Opinião: Onde há portugueses, há Portugal – o valor das nossas academias e confrarias


A chamada diplomacia informal da portugalidade constitui hoje um dos mais eficazes instrumentos de projeção externa de Portugal, precisamente porque assenta em relações humanas, proximidade cultural e autenticidade. Ao contrário da diplomacia tradicional, conduzida pelo Estado através de canais institucionais, esta forma de diplomacia vive do quotidiano das Comunidades, das redes associativas e do envolvimento voluntário de milhares de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo mundo.

Confrarias, academias e associações culturais funcionam, assim, como verdadeiros pontos de contacto entre Portugal e as sociedades de acolhimento, promovendo uma imagem positiva do país, baseada na cultura, na gastronomia, na língua e nos valores de solidariedade e convivência. São espaços onde se constroem pontes, se reforçam relações e se afirma uma presença portuguesa que é simultaneamente discreta e profundamente eficaz.

Importa sublinhar que esta diplomacia informal não substitui a ação do Estado – complementa-a e, muitas vezes, potencia-a. Ao criar redes de confiança e proximidade, estas estruturas facilitam o trabalho institucional, seja na promoção económica, na atração de investimento ou no reforço da influência cultural de Portugal. Para além disso, desempenham um papel essencial na integração das Comunidades, contribuindo para a sua coesão interna e para a sua valorização junto das sociedades onde se inserem. Num contexto internacional cada vez mais competitivo, em que a afirmação dos países passa também pela sua capacidade de mobilizar as diásporas, a diplomacia informal da portugalidade revela-se um ativo estratégico de primeira ordem – um verdadeiro capital imaterial que importa reconhecer, valorizar e apoiar.

Tenho para mim que Portugal é uma nação global, como até costumo dizer somos um “país espalhado pelo Mundo”, pois para além dos cerca de dez milhões de cidadãos residentes no território nacional, existem milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelos cinco continentes, que mantêm uma ligação afetiva, cultural e linguística à sua pátria de origem. É nesse espaço, muitas vezes longe das instituições formais do Estado, que estas estruturas associativas assumem um papel insubstituível.

As Academias do Bacalhau são disso um exemplo paradigmático. Nascidas na diáspora, expandiram-se ao longo das décadas para vários países, assumindo-se como espaços de encontro intergeracional, onde se reforçam laços, se transmitem valores de solidariedade e se preserva a identidade cultural portuguesa.

Neste âmbito junta-se também o exemplo da Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”, nomeadamente a sua estrutura na Île-de-France, cuja recente criação constitui um sinal claro da vitalidade das nossas Comunidades. A instalação desta confraria na região de Paris, com a realização do seu primeiro capítulo de entronização, simboliza o reforço dos laços entre a Beira e a diáspora portuguesa, afirmando a importância destas organizações na preservação e divulgação da identidade cultural além-fronteiras.

Mas o seu impacto vai muito além do convívio. Estas organizações têm uma forte dimensão social e solidária. Através de iniciativas concretas, apoiam compatriotas em situação de maior fragilidade, reforçando o sentido de Comunidade e de entreajuda que sempre caracterizou os portugueses. São, muitas vezes, o primeiro ponto de apoio para quem está longe de casa.

Ao mesmo tempo, desempenham um papel determinante na divulgação da cultura e da língua portuguesa. Seja através da gastronomia, da música, das tradições ou da organização de eventos culturais, estas academias e confrarias são autênticos embaixadores informais de Portugal nos países onde se inserem.

Foi neste espírito que tive a honra de ser entronizado pela Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco” em Zurique em 2015 e mais recentemente em Paris.

Esse momento permitiu-me testemunhar, de forma direta, a força desta rede de portugueses que, longe da sua terra, continuam profundamente ligados a Portugal. Homens e mulheres que, através destas academias e confrarias, mantêm viva a língua, a cultura, as tradições e, sobretudo, o sentimento de pertença.

Num tempo em que tanto se fala de diplomacia económica e cultural, importa sublinhar que estas organizações são um dos instrumentos mais eficazes de projeção de Portugal no mundo. Sem formalismos, mas com autenticidade. Sem grandes recursos, mas com enorme dedicação.

Valorizar as confrarias e academias portuguesas na diáspora é, por isso, valorizar Portugal. É reconhecer que a nossa identidade não se limita ao território nacional, mas vive e se afirma onde houver um português. E é também afirmar, com convicção, que a portugalidade não conhece fronteiras.
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Carlos Gonçalves
Deputado (PSD) eleito pelo círculo eleitoral da Europa

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