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Há arte portuguesa no Marais, depois de ter havido, como vimos na semana passada, alguma (pouca…) arte portuguesa na virtual Paris Art Fair de finais de maio. No contexto dessa feira, a histórica Galeria Jeanne Bucher Jaegear, com dois espaços em Paris, empenhou-se em mostrar um conjunto largo de artistas portugueses, de origem portuguesa ou a viver em Portugal, nomeadamente a notável última série de pinturas de Rui Moreira, realizadas depois de uma das suas regulares viagens ao deserto do Sahara.

É essa mesma galeria que reabriu, na sua sucursal da rue de Saintonge, no Marais, a exposição que dedicava às obras de Michael Biberstein e que a crise da Covid-19 obrigara a fechar. Recordemos o que dissemos de Biberstein, falecido há poucos anos: um artista suíço-americano, que viveu mais de três décadas em Portugal, onde desenvolveu (entre Sintra e o Alentejo) uma pintura despojada e sensorial, de paisagens metafísicas e espirituais.

O destaque, porém, depois de um fim de semana em que as galerias do Marais estiveram abertas sábado e domingo, vai para a Galeria Suzanne Tarasieve (na rue Pastourelle) que mostra pinturas de Gil Heitor Cortesão sob título “The Crossing” (“A Travessia”).

Gil Cortesão é um dos casos mais singulares da pintura atual: pelo modo como cria as suas imagens, pelo tipo de relação que mantém com o mundo das imagens e com as imagens do mundo. Gil Cortesão pinta sob (sublinho sob, por baixo de) a superfície de um vidro acrílico. Por isso as suas pinturas são feitas ao contrário do modo como se pinta sobre (por cima de) tela ou madeira ou papel. Ou seja, as primeiras pinceladas ficam logo marcadas na superfície e não se podem corrigir. Há, na sua prática, um virtuosismo que não se esconde.

Também o tipo de imagens que escolhe é especial. O artista parte de fotografias (muitas vezes recolhidas em revistas antigas) que reproduz e, aparentemente, o mundo que revelam é normal: sedutoras paisagens rurais, de montanha e marítimas, casas de charme onde apetece poder viver, piscinas cheias de glamour. Depois, se olharmos com mais atenção vemos que ele introduz desvios nessas imagens, e vemos surgir alguns sinais que nos podem começar a inquietar: os espaços estão, em geral, esvaziados de vida humana, elementos nessas construções que estão em ruína, sinais ameaçadores na natureza, com céus ou mares escurecidos e tempestuosos, com um colorido geral que denuncia luzes crepusculares ou noturnas…

Por um lado, há, também, espaços urbanos e de socialização, mas os personagens anónimos e indistintos e os edifícios, estradas e ruas mergulhados no mesmo clima global de decadência e sombras. Afinal, ele mostra-nos um mundo ideal, ameaçado por alguma coisa que não entendemos o que possa ser; não percebemos se estamos na iminência de um desastre ou depois desse desastre ter acontecido, se estamos num tempo de pré-apocalipse ou de pós-apocalipse. Se olharmos com os olhos do momento atual, esta pintura que Gil Heitor Cortesão vem praticando há duas décadas, ela é a prova de que muitos artistas antecipam os tempos históricos aos quais os seus contemporâneos se mantêm cegos.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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