Saúde: Já ouviu falar de Brain Rot?


Nos últimos meses, plataformas digitais como o TikTok têm vindo a amplificar um fenómeno que muitos especialistas já descrevem como “degradação cognitiva digital” (tradução aproximada do termo “brain rot”), uma expressão que procura traduzir algo mais profundo: a exposição contínua a conteúdos tecnológicos estimulantes, rápidos, fragmentados e com reduzido valor cognitivo.

Entre estas tendências destaca-se o fenómeno das chamadas dramatizações absurdas com frutas, geradas por inteligência artificial (conhecido como “AI fruit drama”), um tipo de conteúdo que combina narrativas caóticas, personagens caricaturais e dinâmicas relacionais frequentemente marcadas por conflito, exagero emocional e, não raras vezes, traços de misoginia implícita ou explícita.

À primeira vista, estes conteúdos podem parecer apenas humorísticos ou inofensivos, sobretudo porque recorrem a elementos visuais apelativos e a uma lógica aparentemente caótica que capta facilmente a atenção: “Que engraçados! O que é que está a acontecer?”. No entanto, quando analisados à luz da ciência psicológica, levantam preocupações significativas quanto ao impacto no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e dos jovens.

A exposição repetida a este tipo de estímulos tende a criar uma sobrecarga cognitiva que interfere com a capacidade de atenção sustentada. O cérebro, particularmente em idades mais jovens, adapta-se rapidamente ao ritmo acelerado e à constante novidade destes conteúdos, o que pode dificultar a concentração noutras tarefas obrigatórias, que se tornam mais exigentes, como a leitura, o estudo ou mesmo o investimento nas interações sociais mais profundas.

Paralelamente, promove-se um consumo passivo, quase automático, em que a reflexão crítica é substituída por uma resposta imediata e superficial, que é inconscientemente aprendida, ou seja, há um processo subtil mas poderoso de normalização de comportamentos disfuncionais. As narrativas presentes nestas dramatizações das frutas frequentemente incluem conflitos exagerados, comunicação agressiva e dinâmicas de poder distorcidas, onde a humilhação, a ridicularização ou o controlo surgem como elementos centrais da interação.

Quando estas representações são repetidas de forma contínua, tornam-se referências implícitas para a forma como as crianças e jovens interpretam as relações interpessoais. E isto é particularmente relevante numa fase em que ainda estão a construir os seus modelos internos de relação.

Outro aspeto crítico prende-se com a dessensibilização emocional. A exposição constante a conteúdos intensos, absurdos ou emocionalmente exagerados pode reduzir a capacidade de reconhecer e responder de forma adequada às emoções reais, tanto próprias, como dos outros. A empatia, enquanto competência essencial ao desenvolvimento social saudável, pode ficar comprometida, dando lugar a uma maior indiferença ou até banalização do sofrimento alheio.

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Dra. Marta Calado

Psicóloga da infância e da adolescência

Clínica da Mente

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