“Sempre que está a chover e vem o mau tempo sinto-me assim, em baixo… mas é assim com toda a gente, não é?”. Não, respondo delicadamente.
Muitos doentes dizem-me isto. “Todos os anos é igual Dra.”. Dizem-me como se fosse uma característica da sua personalidade e nada de importante se tratasse. Porque sempre foram assim e, muitos, não conhecem outra maneira de ser. Também a irmã, a mãe e a avó materna tinham “este jeito de ficar mais em baixo com a chegada do frio e da chuva, sem vontade de sair da cama, de trabalhar, de ver pessoas”. Acrescentam “também só me apetece dormir e como mais”.
Às vezes ouço-o na primeira consulta e outras ao final de algum tempo de acompanhamento. A queixa que os traz à consulta pode ser esta, mas também pode ser outra. Uma depressão mais grave, que não passou sozinha ou que os impediu de trabalhar.
A depressão sazonal não é um estado de espírito. É uma forma específica de depressão que surge, anualmente, com a queda da folha e se prolonga pelas festas adentro. Há sintomas em tudo semelhantes aos da depressão dita “clássica” mas, a maioria das vezes, há mais sono e mais fome. Também o cansaço extremo e a irritabilidade são sintomas que vemos a maioria das vezes.
E é importante dizê-lo claramente: é uma doença médica real. Não passa sempre sozinha e merece a nossa atenção.
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Todos nós temos emoções. Ficamos alegres, tristes, com raiva ou medo face a algo. Todos nós sentimentos mudanças de humor. Estamos tristes, alegres ou irritáveis quando acontece algo melhor ou pior. Isto é normal e é adaptativo.
Quando a oscilação do humor é extrema, prolonga-se no tempo e interfere no nosso dia-a-dia e na relação com os outros, alterando a nossa forma de estar, sentir ou pensar, ao ponto de as pessoas mais próximas sentirem que algo não está bem, é mandatória uma avaliação para perceber o que se passa.
Nem sempre é fácil olharmos para nós quando falamos do humor. Quando ouvimos com frequência “estás de mau humor” ou quando damos por nós a chorar sem razão todos os dias, não devemos ignorar isto.
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O testemunho das figuras da praça pública pode ajudar muito – quando é feito com responsabilidade. Sempre que uma figura pública fala da sua experiência, muitas pessoas sentem-se menos sozinhas. A vergonha diminui e a ideia de pedir ajuda torna-se mais aceitável. E isso é tão bom!
O principal risco para mim é tornar a doença mental “instagramável”. A doença mental não é romântica nem estética nem apelativa – esta é a regra. Se há pessoas que continuam a trabalhar, a sorrir, a aparecer nas redes – e ainda assim estão deprimidas? Sim, isso é verdade. Mas também há quem não consiga sair da cama. E não por uma mera falta de esforço, passível de ultrapassar com um quê de “força de vontade”. E estes conteúdos, mas (principalmente) os conteúdos que glorificam o estilo de vida “ideal” como remédio para todos os males, podem trazer muita culpa a estas pessoas.
Há riscos em falar, mas (como digo sempre) o silêncio não é neutro. Por isso, no final de contas, sou a favor de conversarmos mais – sempre.
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Quando pensamos em depressão sazonal o que nos vem à cabeça são os dias frios, curtos e cinzentos (e bem – isto é o mais frequente).
Mas, a verdade, é que a depressão sazonal não é exclusiva do outono e do inverno. Há pessoas para quem os meses da primavera e do verão trazem (persistentemente) muita tristeza e um desânimo que teima em ficar, sem razão aparente.
São doenças semelhantes, mas há algumas diferenças a apontar. O “mal do Verão” traz menos sono, menos apetite, mais inquietação e um maior risco de suicídio.
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O diagnóstico da depressão sazonal é clínico. Está nas nossas perguntas e nas respostas do doente.
A Depressão Recorrente sazonal é uma doença que, a maioria das vezes, só conseguimos diagnosticar se tentarmos ver se ela lá está e fizermos as perguntas certas. A maioria das vezes, estas pessoas vão ser tratadas para vários episódios de depressão “isolados” (os mais graves ou que não passaram sozinhos), com sintomas que surgem (mais ou menos) todos os anos com a chegada do outono e a “queda da folha” e se prolongam pelas festas adentro e muitas vezes com uma resposta sub-óptima à medicação. Os sintomas são semelhantes aos da depressão, mas, a maioria das vezes, há mais sono e mais fome. Também pode haver cansaço extremo e mais irritabilidade.
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No dia-a-dia, nas conversas banais, dizemos que há uma “depressão” e um tratamento certo ou errado para a “depressão”.
Na prática, sabemos que não é assim: a “depressão” tem várias caras – isto é o ponto-chave. É uma depressão única ou é uma depressão que teima em voltar; é uma depressão que surge por um motivo ou uma depressão que surge apesar de estar tudo bem “está tudo bem, só eu é que não”; é uma depressão que surge aleatoriamente ou em alturas-chave (a queda da folha, o pós-parto, a menopausa); que tipo de sintomas é que esta depressão trouxe.
O psiquiatra vai querer saber tudo isto e outras tantas coisas. Porquê? As várias caras da depressão não respondem de forma igual aos mesmos tratamentos. E a depressão sazonal é o exemplo máximo disto. Porque isto não é “só depressão”. Nem “só o tempo”. É uma forma muito própria e muito biológica de reagir à falta de luz e aos dias mais curtos.
E o que é que vamos recomendar? Primeiro que tudo – contrariar o que o corpo pede. Manter-se ativo, praticar exercício físico regularmente, apanhar sol e buscar interações sociais, mesmo durante os meses mais frios. Não podemos mudar as estações, mas podemos ajudar a minimizar o efeito delas. Podemos até, em alguns casos, recomendar fototerapia (um tipo especial de terapia em que usamos uma luz especial que simula a luz solar).
Depois, além da psicoterapia – onde vamos trabalhar a cabeça, desmontar pensamentos automáticos e criar novas estratégias para lidar com as dificuldades – queremos iniciar uma medicação que permita à pessoa voltar a si e ser capaz de “contrariar” o que o corpo e a mente pedem. E na Depressão sazonal mais do que nunca vamos ter de saber colocar o doente como o agente principal na escolha da nossa medicação. Começamos com um antidepressivo, mas, sempre que necessário, avançamos para novas estratégias ditadas pelo que o doente nos traz: psicoterapia mais intensiva, combinações de fármacos, outras classes terapêuticas, terapêuticas não farmacológicas. Medicina verdadeiramente personalizada.
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Queremos abandonar a ideia do psiquiatra como último recurso que só vê casos graves e sem solução. Deixem-me ser clara: psiquiatria não são cuidados intensivos. Não é um sítio para onde se vai quando já não há mais nada a fazer. É precisamente o contrário: é onde se vai para evitar que as coisas cheguem a esse ponto.
O psiquiatra não é “o médico da medicação forte”. É o médico que orienta. Que ajuda a perceber se estamos perante uma depressão dita “clássica”, uma depressão sazonal, uma depressão recorrente, uma perturbação bipolar, um problema de sono mal tratado ou simplesmente uma fase transitória que não precisa de nada de nada e que vai passar. Às vezes vai ser preciso medicação. Outras vezes psicoterapia. E muitas outras rever hábitos. Mas, em qualquer dos casos, o psiquiatra está no lugar ideal para desenhar um plano adequado ou não desenhar plano nenhum.
Se algum destes sintomas soam “normais” e “habituais”, é altura de procurar ajuda. Estes padrões tratam-se. E a depressão sazonal exige uma atenção especial.
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De forma geral, quanto mais nos afastamos do equador, maior é a prevalência de depressão sazonal. Países com invernos longos, escuros e com poucas horas de luz solar têm taxas claramente mais elevadas.
Mas isto não significa em momento algum que em Portugal não exista ou que o sol seja uma vacina imparável.
Temos sol, sim. Mas temos também dias curtos no Inverno, rotinas cada vez mais fechadas em espaços interiores com luz artificial e estilos de vida que passam quase completamente ao lado da luz natural.
E depois há o fator mais importante de todos: a sensibilidade individual. Há pessoas particularmente vulneráveis às mudanças de luz, independentemente do país onde vivem.
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Apesar de tudo é importante dizer o que é que vemos muitas vezes na prática clínica. O sol ajuda. Muito. Nunca deixo de ficar impressionada.
Para algumas pessoas, mudar de país muda mesmo a doença. Há doentes que melhoram claramente quando emigram de Portugal para países com mais horas de sol estáveis ao longo do ano. E há outros que fazem o caminho inverso – imigram de países com menos luz para Portugal – e têm uma melhoria significativa dos sintomas. Não porque “a vida ficou melhor”, mas porque um cérebro (já de si, mais vulnerável) deixou de ser constantemente exposto a esta falta de luz.
Há também estratégias curiosas que vejo surgir espontaneamente na prática clínica – truques quase inconscientes por parte destes doentes, mas muito eficazes. Pessoas que mudam de um trabalho fechado, sem janelas, para funções com mais exposição à luz natural. Outras que, sem o verbalizarem assim, começam a marcar férias na praia precisamente nos meses críticos do ano. E há ainda quem organize a vida profissional de forma a passar temporadas prolongadas em países com mais sol exatamente nas alturas em que costuma “ir abaixo”. Raramente me dizem: “fiz isto por causa da depressão sazonal”. Mas quando olhamos para o padrão, a lógica está lá. O cérebro tenta proteger-se.
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Não são soluções mágicas nem universais. Por baixo disto tudo, está sempre um cérebro mais vulnerável. Mas adaptar o ambiente pode, pelo menos, ser parte da solução.
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Dra. Maria Moreno
Médica psiquiatra na Cognilab
@mariamoreno.medicapsiquiatra






