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Cultura

 

Em 1934 publicou-se “Os Charutos do Faraó”, a quarta história de “As Aventuras de Tintim”, o que marcará para sempre o início da presença portuguesa na epopeia que deleita a maioria das crianças da Europa ocidental há quase cem anos.

É essa indelével presença lusitana que a sempre atenta Éditions Chandeigne marca com a publicação de “Le senhor Oliveira da Figueira et les aventures de Hergé et Tim-Tim au Portugal” de Albert Algoud com ilustrações de Philippe Dumas.

É de Oliveira da Figueira, essa importantíssima (para os Portugueses) personagem secundária, que concentra todas as atenções deste belo livro publicado no mês passado.

Tintim, essa icónica personagem criada pelo belga Hergé (nascido em 1907 no seio de uma família da pequena-burguesia de Bruxelas) teve a sua estreia em 1930 e a preto e branco, com “Tintim no País dos Sovietes” à qual se seguiu, no ano seguinte, “Tintim no Congo”.

Este jovem e intrépido jornalista, loiro e com cara de rapazote é uma vítima – e isso é claro nas suas aventuras – da época em que “viveu”, tempos dominados por um eurocentrismo inquinado pelo racismo, tanto biológico como cultural, e pelo anticomunismo primário – “verdades” aceites por quase todos os Europeus nos anos 1930 – que antecederam o desastre nazi-fascista que arrastou os povos europeus para a beira do suicídio coletivo.

Dito isto, e lançado este alerta, quem nunca se deixou levar por aquele mundo de terras exóticas e aventuras mais ou menos estapafúrdias que atire a primeira pedra.

Essa estreia do persuasivo comerciante lisboeta dá-se pouco depois de Tintim, naufragado no Mar Vermelho, ter sido resgatado. É no fim dessa histórica página 13 que Tintim, um jovem com uma inteligência superior, se deixa levar pelo paleio do comerciante português, comprando-lhe um monte de bugigangas inúteis, tais como um regador, um papagaio engaiolado e um par de esquis, sempre debaixo do olhar incrédulo de um negro caricaturado ao gosto europeu dos anos 1930. Mesmo assim, Tintim acaba por desabafar com os seus botões: “Felizmente”, diz ele, “não me deixei ir na conversa dele. A tipos como este, acaba-se, quase sempre, por comprar uma data de coisas inúteis”.

Oliveira da Figueira aparece em mais dois álbuns de “As Aventuras de Tintim”: “Tintim no país do ouro negro” (1950) e “Carvão no porão” (1958), sendo também mencionado em “As joias da Castafiori” (1963).

Na verdade, a história de Tintim em Portugal é uma história de sucesso. Foi em português que, graças ao padre Abel Varzim, o herói criado por Hergé ultrapassou pela primeira vez as fronteiras da língua francesa, tendo sido Portugal o quarto país a publicar as aventuras de Tintim, logo em 1936, na revista “O Papagaio”, em cujas páginas as histórias aparecem pela primeira vez a cores. Porém, “As Aventuras de Tintim” em álbum, tal como as conhecemos hoje, só apareceram em Portugal… em 1988… 52 anos depois de “O Papagaio” ter sido pioneiro.

Ao longo desses primeiros anos, Tintim foi “aportuguesado” e transformado em repórter de “O Papagaio”. O Congo foi deslocalizado para Angola e Milou mudou de sexo, virando uma cadelinha chamada Rom-Rom. O próprio Oliveira da Figueira mudou de nacionalidade e tornou-se um espanhol fugido da Guerra Civil que entre 1936 e 1939 opôs a esquerda republicana aos fascistas nacionalistas, deixando a Espanha a ferro e fogo.

Este “Le senhor Oliveira da Figueira et les aventures de Hergé et Tim-Tim au Portugal” de Albert Algoud, enriquecido pelas belas ilustrações Philippe Dumas, é, sem dúvida, um belo livro a descobrir pelo Natal.

 

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