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Cultura

 

 

Portugal é uma aldeia onde as elites políticas e económicas se tratam por tu e os “negócios” se fazem por entre jantaradas e charutos. Eis a premissa que o jornalista e escritor Miguel Szymansky escolheu para desenvolver em “Château de Cartes”, romance publicado em França na semana passada pela Agullo Éditions e traduzido do português por Daniel Matias.

Miguel Szymanski, algarvio nascido em 1966, estudou Economia, Direito e Literaturas Modernas, mas foi como jornalista que mais se destacou, tendo trabalhado para a Grande Reportagem, O Independente, o Expresso, o Diário de Notícias e revista GQ. É também comentador da RTP e correspondente em Portugal de alguns semanários alemães, como Der Freitag.

Este “Château de Cartes”, publicado em Portugal com o título “Ouro, Prata e Silva”, apresenta ao leitor um protagonista que, tal como o autor, foi jornalista na Alemanha: Marcelo Silva Consalinsky (uma curiosa mistura dos nomes dos dois mais recentes residentes do Palácio de Belém com a sonoridade do nome do próprio autor).

A sua chegada a Portugal começa com um atraso de seis horas – provocado por uma suposta ameaça terrorista num aeroporto alemão que, afinal, foi uma brincadeira (qual de nós é que ainda não viveu uma situação similar?) – mas tal não o desmotiva para o cargo que foi nomeado. Marcelo Silva Consalinsky é o Diretor de uma nova brigada anticrime em Lisboa.

E a capital portuguesa ergue-se, ao longo do romance, também como protagonista. Uma Lisboa pré-pandémica, luminosa e inundada de turistas, se bem que, e esta nova perspetiva poderá surpreender os leitores franceses, sombria e corrupta.

Marcelo, que vê o mundo com um certo regard berlinois (o mesmo olhar do autor?), tem como missão combater a corrupção que corrói a estrutura social portuguesa na qual os interesses da elite financeira ligada à banca e os interesses de políticos sulfurosos se unem em beneficio mútuo. O protagonista de “Château de Cartes” navega confortavelmente nesse gigantesco aquário, hermético e separado da realidade social, onde vive a elite lisboeta, essa enorme “família” que domina a nação. Ele frequenta os mesmos restaurantes e os mesmos espaços, encontrando inevitavelmente os políticos corrompidos e os homens de negócios corruptores. E é o desaparecimento de um deles, António Carmona, um milionário que encabeça um grande banco privado, que espoleta a ação.

As investigações de Marcelo Silva Consalinsky, este novo herói do Polar lusitano, levam o leitor a mergulhar num sistema que atingiu o apogeu nas vésperas da Grande Recessão, antes da tomada do poder pela Troika e respetivos colaboradores, e a reconhecer em muito do que o autor descreve os atavismos que impossibilitam a construção de um país mais justo e solidário. Uma união sagrada entre banqueiros e políticos corruptos que Miguel Szymansky, com mestria, põe a nu.

Um protagonista simpático e cativante e um enredo vivo e surpreendente. Uma bela leitura.

 

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