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Cultura

 

“Confluences d’un pays à l’autre” é a biografia de Armindo de Oliveira, leiriense que chegou a França com 10 anos numa sexta-feira de maio de 1965. O pai, já emigrado, levou, anos depois, nesse tal dia de maio, a sua família para França, essa “terra prometida”. A mãe fez questão de sair de Portugal pois não queria que o seu filho mais velho, o irmão de Armindo, acabasse perdido no mato africano, a combater na guerra colonial.

O autor passou o resto da infância na região parisiense. Tempos difíceis – uma renda de 400 francos e um salário de 600 – mas que, todavia, não se vivesse então a Trintena Gloriosa, eram abençoados pela abundância de trabalho. Ele estudou – nos primeiros tempos tudo lhe parecia sobredimensionado – e, após uma juventude de adaptação, casa com Rosário e envereda por uma carreira na banca portuguesa, mantendo-se, dessa forma, sempre ligado à Comunidade portuguesa, saltando entre dois países, sendo simultaneamente francês e português, essa dualidade tão enriquecedora e tão incompreendida por quem não a possui.

Até aqui, poder-se-á pensar que este livro é uma simples biografia como tantas outras que já foram publicadas, nas quais imigrantes portugueses estabelecidos em França há quarenta ou cinquenta anos, chegados à reforma, decidem ocupar parte dos seus dias a preparar um relato sobre as décadas passadas entre duas línguas, duas culturas, a de origem, normalmente rural e resultado de uma sociedade oprimida pelo fascismo, e a outra, a de chegada, aberta, urbana, efervescente.

Não, este pequeno livro é outra coisa.

Publicado há pouco pela editora Les Trois Colonnes, “Confluences d’un pays à l’autre” é uma narrativa terna, recheada de pequenas pérolas, seja a bela escrita, sejam as pertinentes referências à cultura greco-latina ou a análise sociopolítica dos principais eventos que marcaram as Histórias francesa e portuguesa das últimas décadas, desde a Revolução do 25 de Abril, passando pela presidência de Mitterrand e culminando na Grande Recessão iniciada em 2008 e na intervenção da Troïka, tristes dias que arrastaram muitos portugueses para uma miséria já quase esquecida.

Armindo Oliveira percebe bem o que se passou: “eu trabalho num banco e vi o sismo do interior. Foi inquietante”.

O prólogo que abre o livro é tocante. Armindo, que toda a vida escreveu à mão, vê-se obrigado a trocar a caneta pelo teclado do computador e, qual Fidípides, prepara-se para a sua maratona literária que, devido ao recente falecimento da sua nora Anne-Hélène, é também uma provação emocional, uma “tragédia”, diz o autor, que tem o condão de “reconciliar atrocidade e otimismo”.

Um livro escrito durante a Pandemia – período durante o qual o autor ficou convicto de que “a justiça social é tão importante como a urgência sanitária” – que é, também, uma lição de História.

 

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