
A aldeia de Fóios, no concelho do Sabugal, voltou a afirmar a sua identidade raiana com uma homenagem à memória, à coragem e à capacidade de resistência das suas gentes. No dia 16 de agosto, foi inaugurado o Monumento ao Contrabandista e ao Emigrante, uma obra que pretende perpetuar duas realidades profundamente ligadas à história desta comunidade fronteiriça. Trata-se de uma obra de Otávio Gonçalves, também originário de Foios.
Mais do que uma peça escultórica, o monumento assume-se como um lugar de memória. Evoca os homens e mulheres que, em tempos de dificuldades económicas, atravessaram a fronteira em busca de melhores condições de vida e daqueles que fizeram da emigração o caminho para construir um futuro diferente para si e para as suas famílias.
Fóios é uma aldeia dinâmica, profundamente marcada pela sua condição raiana e pelo passado do contrabando. É também a aldeia dos Passadores, homens que conheciam como ninguém os caminhos da serra e da fronteira e que desempenharam um papel importante numa época em que a sobrevivência obrigava muitas famílias a procurar no outro lado da fronteira aquilo que faltava deste lado.
A homenagem ganha ainda maior significado numa terra que soube preservar a sua identidade e as suas tradições. Fóios mantém-se uma aldeia cuidada e dinâmica, apesar de estar longe dos grandes centros urbanos e de se situar no interior do país. São raras as casas abandonadas, revelando uma comunidade que continua ligada às suas raízes e empenhada em manter viva a aldeia.
Fóios dispõe de equipamentos culturais e sociais que demonstram essa vitalidade, entre os quais um Museu e uma sala de espetáculos. É também uma terra de tradições, procurando preservar costumes que fazem parte da sua identidade coletiva, com destaque para a Capeia Arraiana, uma das manifestações culturais mais emblemáticas da região.
É precisamente este conjunto de características: uma aldeia viva, preservada, dinâmica, orgulhosa das suas tradições e consciente do seu passado, que ajuda a justificar a homenagem agora concretizada.
A cerimónia contou com a presença de diversas personalidades, entre elas José Ribau Esteves, Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e antigo Presidente das Câmaras Municipais de Ílhavo e de Aveiro.
Esteve também presente outro filho ou descendente de Fóios, Luís Eduardo Afonso Andrade, Presidente do Observatório Internacional de Direitos Humanos (OIDH), instituição que se associou à homenagem. Ambos mantêm uma ligação afetiva à terra dos seus antepassados e são grandes amigos da comunidade.
A concretização do monumento contou ainda com o financiamento da Junta de Freguesia de Fóios, numa demonstração de colaboração entre entidades locais em torno da preservação da memória da região.
A ideia foi impulsionada por Antoine Tavares, membro da Junta de Freguesia e proprietário do Complexo do Viveiro das Trutas, que contribuiu decisivamente para que esta homenagem pudesse passar da ideia à realidade.
Uma homenagem à sobrevivência e à dignidade
Na cerimónia, Luís Eduardo Afonso Andrade sublinhou que inaugurar um monumento ao contrabandista e ao emigrante em Fóios representa muito mais do que erguer uma estrutura física. Trata-se, afirmou, de “gravar na eternidade a alma deste povo” e de reconhecer a coragem, a resiliência e a dignidade de uma população que enfrentou a pobreza, o isolamento e a dureza da vida na fronteira.
O discurso destacou igualmente a dimensão humana do antigo contrabando. Para muitas famílias, atravessar a fronteira não era uma aventura nem uma escolha fácil, mas uma necessidade imposta pela fome, pela falta de trabalho e pela necessidade de garantir o sustento dos filhos e dos idosos.
Da mesma forma, a emigração “a salto” marcou profundamente várias gerações de Fóios. Muitos partiram deixando para trás famílias, amigos e a própria terra natal, levando pouco mais do que uma mala e a esperança de encontrar no estrangeiro a oportunidade que Portugal não lhes conseguia proporcionar.
Apesar da distância, os emigrantes nunca romperam a ligação com Fóios. Pelo contrário, as remessas enviadas ao longo dos anos contribuíram para melhorar a vida das famílias e para a transformação e preservação da própria aldeia.
O novo monumento pretende, assim, unir essas duas memórias: a do homem ou mulher que atravessava clandestinamente a fronteira para sobreviver e a do emigrante que partia em busca de uma vida melhor.

Fóios, uma terra de memória e futuro
A homenagem ao contrabandista e ao emigrante insere-se numa visão mais ampla de valorização de Fóios enquanto comunidade raiana. A aldeia procura manter as suas tradições sem deixar de olhar para o futuro, valorizando o património, a cultura e os equipamentos existentes.
A Capeia Arraiana, as memórias do contrabando, os caminhos da fronteira, a emigração e as histórias das famílias constituem um património imaterial que continua a passar de geração em geração.
O monumento inaugurado a 16 de agosto assume, por isso, uma função que ultrapassa a própria cerimónia. É uma referência permanente para os habitantes e para todos aqueles que visitam Fóios, permitindo recordar uma época em que a sobrevivência exigia coragem e sacrifício.
É também uma homenagem aos emigrantes que partiram e regressaram, aos que construíram uma vida longe de Portugal e aos que, apesar da distância, nunca deixaram de considerar Fóios a sua casa.
A aldeia quis, desta forma, dizer aos seus antigos contrabandistas e emigrantes que as suas histórias não foram esquecidas.
E, ao fazê-lo, Fóios reafirma uma mensagem simples e poderosa: uma comunidade que conhece e honra o seu passado está mais preparada para construir o seu futuro.

Discurso de Luís Eduardo Afonso Andrade, Presidente do Observatório Internacional de Direitos Humanos Servidor Intemporal da Humanidade
“Ilustres individualidades aqui presentes,
Queridos emigrantes que hoje regressam a esta vossa terra natal, que é a vossa casa,
E agora vós, gentes generosas e corajosas de Fóios.
É com uma profunda honra, imensa emoção e um sentido de dever sagrado que o Observatório Internacional de Direitos Humanos se associa a este momento de extraordinária justiça histórica.
Inaugurar um monumento ao contrabandista e ao emigrante aqui, nesta terra raiana e bendita de Fóios, é muito mais do que erguer uma estrutura de pedra ou metal.
É, sim, gravar na eternidade a alma deste povo.
É imortalizar a coragem, a resiliência e a dignidade de uma gente que recusou vergar-se perante a miséria, que desafiou o destino e que nunca se deixou vencer pelo isolamento.
Falar de Direitos Humanos é falar, na sua essência mais pura, do direito à vida, à sobrevivência e à dignidade.
É sob este prisma de profunda humanidade que hoje olhamos para a figura mítica e real do contrabandista raiano.
Durante décadas de inverno rigoroso, privação e silêncio, cruzar a fronteira na escuridão da noite não era um ato de rebeldia ou criminalidade.
Desafiar a morte, a guarda, o frio cortante e o medo era, na verdade, um ato de amor desesperado.
Era o grito de revolta de quem não aceitava a fome.
Carregar à força de braços os fardos pesados por caminhos de lobos era a única forma que muitos pais e mães de família tinham para garantir a sobrevivência.
Fazia-se a passagem para trazer o sustento, comprar o remédio que faltava, alimentar os filhos e dar conforto aos idosos que ficavam a rezar em casa.
O direito fundamental e divino de proteger os seus sobrepôs-se a todas as barreiras, montanhas e leis arbitrárias.
Esses homens e mulheres não violaram a justiça; eles foram os guardiões da vida.
Foram, sim, heróis hercúleos da subsistência.
Muitos dos que aqui estão hoje, com os olhos brilhantes de memórias, e tantos outros que já partiram, recordam na pele e na alma as dores da emigração “a salto”. Lembram-se, como se fosse hoje, do rasgão no coração que foi deixar os Fóios.
Lembram-se do pranto da despedida, do abraço apertado à mãe que ficava a chorar no largo, da incerteza de pisar o chão do mundo sem eira nem beira, com a mala de cartão na mão e a esperança cravada no peito.
Essa viagem, feita com o coração nas mãos e cheia de sacrifícios, rasgou caminhos pelos mais variados cantos do mundo.
Aos nossos emigrantes, que hoje acolhemos com os braços abertos, o Observatório Internacional de Direitos Humanos, uma organização singular que atua à escala planetária em prol da humanidade, com sede mundial em Portugal, curva-se diante da vossa capacidade de trabalho, do vosso sofrimento longe das raízes e do vosso sucesso, que tanto orgulha Portugal.
Esta terra sabe o que custou cada Franco francês, cada Dólar, cada moeda ganha com o suor de um povo que partiu sem nada, mas que levou os Fóios na bagagem da alma.
Vocês, queridos emigrantes, não ergueram apenas as vossas vidas lá fora; vocês sustentaram esta terra, mantiveram vivas as vossas raízes e regressam sempre, ano após ano, porque o cordão umbilical que vos liga a este chão raiano nunca se quebrou, nem nunca se quebrará.
Tudo isto só foi possível porque a identidade de Fóios é forjada na fronteira, mas, acima de tudo, na solidariedade.
As gentes desta terra raiana conhecem o valor da partilha.
São um povo generoso, acolhedor e profundamente humano.
Sabem o que é abrir a porta a quem precisa, porque conhecem na própria carne a dor da partida e a dureza da vida na raia.
Os vossos sacrifícios do passado são os alicerces do orgulho do presente.
Agradecemos profundamente o empenho das autoridades locais e regionais que tornaram este monumento uma realidade, perpetuando esta memória coletiva.
Que este monumento lembre a todos os que por aqui passarem que os Direitos Humanos se defendem garantindo que nenhum ser humano seja obrigado a passar fome ou a fugir da sua terra por falta de dignidade.
Que ele honre o passado, inspire o presente e celebre, para sempre, a alma gigante do povo de Fóios.
Este monumento que hoje inauguramos é um tributo às lágrimas vertidas na solidão da distância, mas é, acima de tudo, um hino à vitória de um povo vencedor.
É o pedido de desculpas da história e o agradecimento eterno da vossa pátria.
Que cada pessoa que passe por esta obra sinta o peso dos fardos que os nossos antepassados carregaram, mas também a leveza e o orgulho da liberdade e da dignidade que eles conquistaram para nós.
Bem-hajam, gentes corajosas de Fóios!
Viva o Concelho do Sabugal, viva Portugal e vivam os nossos emigrantes!
Fóios: ontem, hoje e sempre!
Muito obrigado a todos pela vossa dedicada atenção.”






