José Manuel Campos

Fóios inaugura monumento ao contrabandista e ao emigrante e presta homenagem à memória do povo raiano

A aldeia de Fóios, no concelho do Sabugal, voltou a afirmar a sua identidade raiana com uma homenagem à memória, à coragem e à capacidade de resistência das suas gentes. No dia 16 de agosto, foi inaugurado o Monumento ao Contrabandista e ao Emigrante, uma obra que pretende perpetuar duas realidades profundamente ligadas à história desta comunidade fronteiriça. Trata-se de uma obra de Otávio Gonçalves, também originário de Foios.

Mais do que uma peça escultórica, o monumento assume-se como um lugar de memória. Evoca os homens e mulheres que, em tempos de dificuldades económicas, atravessaram a fronteira em busca de melhores condições de vida e daqueles que fizeram da emigração o caminho para construir um futuro diferente para si e para as suas famílias.

Fóios é uma aldeia dinâmica, profundamente marcada pela sua condição raiana e pelo passado do contrabando. É também a aldeia dos Passadores, homens que conheciam como ninguém os caminhos da serra e da fronteira e que desempenharam um papel importante numa época em que a sobrevivência obrigava muitas famílias a procurar no outro lado da fronteira aquilo que faltava deste lado.

A homenagem ganha ainda maior significado numa terra que soube preservar a sua identidade e as suas tradições. Fóios mantém-se uma aldeia cuidada e dinâmica, apesar de estar longe dos grandes centros urbanos e de se situar no interior do país. São raras as casas abandonadas, revelando uma comunidade que continua ligada às suas raízes e empenhada em manter viva a aldeia.

Fóios dispõe de equipamentos culturais e sociais que demonstram essa vitalidade, entre os quais um Museu e uma sala de espetáculos. É também uma terra de tradições, procurando preservar costumes que fazem parte da sua identidade coletiva, com destaque para a Capeia Arraiana, uma das manifestações culturais mais emblemáticas da região.

É precisamente este conjunto de características: uma aldeia viva, preservada, dinâmica, orgulhosa das suas tradições e consciente do seu passado, que ajuda a justificar a homenagem agora concretizada.

A cerimónia contou com a presença de diversas personalidades, entre elas José Ribau Esteves, Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e antigo Presidente das Câmaras Municipais de Ílhavo e de Aveiro.

Esteve também presente outro filho ou descendente de Fóios, Luís Eduardo Afonso Andrade, Presidente do Observatório Internacional de Direitos Humanos (OIDH), instituição que se associou à homenagem. Ambos mantêm uma ligação afetiva à terra dos seus antepassados e são grandes amigos da comunidade.

A concretização do monumento contou ainda com o financiamento da Junta de Freguesia de Fóios, numa demonstração de colaboração entre entidades locais em torno da preservação da memória da região.

A ideia foi impulsionada por Antoine Tavares, membro da Junta de Freguesia e proprietário do Complexo do Viveiro das Trutas, que contribuiu decisivamente para que esta homenagem pudesse passar da ideia à realidade.

Uma homenagem à sobrevivência e à dignidade

Na cerimónia, Luís Eduardo Afonso Andrade sublinhou que inaugurar um monumento ao contrabandista e ao emigrante em Fóios representa muito mais do que erguer uma estrutura física. Trata-se, afirmou, de “gravar na eternidade a alma deste povo” e de reconhecer a coragem, a resiliência e a dignidade de uma população que enfrentou a pobreza, o isolamento e a dureza da vida na fronteira.

O discurso destacou igualmente a dimensão humana do antigo contrabando. Para muitas famílias, atravessar a fronteira não era uma aventura nem uma escolha fácil, mas uma necessidade imposta pela fome, pela falta de trabalho e pela necessidade de garantir o sustento dos filhos e dos idosos.

Da mesma forma, a emigração “a salto” marcou profundamente várias gerações de Fóios. Muitos partiram deixando para trás famílias, amigos e a própria terra natal, levando pouco mais do que uma mala e a esperança de encontrar no estrangeiro a oportunidade que Portugal não lhes conseguia proporcionar.

Apesar da distância, os emigrantes nunca romperam a ligação com Fóios. Pelo contrário, as remessas enviadas ao longo dos anos contribuíram para melhorar a vida das famílias e para a transformação e preservação da própria aldeia.

O novo monumento pretende, assim, unir essas duas memórias: a do homem ou mulher que atravessava clandestinamente a fronteira para sobreviver e a do emigrante que partia em busca de uma vida melhor.

José Manuel Campos

Fóios, uma terra de memória e futuro

A homenagem ao contrabandista e ao emigrante insere-se numa visão mais ampla de valorização de Fóios enquanto comunidade raiana. A aldeia procura manter as suas tradições sem deixar de olhar para o futuro, valorizando o património, a cultura e os equipamentos existentes.

A Capeia Arraiana, as memórias do contrabando, os caminhos da fronteira, a emigração e as histórias das famílias constituem um património imaterial que continua a passar de geração em geração.

O monumento inaugurado a 16 de agosto assume, por isso, uma função que ultrapassa a própria cerimónia. É uma referência permanente para os habitantes e para todos aqueles que visitam Fóios, permitindo recordar uma época em que a sobrevivência exigia coragem e sacrifício.

É também uma homenagem aos emigrantes que partiram e regressaram, aos que construíram uma vida longe de Portugal e aos que, apesar da distância, nunca deixaram de considerar Fóios a sua casa.

A aldeia quis, desta forma, dizer aos seus antigos contrabandistas e emigrantes que as suas histórias não foram esquecidas.

E, ao fazê-lo, Fóios reafirma uma mensagem simples e poderosa: uma comunidade que conhece e honra o seu passado está mais preparada para construir o seu futuro.

José Manuel Campos

Discurso de Luís Eduardo Afonso Andrade, Presidente do Observatório Internacional de Direitos Humanos Servidor Intemporal da Humanidade

“Ilustres individualidades aqui presentes,

Queridos emigrantes que hoje regressam a esta vossa terra natal, que é a vossa casa,

E agora vós, gentes generosas e corajosas de Fóios.

É com uma profunda honra, imensa emoção e um sentido de dever sagrado que o Observatório Internacional de Direitos Humanos se associa a este momento de extraordinária justiça histórica.

Inaugurar um monumento ao contrabandista e ao emigrante aqui, nesta terra raiana e bendita de Fóios, é muito mais do que erguer uma estrutura de pedra ou metal.

É, sim, gravar na eternidade a alma deste povo.

É imortalizar a coragem, a resiliência e a dignidade de uma gente que recusou vergar-se perante a miséria, que desafiou o destino e que nunca se deixou vencer pelo isolamento.

Falar de Direitos Humanos é falar, na sua essência mais pura, do direito à vida, à sobrevivência e à dignidade.

É sob este prisma de profunda humanidade que hoje olhamos para a figura mítica e real do contrabandista raiano.

Durante décadas de inverno rigoroso, privação e silêncio, cruzar a fronteira na escuridão da noite não era um ato de rebeldia ou criminalidade.

Desafiar a morte, a guarda, o frio cortante e o medo era, na verdade, um ato de amor desesperado.

Era o grito de revolta de quem não aceitava a fome.

Carregar à força de braços os fardos pesados por caminhos de lobos era a única forma que muitos pais e mães de família tinham para garantir a sobrevivência.

Fazia-se a passagem para trazer o sustento, comprar o remédio que faltava, alimentar os filhos e dar conforto aos idosos que ficavam a rezar em casa.

O direito fundamental e divino de proteger os seus sobrepôs-se a todas as barreiras, montanhas e leis arbitrárias.

Esses homens e mulheres não violaram a justiça; eles foram os guardiões da vida.

Foram, sim, heróis hercúleos da subsistência.

Muitos dos que aqui estão hoje, com os olhos brilhantes de memórias, e tantos outros que já partiram, recordam na pele e na alma as dores da emigração “a salto”. Lembram-se, como se fosse hoje, do rasgão no coração que foi deixar os Fóios.

Lembram-se do pranto da despedida, do abraço apertado à mãe que ficava a chorar no largo, da incerteza de pisar o chão do mundo sem eira nem beira, com a mala de cartão na mão e a esperança cravada no peito.

Essa viagem, feita com o coração nas mãos e cheia de sacrifícios, rasgou caminhos pelos mais variados cantos do mundo.

Aos nossos emigrantes, que hoje acolhemos com os braços abertos, o Observatório Internacional de Direitos Humanos, uma organização singular que atua à escala planetária em prol da humanidade, com sede mundial em Portugal, curva-se diante da vossa capacidade de trabalho, do vosso sofrimento longe das raízes e do vosso sucesso, que tanto orgulha Portugal.

Esta terra sabe o que custou cada Franco francês, cada Dólar, cada moeda ganha com o suor de um povo que partiu sem nada, mas que levou os Fóios na bagagem da alma.

Vocês, queridos emigrantes, não ergueram apenas as vossas vidas lá fora; vocês sustentaram esta terra, mantiveram vivas as vossas raízes e regressam sempre, ano após ano, porque o cordão umbilical que vos liga a este chão raiano nunca se quebrou, nem nunca se quebrará.

Tudo isto só foi possível porque a identidade de Fóios é forjada na fronteira, mas, acima de tudo, na solidariedade.

As gentes desta terra raiana conhecem o valor da partilha.

São um povo generoso, acolhedor e profundamente humano.

Sabem o que é abrir a porta a quem precisa, porque conhecem na própria carne a dor da partida e a dureza da vida na raia.

Os vossos sacrifícios do passado são os alicerces do orgulho do presente.

Agradecemos profundamente o empenho das autoridades locais e regionais que tornaram este monumento uma realidade, perpetuando esta memória coletiva.

Que este monumento lembre a todos os que por aqui passarem que os Direitos Humanos se defendem garantindo que nenhum ser humano seja obrigado a passar fome ou a fugir da sua terra por falta de dignidade.

Que ele honre o passado, inspire o presente e celebre, para sempre, a alma gigante do povo de Fóios.

Este monumento que hoje inauguramos é um tributo às lágrimas vertidas na solidão da distância, mas é, acima de tudo, um hino à vitória de um povo vencedor.

É o pedido de desculpas da história e o agradecimento eterno da vossa pátria.

Que cada pessoa que passe por esta obra sinta o peso dos fardos que os nossos antepassados carregaram, mas também a leveza e o orgulho da liberdade e da dignidade que eles conquistaram para nós.

Bem-hajam, gentes corajosas de Fóios!

Viva o Concelho do Sabugal, viva Portugal e vivam os nossos emigrantes!

Fóios: ontem, hoje e sempre!

Muito obrigado a todos pela vossa dedicada atenção.”

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