Saúde: Narcisismo é diferente nas mulheres e nos homens


Quando pensamos em narcisismo, a imagem que surge mais frequentemente é a de alguém arrogante, egocêntrico, sedento de atenção e incapaz de reconhecer o impacto que tem nos outros. No entanto, o funcionamento narcísico apresenta uma organização psicológica mais complexa, do que aquela que é habitualmente retratada socialmente.

Nos últimos anos, a investigação científica tem mostrado que o narcisismo não se expressa da mesma forma em homens e mulheres. Embora os traços centrais sejam semelhantes, como a necessidade de validação, dificuldade empática, fragilidade da autoestima e procura de admiração, a forma como estes traços aparecem tende a variar consoante fatores sociais, emocionais e culturais.

E perceber essas diferenças é importante. Não apenas para compreender melhor as relações interpessoais, mas também para evitar diagnósticos simplistas e estereótipos que podem esconder sofrimento psicológico real.

O que é o narcisismo?

O narcisismo manifesta-se em diferentes graus de intensidade. Ou seja, todos podemos apresentar traços narcísicos em determinados momentos da vida, sobretudo em contextos de insegurança, necessidade de reconhecimento ou proteção emocional. A dificuldade surge quando estes traços se tornam rígidos, persistentes e passam a interferir nas relações, na capacidade empática e na regulação emocional.

A pessoa com funcionamento narcísico tende a organizar a sua autoestima através da validação externa. Precisa de admiração, reconhecimento ou superioridade para se sentir emocionalmente estável. Por trás da aparente autoconfiança existe, muitas vezes, uma autoestima frágil e dependente do olhar do outro.

O narcisismo manifesta-se de forma diferente em homens e mulheres?

Os estudos científicos sugerem que sim.

Os homens tendem a apresentar mais frequentemente aquilo que os investigadores chamam de “narcisismo grandioso”. É um tipo de narcisismo mais visível e mais facilmente reconhecido socialmente. Este perfil caracteriza-se por:

– necessidade de poder e estatuto;

– sensação de superioridade;

– dominância;

– maior arrogância interpessoal;

– menor tolerância à crítica;

– tendência para controlar ou desvalorizar os outros.

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Nas mulheres, o narcisismo surge mais frequentemente associado ao chamado “narcisismo vulnerável”. Neste caso, a grandiosidade é menos explícita, mas existe uma forte necessidade de validação emocional e reconhecimento. Pode manifestar-se através de:

– hipersensibilidade à crítica;

– vitimização;

– oscilação entre insegurança e superioridade;

– necessidade constante de confirmação emocional;

– relações marcadas por dependência, culpa ou manipulação subtil.

Isto não significa que não existam mulheres com traços grandiosos ou homens com traços vulneráveis. Significa apenas que existem tendências estatísticas influenciadas pela forma como homens e mulheres são socializados emocionalmente.

Uma das explicações mais relevantes para estas diferenças está relacionada com as expectativas sociais associadas ao género. Desde cedo, os homens são mais incentivados à assertividade, competição e dominância. Já as mulheres tendem a ser educadas para agradar, cuidar e evitar comportamentos considerados excessivamente “egocêntricos” ou dominadores.

Isto faz com que muitas mulheres expressem traços narcísicos de forma mais indireta ou encoberta, enquanto nos homens esses comportamentos podem ser mais socialmente tolerados, ou até reforçados.

Por outro lado, os critérios clássicos usados para compreender o narcisismo foram construídos sobretudo a partir de modelos masculinos. Isso pode fazer com que algumas manifestações femininas sejam menos reconhecidas ou até confundidas com outros tipos de sofrimento emocional.

O impacto nas relações

Uma das áreas onde o narcisismo se torna mais evidente é nas relações afetivas.

Muitas pessoas descrevem relações emocionalmente desgastantes, marcadas por invalidação, culpa, manipulação emocional ou ausência de empatia. No entanto, estas dinâmicas podem assumir formas muito diferentes.

No perfil mais grandioso, é comum existir controlo, necessidade de superioridade e dificuldade em assumir responsabilidade emocional.

No perfil mais vulnerável, podem surgir padrões mais subtis, como chantagem emocional, hipersensibilidade ou alternância entre aproximação e afastamento.

Em ambos os casos, existe dificuldade em construir relações emocionalmente seguras e equilibradas.

O narcisismo tem tratamento?

Sim, através de um processo psicoterapêutico exigente. Uma das maiores dificuldades é que muitas pessoas com funcionamento narcísico têm pouca consciência do impacto dos seus comportamentos. A crítica é vivida como ameaça, o que pode gerar resistência à mudança.

A psicoterapia pode ajudar significativamente, sobretudo quando existe motivação para compreender os próprios padrões relacionais e emocionais. O trabalho psicoterapêutico passa muitas vezes por:

– desenvolver consciência emocional;

– fortalecer uma autoestima menos dependente da validação externa;

– melhorar a empatia;

– trabalhar a tolerância à frustração;

– construir relações mais saudáveis e autênticas.

Vivemos numa época em que a palavra “narcisista” é usada com enorme facilidade, especialmente nas redes sociais. Mas nem todas as pessoas difíceis são narcísicas, e nem todo o sofrimento relacional corresponde a uma perturbação da personalidade.

Compreender o narcisismo implica ir além do rótulo. Implica perceber que, muitas vezes, por trás da grandiosidade, da manipulação ou da necessidade constante de atenção, existe uma profunda fragilidade emocional.

É precisamente aí que começa a verdadeira compreensão psicológica: não na desculpabilização dos comportamentos destrutivos, mas na capacidade de olhar para além daquilo que é visível.

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Dra. Isa Silvestre

Psicóloga Clínica, Autora

Fundadora e Diretora Clínica da Clínica de Psicologia Isa Silvestre

Instagram: @isasilvestre.psicologa

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