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Recentemente nomeado na primeira seleção do Prix Femina Étranger, o “Carnet de Mémoires Coloniales” de Isabela Figueiredo – tradução de Myriam Benarroch e Nathalie Meyroune -, editado pela Chandeigne, entra pela porta grande nesta rentrée literária francesa, escassos dias após a sua publicação.

Este livro, lançado em Portugal em 2009, é um relato autobiográfico da autora (o seu pai tem um papel preponderante na obra) e conta, sem paninhos quentes, os horrores do colonialismo português em Moçambique durante a guerra colonial.

Isabela Figueiredo nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, pouco depois do começo da guerra e, aos 13 anos de idade, já depois do 25 de Abril, veio, sozinha, para Portugal. Durante a dúzia de anos que passou em Moçambique, viu, com os seus olhos de criança, a opressão colonial portuguesa e o racismo endémico que iam corroendo as estruturas da sociedade moçambicana, isto apesar da narrativa lusotropicalista que ainda impera na ideia que os portugueses fazem da sua própria História.

Em entrevista à Rádio Alfa e ao LusoJornal, no âmbito do programa “Livro da Semana”, Isabela Figueiredo diz que a forma delico-doce como a generalidade dos portugueses olha para o passado colonial do seu país tem que ver “com a forma como nós Portugueses nos vemos. No contexto da Europa, quando nos comparamos com os outros europeus, nós achamo-nos menos inflexíveis, mais suaves, mais meigos, que o nosso comportamento é menos radical do que, por exemplo, o comportamento do povo francês. Temos a ideia de que somos um povo calmo, pouco agressivo. É por isso que nós não conseguimos imaginar que a nossa ação colonial foi exatamente igual a todas as outras, exercendo o poder de cima para baixo”.

Esta visão da História portuguesa – que enfatiza os avanços geográficos e científicos, que colocaram, é verdade, Portugal na vanguarda dos países mais avançados da Europa, e ignora o seu lado sombrio, o que está relacionado com a opressão, a escravização e a violência exercida sobre milhões de africanos e ameríndios ao longo de 500 anos -, diz a escritora, mantém-se viva na mente das novas gerações nascidas já depois do fim do Império. “Na escola, infelizmente, a História de Portugal tem uma enfâse enorme nos Descobrimentos como feito glorioso e não existe um questionamento sobre o nosso papel enquanto colonizadores. O Estado não tem essa atitude crítica. E deveria tê-la. E, portanto, não há, da parte dos mais novos, uma atitude diferente. Há, sim, agora, em Portugal, um ativismo político, antirracista e anticolonialista, muito maior do que antes do “Caderno de memórias coloniais” ter sido editado. O panorama melhorou um pouco.” A autora relembra que, durante vários anos, este livro esteve acantonado nas bolhas académica e literária e que só há pouco tempo encontrou um público mais amplo.

Sobre a forma como, em 2009, este livro foi recebido em Portugal, Isabela Figueiredo refere que “foi um escândalo”, acrescentando que foi apelidada de “traidora do meu pai, traidora da pátria”, embora, salienta, “agora já não sou encarada dessa forma”.

Estamos, portanto, perante um livro de grande relevância que, pode, juntamente com muitos outros que vão aparecendo, servir de instrumento para que Portugal e os Portugueses possam olhar para o seu passado colonial com algum recuo e espírito crítico, não escrevesse a autora, já perto o fim da obra, “venham falar-me do colonialismo suavezinho dos portugueses… Venham contar-me a história da carochinha”.

 

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