Entre a linguística, a investigação científica e o ensino do português no estrangeiro, o percurso do João Dinis Fernandes, Leitor do Instituto Camões em Saint-Étienne é marcado por uma constante: a vontade de aproximar culturas através da língua. Depois de vários anos ligados à universidade e à investigação em Portugal, foi em França que encontrou um novo desafio profissional e humano.
Tudo começou em Lisboa, há cerca de quinze anos, quando decidiu entrar na licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas. Na altura, sabia apenas uma coisa: queria estudar línguas. Ao longo do curso, descobriu várias áreas possíveis – literatura, políticas culturais, linguística – mas acabou por se apaixonar pela linguística graças aos professores que encontrou na universidade. “Os professores de linguística foram os que mais me cativaram”, explica João Dinis Fernandes ao LusoJornal. Além do português, teve contacto com francês, alemão, espanhol e inglês, construindo desde cedo um percurso académico marcado pela diversidade linguística.

Depois da licenciatura, afastou-se temporariamente da linguística para trabalhar na área da gestão de projetos, sempre ligados ao ensino superior e ao impacto social. Participou, por exemplo, num projeto internacional chamado Data Science for Social Good, desenvolvido em parceria entre universidades portuguesas e norte-americanas. Mais tarde, regressou à área das línguas e do ensino, trabalhando no Instituto Politécnico de Leiria. No entanto, a necessidade de aprofundar a formação levou-o novamente à Universidade de Lisboa, onde realizou um Mestrado em linguística. Foi também nessa altura que começou a trabalhar como bolseiro de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), desenvolvendo projetos científicos ligados à criação de conhecimento e à investigação académica.
Quando os projetos em Portugal começaram a aproximar-se do fim, surgiu uma oportunidade inesperada: uma vaga para Leitor do Instituto Camões em Saint-Étienne. “Recebi a proposta por e-mail e concorri”, recorda João Dinis Fernandes. Apesar de já falar algum francês e de ter vivido anteriormente na Bélgica francófona durante um programa Erasmus, admite que não foi a língua francesa que o levou a escolher França. “O que me fez concorrer foi a oportunidade profissional e a necessidade de pensar no futuro”. A proximidade com Portugal, o contexto europeu e a presença de outros portugueses na Universidade Jean Monnet ajudaram-no na decisão.
Hoje, o seu trabalho divide-se entre duas missões complementares. Por um lado, é professor na Universidade Jean Monnet, onde ensina português aos estudantes franceses. Por outro, enquanto leitor do Instituto Camões, organiza atividades culturais destinadas a promover a língua e a cultura portuguesas junto da comunidade local. Assim, ajuda a organizar conferências, encontros e palestras com escritores, jornalistas, economistas e especialistas ligados a Portugal. “O objetivo é divulgar a cultura portuguesa para além das aulas”, explica João Dinis Fernandes. Essas iniciativas são abertas não apenas aos alunos, mas também ao público da região de Saint-Étienne.
Apesar de ter vindo para ensinar português, considera que esta experiência também é uma oportunidade de aprendizagem pessoal e profissional. “Venho ensinar português, mas também venho aprender muito”, afirma João Dinis Fernandes. O contacto com métodos de trabalho diferentes e com outra realidade universitária é visto como uma forma de enriquecer o próprio percurso académico. A médio prazo, pretende continuar em França e cumprir os objetivos definidos no contrato com o Instituto Camões. A longo prazo, porém, imagina um regresso a Portugal. “Quero um dia voltar ao meu país com o sentimento de missão cumprida”.






