Saúde: Fazer as pazes com a infância: O caminho para uma maternidade consciente


A maternidade é, frequentemente, descrita como um processo de dar vida a um novo ser. No entanto, na prática clínica, observamos que a chegada de um filho funciona também como um espelho implacável que reflete a nossa própria infância. Tornar-se mãe obriga a um confronto direto com a filha que fomos. E é neste cruzamento de papéis que muitas mulheres descobrem que, para serem as mães que desejam, precisam primeiro de fazer as pazes com a sua própria história.

O que significa, afinal, fazer as pazes com a infância? Não se trata de reescrever o passado ou de apagar memórias dolorosas. Trata-se de um processo de integração. Muitas mulheres chegam à maternidade carregando feridas emocionais não resolvidas: necessidades de afeto não correspondidas, expectativas parentais esmagadoras, ou dinâmicas familiares disfuncionais.

Quando estas feridas não são tratadas, tendem a manifestar-se na relação com os filhos, num fenómeno conhecido como repetição transgeracional.

O primeiro passo para a reparação é o reconhecimento. É fundamental identificar os padrões de comportamento que herdámos e que, inconscientemente, replicamos. Uma mãe que cresceu num ambiente onde o afeto era condicionado ao desempenho, por exemplo, pode dar por si a exigir a mesma perfeição aos seus filhos, mesmo que racionalmente repudie essa atitude.

Reconhecer esta dinâmica não é um exercício de culpa, mas sim de tomada de consciência. A culpa paralisa, a consciência liberta.

O que precisa de ser tratado? Essencialmente, as carências da criança interior. A mulher adulta precisa de aprender a validar as emoções que não lhe foi permitido sentir na infância. Se a raiva, a tristeza ou o medo foram reprimidos, é provável que a mãe sinta uma enorme dificuldade em lidar com essas mesmas emoções nos seus filhos. Tratar a própria infância implica desenvolver a capacidade de autoregulação emocional, para que o choro ou a frustração da criança não sejam vividos como uma ameaça ou um gatilho de ansiedade.

A reparação passa também por redefinir expectativas. Muitas mães tentam compensar as suas próprias faltas através dos filhos, oferecendo-lhes a infância que gostariam de ter tido. Embora a intenção seja protetora, esta dinâmica pode ser asfixiante para a criança, que se vê forçada a viver um guião que não é o seu. Reparar significa separar as necessidades da mãe das necessidades reais do filho, permitindo que a criança viva a sua própria história, livre do peso de compensar o passado materno.

O que precisa de mudar? A mudança mais profunda ocorre na transição de uma parentalidade reativa para uma parentalidade consciente. Isto exige um trabalho contínuo de auto-observação. Quando uma mãe sente uma reação desproporcional a um comportamento do filho, a pergunta não deve ser apenas ‘o que há de errado com a criança?’, mas também ‘o que é que isto está a acionar em mim?’. Esta pausa entre o estímulo e a resposta é o espaço onde a verdadeira mudança acontece.

Fazer as pazes com a infância não é um destino final, mas um processo contínuo. É aceitar que não existem mães perfeitas, nem infâncias imaculadas. A maternidade consciente não exige a ausência de feridas, mas sim a coragem de olhar para elas. Ao reparar a filha que fomos, não estamos apenas a curar o nosso passado, estamos a quebrar ciclos e a construir um futuro emocionalmente mais seguro e livre para os nossos filhos.

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Dra. Ângela Rodrigues

Psicóloga

Clínica da Mente

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