O Associativismo na Diáspora Portuguesa: Um novo rumo com mulheres ao leme

Durante a conferência apresentada no âmbito do colóquio do 14 e 15 de maio, no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa, sobre “Migrações Portuguesas – Conhecer, Investigar e Difundir” (ler AQUI), uma iniciativa promovida pela socióloga Maria-Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, em parceria com a Academia Internacional da Cultura Portuguesa, Maria da Graça Sousa Guedes, professora da Universidade do Porto, sócia-fundadora da Associação Mulher Migrante, de que é atualmente Presidente e Ivone Dias, socióloga, Presidente da Associação Vencer o Tempo e Vice-Presidente da Direção da AMM, apresentaram conferência sobre o tema: “O Associatismo na Diápora Poruguesa – Um Novo Rumo com Mulheres ao Leme”.

Criada em 1993, a Associação Mulher Migrante (AMM) tem desenvolvido uma multiplicidade de atividades, algumas das quais com o patrocínio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas (SECP), já desde 1995. Destaca-se nomeadamente: o Encontro Mundial das Mulheres Migrantes e Gerações em Diálogo (Espinho), que deram a conhecer a associação e constituiu um marco da vida ativa de suas fundadoras. A partir daquela data, com o apoio da SECP, a AMM participou em encontros e colóquios mundiais, sendo de realçar os Encontros para a Cidadania (2005-2009) em Buenos Aires, Estocolmo, Toronto, Joanesburgo e Espinho (encerramento) e em 2013 no Encontro Mundial Mulheres da Diáspora – Expressões Femininas de Cidadania, em Lisboa (Palácio das Necessidades) e Real Gabinete Português de leitura do Recife (Brasil).

O associativismo constitui uma das mais importantes expressões da vida em comunidade, promovendo valores de cooperação, solidariedade e entreajuda. Ao longo da história, as associações têm desempenhado um papel fundamental na construção da cidadania, no fortalecimento dos laços sociais e na valorização das identidades culturais, funcionando como espaços de participação ativa, aprendizagem e responsabilidade coletiva.

Na diáspora portuguesa, o movimento associativo assume uma relevância particular, ao reunir comunidades espalhadas pelos vários continentes em torno de objetivos comuns, preservando tradições, promovendo o diálogo intercultural e reforçando o sentimento de pertença às origens portuguesas. As associações portuguesas no estrangeiro tornaram-se, assim, pilares essenciais da ligação entre Portugal e as suas comunidades emigrantes.

Neste contexto, ganha crescente destaque o papel das mulheres no dirigismo associativo.

Em 2025, a Associação Mulher Migrante lançou o projeto Mulheres no Dirigismo Associativo, com o objetivo de mapear associações portuguesas dirigidas por mulheres e dar visibilidade ao contributo feminino neste setor. O contacto estabelecido com cerca de 900 associações revelou uma presença expressiva de mulheres em cargos de liderança, refletindo novas dinâmicas de participação e renovação do movimento associativo português no mundo.

Um encontro realizado em maio de 2025 permitiu aprofundar o diálogo entre dirigentes associativas e evidenciar a diversidade das iniciativas desenvolvidas pelas Comunidades portuguesas no estrangeiro. Esta partilha de experiências reforçou a importância de prosseguir o projeto “O Associativismo na Diáspora Portuguesa – Um Novo Rumo com Mulheres ao Leme”, valorizando o papel transformador das mulheres na construção de um associativismo mais inclusivo, participativo e representativo das Comunidades portuguesas contemporâneas.

A Missão da Associação Mulher Migrante

A Associação Mulher Migrante – Estudos, Reflexão e Solidariedade – tem como missão o estudo do fenómeno migratório e o combate às desigualdades e discriminações que afetam as mulheres, particularmente as mulheres migrantes e as minorias étnicas, sendo o leme da associação um compromisso: “Não há estrangeiros numa sociedade onde os direitos humanos são respeitados”.

Esta afirmação exprime a vontade de construir uma sociedade mais justa, solidária e humana, onde todas as pessoas possam desenvolver plenamente as suas capacidades e participar em igualdade de direitos, evitando, entre outros, que mulheres privadas de igualdade se tornem, de certa forma, estrangeiras no seu próprio país.

A Importância do Associativismo na Diáspora Portuguesa

O associativismo português conheceu um grande desenvolvimento a partir da década de 1980, através das numerosas associações portuguesas espalhadas pelo mundo. Atualmente, prosseguem os trabalhos de investigação destinados a compreender melhor o papel desempenhado pelas mulheres portuguesas neste movimento associativo.

Desde sempre, o ser humano sente necessidade de criar laços, partilhar experiências, desenvolver projetos comuns e viver em comunidade. Das estruturas familiares aos grupos sociais mais amplos, as organizações associativas foram essenciais à vida coletiva.

O associativismo representa, assim, uma das expressões mais fortes da solidariedade social. As associações são verdadeiras escolas de cidadania: promovem a responsabilidade, o trabalho em equipa, a participação cívica e a entreajuda.

Em Portugal e em muitos outros países, as associações deram frequentemente respostas concretas às necessidades sociais, culturais e educativas das populações. Associações humanitárias, mutualistas, cooperativas, culturais ou desportivas contribuíram para reforçar as comunidades e promover o desenvolvimento social.

As Origens do Movimento Associativo Português

O associativismo moderno português desenvolveu-se a partir das ideias liberais emergentes da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Nos séculos XVIII e XIX surgiram as primeiras sociedades filarmónicas, associações de socorros mútuos e organizações culturais.

Com o passar do tempo, as associações diversificaram-se, surgindo: associações de teatro, de música, de folclore, de desporto, instrução popular, bombeiros voluntários, sociedades recreativas e culturais. Muitas destas instituições continuam ainda hoje a desempenhar um papel essencial na vida social portuguesa.

As Associações Portuguesas no Mundo

A diáspora portuguesa criou centenas de associações em todo o mundo: no Brasil, Venezuela, Argentina, Canadá, Estados Unidos, África do Sul e em vários países europeus. Estas estruturas permitem preservar a língua, as tradições e a identidade cultural portuguesas, ao mesmo tempo que favorecem a integração nos países de acolhimento.

Num estudo realizado em 1995, foram identificadas cerca de 1.900 associações portuguesas distribuídas da seguinte forma:

– 1.057 na Europa

– 100 em África

– 458 na América do Norte

– 289 na América do Sul

– 6 na Ásia

Os grupos folclóricos desempenharam um papel particularmente importante, permitindo uma maior participação dos jovens e das mulheres na vida associativa. A música, o canto e a dança tradicional contribuíram, assim, para manter uma forte ligação à cultura portuguesa.

O Exemplo da Associação Desportiva e Cultural de Kinshasa

Entre os exemplos mais marcantes destaca-se, a Associação Desportiva e Cultural Portuguesa de Kinshasa, na República Democrática do Congo. Esta instituição constituiu um verdadeiro centro de vida comunitária para os milhares de portugueses que então residiam na cidade.

A associação dispunha de instalações desportivas, biblioteca, salas de reunião, cinema ao ar livre, espaços culturais e atividades destinadas tanto a crianças como a adultos. Em articulação com a escola portuguesa local, contribuía para a preservação da língua e da cultura portuguesas junto das novas gerações.

As Iniciativas da Associação Mulher Migrante

Com o apoio da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, a Associação Mulher Migrante organizou vários encontros internacionais entre 2005 e 2009, nomeadamente em Buenos Aires, Estocolmo, Toronto, Joanesburgo e Lisboa.

A associação desenvolve igualmente os ateliers ASAS (Academia de Artes e Saberes) inspirados nas universidades seniores e adaptados às realidades da diáspora portuguesa.

Outro projeto relevante foi o levantamento das associações portuguesas dirigidas por mulheres. Das cerca de 900 associações contactadas, aproximadamente uma centena respondeu ao inquérito. Este trabalho permitiu conhecer melhor a presença feminina nas estruturas dirigentes e valorizar o compromisso das mulheres portuguesas na vida associativa internacional.

Em conclusão, as professoras Maria da Graça Sousa Guedes e Ivone Dias, na sua palestra afirmaram que o associativismo continua a ser um dos pilares fundamentais da sociedade portuguesa e da sua diáspora ao desempenham um papel essencial na solidariedade, na transmissão cultural e na participação cidadã. A crescente presença das mulheres em cargos de responsabilidade traz novas dinâmicas e novas perspetivas, que importa reconhecer, divulgar e valorizar.

Graça Guedes e Ivone Dias no final da sua intervenção afirmaram: “Prosseguiremos a nossa missão com determinação e solidariedade”.

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