A justiça conduz-nos à verdade ou à “sua” verdade?
Esta é uma das questões que Juan Branco aborda através da sua primeira longa-metragem sobre a história, tão sórdida quanto distante, do julgamento de Gilles de Rais, segundo as traduções de George Bataille.
Este filme – cuja antestreia teve lugar esta semana em Paris – é construído em torno da ideia de que Gilles de Rais, considerado o primeiro serial killer do mundo e alegadamente responsável por mais de 140 infanticídios, poderia potencialmente ser inocente desses factos.
A obra retrata a história de um casal que, quase isolado do mundo, cerca de cinco séculos após a condenação de Gilles de Rais, mergulha nos arquivos do julgamento e reencena os debates e confrontos entre as diferentes personagens do caso, sendo que cada um dos protagonistas se vai envolvendo cada vez mais nos seus papéis à medida que o filme avança.
Juan Branco é um advogado e ativista político franco-espanhol, filho de Paulo Branco, produtor de cinema, português. Contudo, não se lhe devem atribuir privilégios nepotistas, pois, embora tenha sido a produtora de Paulo Branco a participar no filme, este não se envolveu de forma alguma nas filmagens.
Ao mergulhar nos arquivos do processo para preparar o filme, Juan Branco, apercebeu-se de que a justiça aparenta não ter evoluído assim tanto ao longo de cinco séculos. Começou então a ler os textos como se se tratasse de um caso que teria de defender pessoalmente enquanto advogado.
Ao longo das leituras, acabou por não encontrar nada de particularmente convincente quanto à culpabilidade de Gilles de Rais. Acresce que este negou os crimes durante todo o período das acusações, até ao momento em que, de um dia para o outro, “confessou” num contexto em que iria ser torturado no processo, ser o autor desses crimes horríveis e até de outros ainda mais graves.
Coloca-se assim, a hipótese de que se tenha tentado fazê-lo confessar crimes que poderia não ter cometido. Por que razão? Esse permanece o grande mistério.
Foi na sequência disso que Juan Branco descobriu que, para uma parte dos historiadores, seria possível que Gilles de Rais fosse inocente, apesar de, há vários séculos, ser considerado um dos piores criminosos de todos os tempos.
Através deste filme, o realizador pretende não tanto questionar a culpabilidade ou inocência de Gilles de Rais, mas antes a forma como foi julgado. Um processo em que a construção do culpado parece prevalecer sobre tudo o resto e em que o rumor se torna estruturante, sobretudo quando se sabe que nenhum corpo de criança foi encontrado e que os testemunhos contra ele são considerados inconsistentes.
Esta história faz também eco da experiência pessoal de marginalização vivida por ele e alguns dos seus clientes, como Julian Assange e Ousmane Sonko, em contextos que, segundo o realizador, envolveriam instrumentalização política.
É nesta lógica que o filme não foi financiado pelos circuitos tradicionais e foi produzido com meios muito reduzidos, cerca de 20.000 euros, segundo o próprio, o que contrasta fortemente com os mais de 4,3 milhões de euros que, em média, são utilizados para produzir um filme em França.
Os atores Inês Pires Tavares e João Arrais são um verdadeiro prazer de ver em cena. Tal deve-se, em grande parte, ao facto de terem de aprender os textos diariamente, uma vez que Juan Branco reescrevia o guião todos os dias, algo que ele próprio descreveu como uma “tortura” (afirmação que os atores confirmaram com um sorriso). Além disso, não sabiam antecipadamente onde iriam filmar nos dias seguintes, pois as decisões eram tomadas praticamente no próprio dia, num calendário de filmagens bastante curto, com apenas dezoito dias.
Não conhecendo praticamente nada sobre Gilles de Rais e sendo impedidos de se informarem previamente sobre o tema (a pedido de Juan Branco), os atores tiveram de descobrir gradualmente a personagem e a história, formando as suas próprias interpretações através dos papéis que desempenhavam. Segundo Inês, essa experiência foi bastante “louca”, pois tanto ela como João Arrais não podiam preparar-se antecipadamente, o que a levou a interpretar o papel “por puro instinto”. Além disso, alguns planos longos levaram os atores ainda mais ao limite das suas capacidades.
A música que acompanha o filme também merece destaque, sendo muito bem escolhida. Como a obra contém pouca montagem, qualquer elemento sonoro torna-se ainda mais marcante, contribuindo para tornar certas cenas particularmente intensas e memoráveis.
Em suma, trata-se de um filme que, mais do que revisitar um episódio histórico controverso, propõe uma reflexão inquietante sobre o funcionamento da justiça, o peso da narrativa, do rumor e a fragilidade da verdade quando esta é construída por instituições e pelo tempo.
Com poucos meios e com uma vontade de fazer um cinema diferente do “sistema”, mas com uma proposta estética e intelectual assumida, Juan Branco apresenta uma obra que desafia o espetador a questionar não apenas o passado, mas também os mecanismos contemporâneos de julgamento e de construção do culpado.







