Há uma frase que ouço em consulta com uma frequência surpreendente: “Sempre que chegam as férias, fico doente”. É “certinho e direitinho”, garantem-me.
A maioria das pessoas assume que é coincidência ou azar ou falta de sorte. Mas a biologia sugere outra explicação.
Quando vivemos sob stress prolongado, o cérebro ativa o nosso sistema de sobrevivência desenhado para nos proteger perante ameaças. A amígdala cerebral – o nosso “alarme biológico” – deteta perigo e ativa o sistema nervoso simpático. A adrenalina sobe. O cortisol é libertado. O organismo entra em modo de alerta.
A curto prazo, isto é extraordinariamente útil – não me deixem mentir.
O problema surge quando o estado de alerta dura semanas e meses – sem pausas.
O nosso organismo reorganiza-se e redistribui recursos energéticos. Funções essenciais à sobrevivência imediata são privilegiadas. Outras passam para segundo plano: digestão, fertilidade, reparação celular, recuperação fisiológica e regulação fina do sistema imunitário.
É uma estratégia inteligente. Ora reparem: se estivermos a fugir de um leão, não precisamos de otimizar a nossa capacidade de nos reproduzirmos ou reparar as feridas. Precisamos de sobreviver. O resto pode esperar.
Mas hoje o “leão” raramente é físico. Pode ser um ambiente profissional impossível, uma relação desgastante ou anos de sobrecarga entre três filhos com pouca ou nenhuma ajuda e a tentativa inglória de ser promovido todos os anos para dar resposta às despesas que se acumulam.
Com o tempo, o sistema imunitário adapta-se a este estado de guerra permanente. Surgem alterações na comunicação entre cérebro e imunidade, maior produção de mediadores inflamatórios e perda de capacidade de regulação.
E depois chegam as férias. O cérebro percebe finalmente que já não precisa de correr.
E aquilo que foi sendo adiado aparece. Uma infeção. Uma crise inflamatória. Uma exaustão esmagadora.
Não porque descansar adoeça. Mas porque o organismo deixou finalmente de gastar toda a sua energia a sobreviver.
O corpo não está a falhar. Durante semanas e meses produzimos mais, resolvemos mais problemas e fomos mais eficientes que nunca. Mas há uma conta para pagar. O corpo está apenas a cobrar a fatura em dívida.
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Dra. Maria Moreno
Médica psiquiatra
@mariamoreno.medicapsiquiatra






