“The greatest thing you’ll ever learn…”
Eden Ahbez, “Nature Boy”
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Atendendo às súplicas da pessoa que há 15 anos cuida do meu apartamento em Paris, resolvi abandonar momentaneamente a música clássica (Bach, Harpsichord Concerto No. 1 in D Minor, dirigido por Trevor Pinnock), que ouvia na Air Classique, uma estação de rádio francesa. Busquei algo, digamos, menos radical, acreditando, assim, que minha ajudante não cumprisse a promessa que há tempos vinha fazendo, de atirar-se do quinto andar, por não mais aguentar Bach, Vivaldi, Beethoven, Grieg, Weber, Rachmaninoff etc.
Apontei a seta do mouse para a Breezy Radio (Singers, Swingers, Standards & Classic Jazz) e, com uma leve pressão do indicador direito, finalizei a minha escolha. Como se pode ver pelos subtítulos da rádio, o ecletismo é uma de suas marcas. Por sorte, a música que a estação tocava era “Nature Boy”. Tenho a certeza de que o que chamam de “música popular de raízes”, ou coisa que o valha, seria melhor recebido pela minha ajudante, mas existem canções que, mesmo cantadas em outra língua, conseguem agradar a todos, são consideradas universais, e, depois, o intérprete era o inesquecível Nat King Cole, com sua romântica e marcante voz.
Interrompi o que escrevia e, de soslaio, olhei a pretensa suicida para ver se a minha opção estava aprovada. Essa pausa levou-me a dar à letra uma atenção que ainda não dera anteriormente. A música ancora-se na história de alguém que, num mágico dia, encontra em seu caminho um menino; um tímido, sábio e estranho menino, que afirma que amar e ser amado é a mais importante coisa que se pode aprender na vida. (“The greatest thing you’ll ever learn / Is just to love and be loved in return”).
Sei que a canção, composta em 1947 por Eden Ahbez (nascido como George Alexander Aberle), não é uma ode contra os princípios cristãos, mas atrevo-me a interpretá-la assim, e a primeira pergunta que me faço é: como ficaria o tal do amor incondicional, o amar sem ser amado, o dar sem receber? Daí me conduzo para uma outra pergunta, a do ser e ter, para tentar entender a questão que levantei: amar seria uma forma de ser ou, quando condicionado à reciprocidade, também uma maneira de ter?
Até a Idade Média, costuma-se dizer que o “ser” predominava sobre o “ter”; à época, a vida na Terra era vista, em grande medida, como uma passagem, e o que viria após essa vida ocupava lugar central no imaginário religioso e social. Pois bem, as coisas começaram a mudar com o Renascimento e, depois, com as transformações que marcaram a modernidade. O transcendental não desapareceu, mas perdeu parte de sua centralidade diante de uma valorização crescente da vida terrena, do indivíduo, da propriedade e da acumulação, num processo que desembocaria, entre outros fatores, no materialismo social e econômico caracterizador da burguesia.
Para o homem moderno, verdadeiro predador social e emocional, que substituiu a natureza humana pelo homem na natureza, tornou-se cada vez mais difícil imaginar amar sem ser amado, doar sem receber, ser e não ter. A lógica da troca, tão própria da vida econômica, parece ter encontrado também o caminho das relações afetivas: dou para receber, amo para ser amado, ofereço para possuir.
Pobre São Francisco, pobre Noé, que desmatou tanta mata para juntar madeira e construir um barco para salvar os “puros” do tsunami que varreu a Terra.
E, finalmente, o meu obrigado ao compositor Eden Ahbez, que terminou por ser minha muleta inspiradora para esta crônica e, de certa forma, salvou também a vida da minha ajudante, que, mesmo sem entender uma palavra do que Nat King Cole cantava, deixou-se encantar pela música e por aquela voz, e esqueceu, ao menos por algum tempo, a promessa de atirar-se do quinto andar.
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Marco Guimarães
Jornalista e escritor
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