Silvia Mateus transforma peça de Jean Paul Gaultier em arte contemporânea

Há peças que contam histórias. Outras ganham uma segunda vida. Na exposição “Mundos Suspensos”, patente até 31 de julho na Associação Incluir+, em Torres Vedras, a artista Silvia Mateus demonstra como um objeto criado para a moda pode transformar-se numa expressão artística carregada de significado.

Entre as obras expostas destaca-se um delicado casaco da coleção Jean Paul Gaultier, Maille, preservando ainda a etiqueta original da marca. O que antes era uma peça de vestuário passa agora a integrar uma instalação onde a textura, as cores e a memória do tecido se tornam protagonistas.

A transformação não apaga a identidade da peça; pelo contrário, reforça-a. O casaco deixa de ser apenas um objeto de moda para se converter numa narrativa visual sobre identidade, memória, sustentabilidade e reinvenção. Cada renda, cada franzido e cada costura permanecem presentes, mas organizados agora num novo discurso artístico.

A escolha de uma peça de Jean Paul Gaultier não parece ser casual. O criador francês tornou-se uma das figuras mais influentes da moda contemporânea precisamente por desafiar convenções, cruzando materiais, culturas e referências artísticas nas suas coleções. Ao integrar uma das suas peças na sua obra, Silvia Mateus prolonga esse espírito de experimentação, levando-o para um território onde a moda dialoga com a arte, a preservação da memória e a reflexão ambiental.

A exposição convida o visitante a olhar para os objetos de forma diferente. Em vez de ver apenas um casaco, é convidado a descobrir uma composição onde a matéria adquire um novo significado. É um exemplo de como o reaproveitamento criativo pode preservar a beleza de um objeto e, simultaneamente, construir uma nova linguagem artística.

O conceito aproxima-se de uma prática cada vez mais valorizada nas artes contemporâneas e no design sustentável. Ao contrário da reciclagem tradicional, que transforma a matéria-prima, aqui conserva-se a identidade do objeto, atribuindo-lhe uma nova função e um novo valor. O resultado é uma obra onde coexistem passado e presente, moda e arte, memória e inovação.

A artista optou por manter a etiqueta “Jean Paul Gaultier Maille” visível. Esse pormenor assume quase o papel de uma assinatura da origem da obra, estabelecendo um diálogo entre o universo da alta-costura e a criação artística contemporânea. Mais do que um detalhe, torna-se um elemento conceptual que reforça a ligação entre o objeto original e a sua nova existência.

“Mundos Suspensos” propõe, assim, um exercício de contemplação: descobrir que os materiais têm histórias para contar e que a criatividade pode nascer daquilo que muitos considerariam apenas uma peça de roupa.

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“Mundos Suspensos”

Até 31 de julho

Associação Incluir+

Rua Cândido dos Reis

2560-382 Torres Vedras

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