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Um memorável concerto que já aconteceu, um filme que prossegue em exibição e uma indispensável exposição que se oferece até vésperas de Natal, tal é o sumário desta crónica.

O concerto ficou a cargo de Pongo (foto), ex-integrante dos Buraka Som Sistema que deles se destacou e prosseguiu carreira a solo. Depois da sua apresentação o ano passado, num pequeno teatro de Pigalle, no âmbito do destaque dados à música feita a partir de Portugal no Festival profissional MaMA, Pongo apresentou-se sexta-feira na enorme sala da Cité de la Musique preenchida a mais de 80%.

A sala ficou desde início eletrizada com a energia que lhe chegou da rainha do kuduro angolano e da sua impecável presença, coreografia e jogo de luzes em palco. O público, conhecedor da sua música, que antecipava e acompanhava, saiu das cadeiras e dançou livremente. O espetáculo daquela multidão em delírio, sem qualquer barreira de distanciação exceto as máscaras, fez-me pensar no que valerão as restrições impostas nas ruas, nos restaurantes, nos cinemas, onde nos mandam sentar com uma cadeira de intervalo do vizinho do lado e que as pessoas frequentam pouco por receio de contaminação…

É em sala de cinema que prossegue a carreira de “L’Ordre Moral”, de Mário Barroso com Maria de Medeiros, estrela de um sistema que gravita em torno de si e do seu excecional desempenho. Trata-se de um ficção histórica cuidadosamente reconstruída a partir de um facto real onde alguns dos melhores médicos da época, ainda hoje referências conhecidas (Egas Moniz, Sobral Cid, Magalhães Lemos, Júlio de Matos), representam o papel de garantes da ordem moral de uma sociedade portuguesa retrograda onde impera o machismo.

Abre ao público hoje, na galeria Magda Danysz, a nova apresentação de Vhils em Paris. Depois da antológica no centro de arte Le Centquatre, há dois anos, esta exposição reforça as suas imagens de marca alcançando novos patamares. Vhils partiu de um universo que tem a “cultura de rua” como fonte de inspiração, incorporou na sua prática a história da arte que nos anos de 1960 e 70 trabalhou os sinais urbanos e tem vindo a transformar progressivamente os métodos, técnicas e materiais de base afastando-se da transgressão e revolta originais para sobre elas refletir.

O reaproveitamento de cartazes, a gravação em grande escala nas paredes urbanas dos rostos comuns das cidades de todo o mundo (transformados assim em ícones de uma agenda política e humanista) são transpostos para a galeria. Nas silhuetas definidas sobre a base espessa dos cartazes, insinua-se a pintura; os restos de demolições e a compactação de sucata servem de novo suporte para os mesmos temas (rostos onde destaca os olhos); novas experiências técnicas mantêm a densidade e espessura das obras anteriores mas transformando-a em transparências – Vhils trabalha os materiais acrílicos camada a camada e cria puzzles tridimensionais que a luz e o nosso movimento em seu redor compõem e descompõem em permanência dando-nos novas imagens para a desagregação e a impermanência do mundo e para a nossa fragilidade.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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