Uma fotografia encontrada por acaso me fez, há alguns dias, pensar em antigos amigos. Por onde andariam?
Na juventude, o pressentimento de que a vida se encarregaria de nos dar diferentes destinos ainda não me atormentava. Sofrer por antecipação não fazia parte de nós. Ainda não nos perguntávamos se nos esqueceríamos uns dos outros, se tudo ficaria no passado, sepultado pelos nossos futuros.
O que eu desconhecia naquele tempo era que, se a minha história seguisse o mesmo curso que a dos meus pais, provavelmente aconteceria o mesmo comigo; afinal, eles já haviam passado pela mesma situação e não cultivavam nenhuma das amizades da época em que eram jovens. Alguns desses poucos amigos perderam precocemente a vida; os demais se dispersaram, desaparecendo do convívio de meus pais como se nunca dele tivessem feito parte. Talvez meus pais não sentissem a perda porque não pensavam nela como eu penso agora.
“Mas se essas amizades eram boas e ofereciam momentos agradáveis, por que deixá-las ir? Por que não mantê-las?”, pensei.
Devia haver algum mecanismo responsável por esse afastamento que eu ainda não identificara. A velha explicação de que os caminhos escolhidos por cada um acabam separando as pessoas em mundos diferentes não me convencia. Algumas amizades, afinal, haviam sobrevivido apesar dessas diferenças.
Tomei como exemplo um de meus amigos, que não tivera a minha sorte e crescera sem poder estudar. Mal assinava o próprio nome, mas o que importava? Isso o fazia diferente dos meus outros amigos? Eu achava que não. O que importava era o fato de ser uma pessoa generosa e leal, aí, sim, diferente de muitos que se diziam meus amigos.
Bons sentimentos podem habitar tanto em pessoas cultas quanto em pessoas iletradas. O contrário também é verdadeiro. Ao longo da vida, conheci pessoas extremamente cultas, capazes de falar sobre literatura, música, filosofia e tantas outras coisas, mas que utilizavam essa mesma inteligência para ferir, manipular ou humilhar.
A cultura talvez apenas amplie aquilo que cada um já traz dentro de si. Se a pessoa é generosa, pode encontrar melhores formas de exercer essa generosidade. Se não é, pode usar a cultura e a inteligência para ferir com mais precisão. Nunca acreditei que cultura e caráter andassem necessariamente juntos.
Talvez por isso alguns amigos de tantos anos atrás ainda permaneçam tão vivos na minha memória, enquanto outros, que naquele tempo pareciam mais importantes, foram desaparecendo quase por completo. Não me lembro dos diplomas que tinham, dos cargos que ocupavam, das roupas que usavam ou do dinheiro que possuíam.
Lembro-me, isto sim, daqueles que sofriam a perda de um de meus entes queridos como se fosse a perda de um dos seus. Lembro-me da troca de segredos e da promessa, sempre cumprida, de mantê-los entre nós.
Outros simplesmente seguiram os seus caminhos, como eu segui o meu, e um dia percebi que já não faziam parte da minha vida, sem que eu pudesse encontrar uma explicação para os seus definitivos desaparecimentos. Às vezes me pergunto se, vez por outra, também compartilham esse mesmo sentimento de saudade. Talvez sim. Talvez não.
É estranho imaginar que alguém que durante tantos anos soube tantas coisas sobre nós possa hoje não saber absolutamente nada.
Percebi também que algumas das amizades que atravessaram os anos começavam a se fragilizar por uma razão que nada tinha a ver com o tempo ou com a distância: a polarização alimentada por grupos políticos extremistas. Discordar faz parte da existência humana. É difícil, porém, manter a amizade com quem apoia candidatos extremistas. Mais difícil ainda é aceitar que esses candidatos falem tanto em moralidade enquanto se espelham em governantes autoritários que desprezam a democracia, empurram seus países para o fracasso e transformam a misoginia, o racismo e a perseguição aos imigrantes em política de Governo. Olhei outra vez para a fotografia. O tempo levou alguns dos que estavam ali. Outros ainda estão presentes em minha vida, mas nossas divergências ameaçam nos afastar. Não assistirei passivamente a essa separação.
Ainda que, em alguns deles, a razão pareça adormecida, tentarei despertá-la. Talvez haja algo de quixotesco nisso, mas não desistirei. Os que semeiam a separação e a discórdia precisam encontrar resistência. Não quero que a intolerância leve o que o tempo ainda não levou.
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Marco Guimarães é escritor e jornalista. Autor de romances publicados na África, na América do Sul e na Europa. Vice-Presidente da União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP) e diretor de redação da revista Entre Margens.






