Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

A liturgia do próximo domingo (Domingo de Ramos!) propõe-nos o relato da Paixão de Cristo. Em toda a história da humanidade não encontramos outro episódio que tenha inspirado tantas obras de arte quanto este Evangelho, que nos convida a percorrer os passos que do cenáculo, passando pelo Monte das Oliveiras, pelo palácio do sumo-sacerdote e pelo pretório romano, levaram Jesus até ao Calvário e, finalmente, ao túmulo escavado na rocha.

É óbvio que, por motivo de espaço, não se pode falar de tudo, mas como não mencionar o drama de Pedro que, vencido pelo medo, nega conhecer Jesus? Ou não comentar a ira de Caifás, a cobardia de Pilatos, os remorsos de Judas Iscariotes, a profissão de fé do centurião romano…?

Este Evangelho não é “apenas” o relato das últimas horas de Jesus: é também a história de todos aqueles que presenciaram a Sua prisão, processo e morte. No fundo, é a nossa história! É o espelho onde nos reconhecemos nas várias personagens que estiveram junto a Cristo, desde o momento da última ceia até ao enterro do Seu corpo sem vida.

O protagonista da Paixão é um só: Jesus Cristo. Mas a Paixão é algo que todos testemunhamos; que todos nós vivemos. Diante do episódio desconcertante do Filho de Deus que morre na cruz, alguns ainda hoje exclamam: «Não conheço tal homem». Outros dizem: «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele». Mas poucos conseguem entender que a morte é o culminar da Sua vida; é a afirmação última, porém mais radical e mais verdadeira (porque escrita com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor total, o perdão sincero, o dom sem limites.

Para além de testemunharmos a Paixão de Cristo, neste novo contexto de epidemia e isolamento social, sentimos na nossa pele (e, provavelmente, pela primeira vez) as “paixões” e o sofrimento de meio mundo.

Agora que não podemos mover-nos livremente, começamos a compreender a ânsia e a tristeza de milhões de homens e mulheres privados do direito à mobilidade e confinados em campos de refugiados.

Neste momento, em que apenas podemos seguir a Santa Missa pela televisão, sentimos na própria pele a realidade que tantos doentes conhecem quotidianamente; uma realidade que, nalguns casos, dura anos a fio.

Nesta situação de epidemia, experimentamos o medo de que nos nossos hospitais não haja lugar para todos… Começamos a perceber o desespero de quem viu morrer filhos, pais e irmãos, porque no seu país falta a assistência sanitária básica e milhões de pessoas perdem a vida por infeções que poderiam ser curadas facilmente.

Neste Domingo de Ramos, somos todos testemunhas da Paixão de Cristo. Somos também convidados a uma comunhão mais profunda com aqueles que conhecem o sofrimento, não de forma passageira, mas como uma presença constante.

 

LusoJornal Artigos
X