração de Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris, o encontro com os jovens no Stade de France e a Missa celebrada na Place de la Concorde.
Entre os milhares de fiéis que participaram nestes encontros estiveram também muitos portugueses e lusodescendentes. Só do Santuário de Nossa Senhora de Fátima – Marie Médiatrice, em Paris, um grupo de 30 jovens participou de forma organizada no encontro em Saint-Denis, enquanto outros se inscreveram individualmente.
O Padre Nuno Aurélio, Reitor do Santuário de Nossa Senhora de Fátima em Paris e confessor na Catedral de Notre-Dame, acompanhou de perto vários momentos da visita. Esteve presente nas Vésperas e participou também na Missa como concelebrante. Em entrevista ao LusoJornal, fala sobre a visita de Leão XIV, a presença dos portugueses e a relação dos jovens lusodescendentes com a Igreja.
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Como viveu a visita do Papa Leão XIV a Paris? Houve algum momento que o tenha marcado particularmente?
Vivi esta visita pastoral do Papa Leão com a expectativa e a alegria que qualquer fiel católico experimenta ao encontrar-se com o Sucessor de Pedro. Embora não pareça, não há neste entusiasmo e fervor impressionantes, que ultrapassaram todas as expectativas pelas centenas de milhares de pessoas que acorreram, um efeito de “rock star”. Qualquer que seja o Papa, ele é Pedro e o sinal visível da nossa unidade em Cristo. Vimos isso em Lisboa com os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco. E agora vimo-lo com Leão XIV que, à semelhança dos seus predecessores, se mostra afável, sorridente e acolhedor. E com uma palavra oportuna.
Pessoalmente, estive presente naqueles eventos que me eram acessíveis: na oração de Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris, onde sou confessor, e na Missa, em que fui concelebrante. Acho que todos eles foram marcantes. Destaco a deambulação nas ruas de Paris, o encontro com os jovens no Stade de France e a verdadeira maré humana – estimada em 800.000 pessoas – que inundou a Place de la Concorde e os Champs-Élysées, até ao Arco do Triunfo. Não só pelo número, mas pelo fervor religioso, no silêncio que se fez quando ele foi necessário e no júbilo festivo quando ele era esperado.
O que representa a presença do Papa em Paris para os portugueses que aqui vivem, alguns deles longe de Portugal há muitos anos?
Os portugueses têm uma relação especial, se assim posso dizer, com o Romano Pontífice, e isto desde a fundação do nosso país. Não houve Papa mal recebido por nós, quer seja em Portugal, quer seja em outro lugar. Não me posso pronunciar em concreto ou com números, mas sei que havia muitos portugueses presentes e muitos mais que seguiram pelos média esta visita.
O Papa encontrou-se também com a juventude em Saint-Denis. Que lugar ocupam hoje os jovens lusodescendentes na religião? Sentem-se próximos da Igreja?
Só do Santuário estiveram 30 jovens organizados em grupo e outros inscritos a título individual. E muitos outros haveria de outras comunidades e dioceses francesas. Os jovens são uma parte importante da Igreja no presente e no futuro. A sua relação com Cristo e com a Sua Igreja depende bastante do acompanhamento e testemunho de fé e fidelidade dos seus pais e da vida espiritual da família. Isto influencia muito os laços que eles mantêm, ou não, com a comunidade cristã.
E vejo isso quando organizamos o Convívio Fraterno, que é um retiro e encontro de três dias para jovens: nem todos têm o coração fechado a Jesus, aceitam o desafio e vêm. Pressente-se neles uma sede de mais do que apenas a posse e a consumação de bens materiais e de prazeres efémeros.
Em França, Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo, essa viragem está a acontecer: pedidos aos milhares de iniciação cristã – Batismo, Confirmação e Eucaristia -, pedidos de admissão na Igreja vindos de outras confissões religiosas cristãs ou o regresso à Igreja dos que, sendo católicos, dela se afastaram.
Enquanto confessor em língua inglesa, na Catedral, sou testemunha disso no encontro que tenho com os visitantes vindos desses países. Isto não é uma corrida de velocidade nem há “varinha mágica”: é um caminho a fazer, por vezes levando o seu tempo.
A Igreja está próxima dos jovens e sempre aberta a eles, mas amar Jesus e viver esse amor em comunhão com outros é uma decisão pessoal que implica também uma conversão.
Uma visita como esta pode deixar alguma coisa de concreto depois da passagem do Papa? O que gostaria que ficasse para a Comunidade portuguesa em França?
Com certeza que pode e vai deixar marca, mas ainda é muito cedo para entrever qual será. A missão confiada por Jesus a São Pedro, e aos seus sucessores, foi a de confirmar os cristãos na fé. Quando se diz por aí que a Igreja em França tinha “morrido” e que está para “morrer” em Portugal, estes eventos manifestam, pelo contrário, que há uma vitalidade, como que escondida, que vem ao de cima e se mostra pujante. Como dizia alguém na televisão: os católicos não têm mais medo de mostrar a sua fé e fazem-no com “fierté sans orgueil”.
O ser expatriado e viver entre duas línguas e culturas levanta dificuldades. Quem quiser viver a fé em língua portuguesa e passá-la aos seus filhos tem de se deslocar alguns quilómetros, mais ou menos, para o fazer. Queiram eles sentir este fervor como uma razão inteligente para não desistir de viver com Jesus e em Jesus, na Sua Comunidade de discípulos. Muitas vezes a minha mãe, mulher humilde e sem grandes estudos, dizia-me quando eu era criança: “Com Deus temos tudo, sem Deus não somos nada”. O Papa e os milhões que viveram estes dias com este imenso fervor e felicidade são o sinal disso.
A minha sugestão final é que se procure reler as palavras do Papa, que estão disponíveis no site do Vaticano em português ou francês. Não nos fiquemos apenas pela emoção, necessariamente passageira, mas procuremos no texto escrito a fonte que nos sacia, a fim de que tenhamos a Vida em nós.




