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O Reitor Nuno Aurélio do Santuário de Nossa Senhora de Fátima em Paris, está confinado em casa, como uma boa parte da sociedade francesa. Mas a igreja continua aberta. As missas fazem-se sem público, mas, para além da difusão habitual na rádio Alfa, começa também a ser feita pelas redes sociais.

Esta é também uma oportunidade para a Igreja “inventar” novas formas de comunicar. Este foi o tema da entrevista ao Reitor Nuno Aurélio.

 

Como tem estado a passar este período?

Confinado como muitos outros. Dado que a residência do Reitor – o chamado presbitério – está integrada no edifício da igreja, vivo no local de trabalho. Saí para ir votar e há uns dias para fazer umas compras. Nada mais.

 

O Santuário deve estar fechado, mas mesmo assim realiza algum ato religioso?

A igreja está aberta. As interdições do Governo não obrigam ao fecho das igrejas, o que também é um reconhecimento que o bem-estar da população passa também pela dimensão espiritual, ainda que não haja celebrações públicas. A missa é celebrada diariamente, em privado, sem a participação de povo. As outras celebrações estão interditas, salvo os funerais até 20 pessoas, no respeito dos “gestos-barreira”. Vou celebrar os dias pascais praticamente sozinho e em toda a Igreja será assim. Nunca tal aconteceu. É muito triste e duro celebrar numa igreja vazia.

 

Alguns padres rezam as missas em direto nas redes sociais. Também é o seu caso?

A missa dominical em português continua a ser transmitida às 11h00, como habitualmente, pela Rádio Alfa: 98.6 FM ou radioalfa.net (e por Facebook, sempre que possível e enquanto durar o confinamento: sanctuaire.nd.fatima.paris). Esta última solução tem-nos posto algumas dificuldades técnicas porque não estávamos preparados para o fazer. Ainda por cima, em França, o confinamento é geral, regulado e controlado, e para adquirir alguns equipamentos para melhorar o áudio da transmissão é mais difícil. Mas procuramos melhorar de domingo para domingo. São mantidas as intenções de missa que nos foram confiadas ou que nos venham a ser pedidas entretanto, pelo nosso site internet. E vamos tentar celebrar o Triduo Pascal através do Facebook. Nele, publicamos de manhã e ao meio dia um momento de oração e reflexão, dirigido a todos, a que chamamos «3 minutos com Deus» Não é muito tempo… De manhã, uma frase do Evangelho, uma pequena reflexão e uma oração, acompanhadas de uma imagem. E ao meio dia, o tradicional Angelus, com as orações sugeridas pelo nosso Arcebispo para este tempo de pandemia: a Santa Geneviève, padroeira de Paris, mas Santa para todos e intercessora por todos, e outra a São José, Esposo da Virgem Maria e protetor da Igreja universal. Outro serviço que procuramos manter é a formação dos noivos para o casamento: por videochamada “encontramo-nos” para vermos os textos de preparação, que normalmente faríamos presencialmente. Há uns mais interessados e participativos. Em geral, a relação com os fiéis faz-se também por contacto pessoal: uma chamada, um SMS a saber de uns dos outros, algo que nos faça também sorrir neste tempo de tristeza e preocupação. Houve até quem passasse a deixar-me comida: o que é um gesto muito bonito de carinho e preocupação.

 

Também a catequese deve estar suspensa. Tal como as escolas, os catequistas também dão as aulas à distância?

Os nossos catequistas e eu mantemos contacto com as famílias da catequese, por SMS ou Whatsapp. E procuramos fazer da missa transmitida ao domingo um ponto de encontro. Também lançamos agora um tempo de trabalho em família – A catequese em casa -, em cada semana, para que com a ajuda dos pais, muitos deles confinados também, possam realizar uma atividade, refletir um pouco, recordar o tema aprendido. Não é “telecatequese” nem ocupará muito tempo, pois não temos condições humanas e técnicas para o fazer, mas procura ser uma forma de marcar a presença na semana e de respirar Deus, juntamente com a oração familiar mais diária. A reclusão a que estamos sujeitos, obriga-nos a repensar o calendário das festas e celebrações da catequese. Veremos como…

 

Estas situações são oportunidades para “inventar” novas formas de relacionamento com a Igreja?

A relação com a Igreja tem de ser forçosamente viva e pessoal, até para a eficácia dos sacramentos. Mas esta situação é sobretudo uma oportunidade para repensarmos a nossa relação com todos! Permito-me responder com uma palavra do Papa pronunciada na sexta-feira, na Praça de São Pedro vazia, naquele momento extraordinário de oração: “Ao entardecer…” (Mc4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados “vamos perecer” (cf.4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos”. A missão da Igreja é reunir e congregar: “igreja” quer dizer “assembleia convocada”. Quem cultiva o individualismo e continua a dizer que para acreditar em Deus e em Jesus ou que para rezar não precisa dos outros (ou seja da Igreja), não percebeu o que ela é, e o que querem dizer as palavras da oração de Jesus: Pai nosso… Nosso! De todos, mas também de uns com os outros.

 

Está preocupado com esta situação de pandemia?

Estou preocupado, é claro, mas sem medo e confiante. Viver com medo é terrível! Ser prudente e cuidadoso é outra coisa. Quem conhece a história sabe que não é a primeira pandemia que vivemos. Ainda há cem anos, iniciada em 1918 nas trincheiras da Grande Guerra, a chamada “gripe espanhola” infetou 500 milhões de pessoas (um quarto da população mundial da época!) e matou entre 17 a 50 milhões pessoas (ou mesmo até 100 milhões). Nela morreram dois dos Pastorinhos videntes de Nossa Senhora, São Francisco e Santa Jacinta Marto. Esta gripe repetiu-se em 2009, a famosa gripe A (vírus H1N1) mas com muito menos vítimas mortais. E mesmo assim, mais de uma em cada cinco pessoas terão sido infetadas. Estamos ainda muito longe desses números de há cem anos! Acredito que vamos ultrapassar esta fase. O ser humano, pela graça de Deus, é imensamente resiliente, criativo e adaptativo. Evidentemente que haverá consequências trágicas no imediato: uma multidão de doentes (embora 85% sejam formas benignas da doença), numerosos mortos (sempre demasiados), um enorme sofrimento e uma grave crise económica e social que atingirá todas as nações, as famílias e até as comunidades cristãs.

 

Há alguma explicação da Igreja para este tipo de fenómenos em que morre tanta gente?

A explicação pertencerá aos cientistas, e dolorosamente recordemos que muitos mais morrem de paludismo nos países pobres. A Igreja, como já Israel no Antigo Testamento e Jesus no seu tempo diante de acontecimentos trágicos, fará uma leitura de sentido. Ou seja, o que podemos aprender com esta situação? É uma oportunidade de conversão integral do Homem. Já por aí se diz que, se Deus existisse e fosse bom, nunca teria permitido isto ou então que se desinteressa da nossa vida. Tomando o ditado popular, “Quer faça sol na eira, quer chova no nabal”, Deus é sempre o culpado! É triste pensar assim. Ou bem que queremos ser livres e autónomos ou bem que queremos que Deus nos ponha uma trela ao pescoço. Mas Ele criou-nos e ama-nos na liberdade e na responsabilidade e chama-nos à fidelidade. Na verdade, foi a sociedade que O abandonou. As pessoas deixaram de rezar na generalidade, não frequentam os sacramentos, proibiram o nome de Deus em público e outros sinais da Sua Presença (dos crucifixos aos presépios), esvaziaram as igrejas e depois concluem que foi Ele que nos abandonou!? É pena pensar isso… Na verdade, fomos nós que O abandonámos, que Lhe dissemos: “Afasta-te de nós, deixa-nos viver à nossa maneira”. E Ele, porque é absolutamente respeitador da nossa liberdade e infinitamente delicado, fez o que Lhe pedimos, não se impõe. Mas está sempre atento, cheio de misericórdia, mas não é bombeiro, que sirva apenas para as emergências, nem polícia quando nos dá jeito. Sejamos honestos! Deus é Pai e quer viver connosco, seus filhos, uma vida de família. Como dizia o Papa na sexta-feira: “Em que consiste esta falta de fé dos discípulos… Vejamos como O invocam: ‘Mestre, não Te importas que morramos?’ (Mc 4, 38 – episódio da barca na tempestade). Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: ‘Não te importas de mim’. É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados”. E pode hoje salvar-nos, sobretudo do desespero e da indiferença. Olhando a Cristo horrivelmente torturado morrer na cruz, como pode alguém dizer: ‘Deus nunca fez nada por mim, o Senhor não quer saber de nós’?

 

Quando tudo isto passar, o que espera do “novo mundo”?

Não sei bem… Em Covid, dizia-me um amigo, está o ‘Co’ que se usa também em convivialidade, comunidade, comunhão, corresponsabilidade, coparticipação… Tenho esperança. Muitos já começaram a profetizar (e não são crentes): o fim do capitalismo (para o substituir no imediato por qual sistema económico?!), a diminuição drástica dos voos (e os países que dependem muito do turismo, como o nosso?) ou enaltecendo o teletrabalho como alternativa possível ao trabalho presencial (na verdade, a experiência deste dias tem mostrado que as pessoas trabalham mais horas e até mais tarde… em casa), o aumento de divórcios, etc. Vamos com calma. Assim que acabar o confinamento, haverá uma sede de encontro e convivialidade, julgo eu. Talvez que descubramos o quanto precisamos uns dos outros, de Deus, que estamos interdependentes, muito mais do que pensávamos. Que caiam as máscaras com que escondíamos as nossas fragilidades, a ilusão da nossa autosuficiência e confiança absoluta no conforto, no poder da ciência e da tecnologia. Como ensinava Francisco, esta tempestade [esta situação que vivemos] “deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que alimenta, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de ‘empacotar’ e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos”. Não há mundo novo, sem corações novos! Achei particularmente fortes estas palavras do Santo Padre, que nos servem a todos, nesta época de Páscoa: “O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na Sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na Sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na Sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do Seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da Sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança”. “Bon courage” para todos: confiança! No santuário, rezamos por vós.

 

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