Entre “imigrante” e “expatriado”: as palavras que revelam as desigualdades da mobilidade internacional

Nos dias 14 e 15 de maio, o Auditório Adriano Moreira, na Sociedade de Geografia de Lisboa, acolheu o colóquio “Migrações Portuguesas – Conhecer, Investigar e Difundir”, uma iniciativa promovida pela socióloga Maria-Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, em parceria com a Academia Internacional da Cultura Portuguesa (ler AQUI).

Durante este encontro a professora emérita da Universidade de Toronto, Maria Manuela Vaz Marujo, apresentou a comunicação “Nomear a Mobilidade: Categorias, Pertença e Hierarquias nas Migrações Qualificadas”. A investigadora propôs uma reflexão crítica sobre os conceitos de “imigrante” e “expatriado”.

Manuela Marujo apresentou uma reflexão aprofundada sobre uma questão raramente abordada: por que razão algumas pessoas que vivem no estrangeiro são qualificadas como “imigrantes”, enquanto outras preferem ser chamadas de “expatriados”, “cidadãos do mundo” ou “profissionais internacionais”?

A partir de entrevistas realizadas a 25 profissionais qualificados instalados fora do seu país de origem, a investigadora mostra que as palavras utilizadas para designar os migrantes nunca são neutras, revelando relações de classe, privilégios, representações sociais e hierarquias profundamente enraizadas nas sociedades contemporâneas.

Uma reflexão nascida de uma experiência pessoal

No início da sua intervenção, Manuela Marujo retoma a sua própria trajetória. A académica portuguesa candidatou-se a ensinar numa universidade canadiana e explica que no início não se considerou de imediato como imigrante.

Quando chegou a Toronto para lecionar na universidade, a palavra “imigração” não fazia parte do seu vocabulário pessoal. No entanto, com o tempo, sobretudo graças a conversas com o marido, instalado no Canadá há mais de cinquenta anos e especialista na imigração portuguesa, acabou por reconhecer que também partilhava uma experiência migratória.

Esta tomada de consciência levou-a a questionar-se: Por que razão certos deslocamentos internacionais são descritos como “carreiras internacionais” ou “mobilidade académica”, enquanto outros são imediatamente qualificados como “imigração”?

“Imigrante”: uma palavra ainda associada à precariedade

No centro da análise de Manuela Marujo está a ideia de que o termo “imigrante” continua socialmente ligado a representações de vulnerabilidade, necessidade económica e trabalho pouco qualificado.

Segundo Manuela Marujo, muitos profissionais altamente qualificados sentem certo desconforto perante esta designação, porque ela não corresponde à imagem valorizada que têm do seu percurso.

A investigadora apoia-se nomeadamente nos trabalhos do sociólogo Abdelmalek Sayad, para quem a figura do imigrante é tanto uma construção política e social quanto uma realidade demográfica.

Assim, duas pessoas que podem viver experiências muito semelhantes, deixando o seu país, instalando-se noutro lugar, aprendem uma nova cultura, reconstroem a sua vida, não são percepcionadas da mesma forma segundo o seu estatuto social, nacionalidade ou profissão.

Profissionais que recusam o rótulo de “imigrante”

Os testemunhos recolhidos ilustram claramente esta tensão. Alguns participantes do inquérito recusam explicitamente ser qualificados como imigrantes. Um professor instalado nos Estados Unidos conta, por exemplo, que lhe explicaram que ele não podia ser considerado imigrante porque não tinha vindo “ganhar a vida”.

Outros utilizam termos alternativos: “expatriado”, “profissional internacional”, “cidadão do mundo”, “cidadão europeu”…

Uma neurocientista entrevistada afirma: “Defino-me como uma mulher do mundo, sem fronteiras”.

Para estas pessoas, a mobilidade está associada à abertura cultural, ao cosmopolitismo, ao sucesso profissional e à liberdade de circulação. Mas por detrás destas formulações esconde-se também uma vontade de distinção social.

O “expatriado”: uma categoria socialmente valorizada

A intervenção de Manuela Marujo mostrou que o termo “expatriado” funciona frequentemente como um marcador de prestígio.

Ao contrário da imagem tradicional do “imigrante”, o “expatriado” é percecionado como alguém que escolhe partir, dispõe de um capital económico importante, mantém um estatuto social elevado, beneficia de apoio institucional, podendo regressar ao seu país de origem a qualquer momento.

Vários participantes no inquérito descrevem condições de mobilidade muito protegidas: alojamento pago, escolas internacionais para os filhos, contratos vantajosos, deslocações frequentes entre vários países.

Uma executiva brasileira instalada no Canadá explica que o facto de ser apoiada por uma grande empresa internacional e de ter possibilidade de regressar, modificou profundamente a sua experiência no estrangeiro. Neste contexto, a mobilidade torna-se não apenas aceitável, mas valorizada com um sinal de sucesso pessoal e de competência internacional.

Uma distinção profundamente desigual

Para Manuela Marujo, esta diferença entre “imigrante” e “expatriado” revela sobretudo desigualdades sociais profundas. Para a pesquisadora, a possibilidade de evitar o rótulo de imigrante depende amplamente da classe social, do nível de escolaridade, da nacionalidade, da cor da pele, do capital cultural, do domínio das línguas ou ainda do passaporte detido.

Uma participante do inquérito sublinha, por exemplo, que nunca sofreu discriminação ligada à palavra “imigrante”, porque é europeia, diplomada e branca.

A investigadora insiste no facto de que nem todos os migrantes têm acesso às mesmas formas de reconhecimento social. Assim, certas modalidades são celebradas como modernas e cosmopolitas, enquanto outras continuam associadas à pobreza ou à dependência económica.

Por detrás do privilégio, o desenraizamento

Mas um dos aspetos mais marcantes da conferência reside na complexidade emocional dos testemunhos recolhidos. Mesmo quando a mobilidade é acompanhada de privilégios materiais, continua frequentemente a ser vivida como uma experiência de desenraizamento. As pessoas entrevistadas falam de solidão, de afastamento familiar, de identidade fragmentada, de fadiga cultural, da dificuldade em pertencer plenamente a um único país.

Um participante descreve a sua experiência com uma palavra particularmente forte: “deslocamento”. Explica sentir-se estrangeiro tanto no país de acolhimento como no seu país de origem.

Outros evocam a angústia de viver entre dois mundos, sem nunca se sentirem completamente “em casa”. Uma participante resume esta ambivalência: “Ter duas casas é um privilégio, mas também uma dor”.

Os custos invisíveis da mobilidade internacional

A conferência relembra igualmente as dimensões frequentemente invisíveis da expatriação ou da migração qualificada. Por detrás da imagem idealizada do cosmopolitismo escondem-se as ausências em acontecimentos familiares importantes, os lutos vividos à distância, as relações de amizade fragilizadas, a dificuldade em transmitir uma identidade cultural estável aos filhos ou ainda o sentimento de perder progressivamente os seus pontos de referência.

Vários testemunhos mostram que estas experiências se tornam particularmente dolorosas em momentos de crise: doença de um familiar, envelhecimento da família, morte ou separação.

Nestas situações, as diferenças simbólicas entre “imigrante” e “expatriado” tendem a desaparecer. Segundo Manuela Marujo, todos partilham então uma mesma experiência humana de separação e de incerteza.

Uma identidade em permanente reconstrução

O estudo de Manuela Marujo evidencia também a forma como a identidade evolui ao longo do tempo.

Algumas pessoas dizem já não saber exatamente a que país pertencem. Outras contam que, após décadas no estrangeiro, são percepcionadas como estrangeiras na sua própria cidade natal.

Um participante explica que passou do estatuto de “imigrante” para o de “cidadão de primeira geração”, sinal de uma identidade em transformação permanente. Para muitos, a mobilidade internacional cria identidades híbridas, múltiplas e por vezes contraditórias.

Repensar as palavras da migração

Na conclusão, Manuela Marujo insiste num ponto essencial: as categorias utilizadas para falar das migrações não são simples descrições, produzindo distinções sociais e contribuindo para definir: quem é considerado um ator legítimo da globalização,  quais são as mobilidades valorizadas e quais as populações que continuam associadas à precariedade.

Baseando-se, nomeadamente, nos trabalhos do geógrafo Tim Cresswell, Manuela Marujo recorda que a mobilidade nunca é apenas um deslocamento físico, é também um sistema de produção de sentido, de poder e de desigualdades.

A intervenção de Manuel Marujo convida assim a ultrapassar a oposição simplista entre “imigrantes” e “expatriados”, para reconhecer a diversidade das experiências migratórias contemporâneas e também as hierarquias invisíveis que continuam a estruturá-las.

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