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Edições ‘Quatroze’ em Bordeaux lançaram livro sobre o republicano Jaime de Morais

LusoJornal / Carlos Pereira

As edições Quatorze, do Comité Aristides de Sousa Mendes, acabam de lançar o livro “Jaime de Morais – Apontamentos de uma vida”. Trata-se de uma obra sobre a vida de uma das figuras cimeiras do republicanismo português, completamente esquecido do grande público. As autoras são Heloísa Paulo, investigadora integrada do Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX da Universidade de Coimbra e Cristina Clímaco, Maître de conférences na Universidade de Paris 8 e investigadora do Laboratoire d’Études Romanes.

Para Cristina Clímaco, Jaime de Morais é uma “figura incontrolável” para quem estuda o exílio português em França e em Espanha entre as duas guerras. “Tem um peso enorme, é uma das figuras mais importantes deste período, é quase como se fosse o Macron dos nossos dias” diz a sorrir a investigadora, numa entrevista ao LusoJornal.

As duas investigadoras conhecem-se bem. “A Heloísa trabalhou muito a parte do Brasil, onde ela viveu, eu trabalhei mais a parte do exílio em França e partilhámos o período espanhol de Jaime de Morais”.

Heloísa Paulo e Cristina Clímaco candidataram-se ao programa “Les nom lus de la contestation” da Universidade Paris Lumières (UPL) mas não encontraram em Portugal nenhuma editora interessada em publicar este livro. “O projeto estava no fim e se não tivéssemos publicado agora, perderíamos o dinheiro do projeto” explica Cristina Clímaco. “O Comité Aristides de Sousa Mendes prontificou-se a publicar e num espaço de tempo muito curto estabeleceu a convenção com a Universidade de 8”. Numa entrevista “live” ao LusoJornal, a coautora destacou “o esforço muito grande” de Manuel Dias, o Diretor das edições “a quem agradeço profundamente, porque a projeção que tem sido dada a Jaime de Morais não corresponde minimamente ao que ele fez pela luta antifascista”.

 

Figura cimeira do republicanismo

Jaime de Morais é uma das figuras cimeiras do republicanismo português e da Oposição dos anos 30, a par de nomes como o grupo dos “Budas”, Jaime Cortesão, Moura Pinto ou César de Almeida. “É um grupo muito coeso, que funciona de um modo muito específico, tem conexões revolucionárias, mas é, antes de tudo, um grupo de amigos”.

Jaime de Morais era transmontano, de Chacim, Macedo de Cavaleiros, “era fidalgo, mas estudou em escolas de ambiente republicano e este republicanismo foi algo que foi crescendo com ele e com a sua geração” diz Cristina Clímaco. “Também é portista. O Porto sempre foi um grande núcleo do republicanismo”.

Frequentou o curso de medicina. “Quando se licenciou, entrou para a Marinha, fez toda uma carreira colonial, passou por Angola, Guiné, está ligado às campanhas de pacificação e depois foi nomeado Governador da Índia”. Só regressa à metrópole em 1925.

Cristina Clímaco explica que a Primeira República caiu com a Revolução de 28 de maio de 1926. “O 28 de maio de 1926 não foi feito para derrubar a República, mas sim para derrubar o Partido Republicano Português (PRP) que estava no Governo há muito muito tempo, mas não abriu espaço político a outras forças, nem à direita, nem à esquerda” diz a investigadora. “É um movimento contra o monopólio do PRP, em que todo o espetro político participa, desde os monárquicos até à esquerda republicana. Só que um dos blocos que participa no movimento acaba por controlar o movimento e pouco a pouco vai afastando os Republicanos, tanto os moderados como os da esquerda”.

É por esta razão que a maior parte dos movimentos militares que participaram na Revolução de 1927, já tinham participado na de 1926.

 

Uma vida no exílio

Jaime de Morais foi o cérebro da revolta de fevereiro de 1927 e com o fracasso da revolução seguiu para o exílio em Espanha, depois em França, até 1931. “Seguiu mais três anos para Espanha mas regressa a França devido ao ‘caso turquesa’ das armas cedidas pelos revolucionários portugueses ao movimento das Astúrias. As armas foram descobertas pela policia e Jaime de Morais e Jaime Cortesão tiveram de voltar a refugiarem-se novamente em França” explica Cristina Clímaco.

Com o início da Segunda Guerra Mundial e a invasão da França pelas tropas alemãs, Jaime de Morais regressou a Portugal, onde foi preso e o regime deixa-lhe a escolha: ou fica na prisão ou segue para o exílio. “É banido do território nacional e então refugia-se no Brasil e entra numa outra fase da oposição, muito menos ativa, que passa muito mais pela escrita e onde se mantém até à sua morte. Ironicamente morreu 4 meses antes do 25 de Abril, mais exatamente em dezembro de 1973. Não chegou a ver a vitória da causa pela qual lutou a vida inteira”.

A partir do Brasil, a luta era diferente. A história da Oposição dos anos 30 e seguintes tem duas vertentes: “a primeira é aquela que os republicanos chamam a revolução ou seja derrubar o regime através de um movimento militar, com ou sem a participação de civis, e a segunda atividade é aquilo que eles chamam a propaganda, a difusão, a divulgação das ideias republicanas antifascistas e essa atividade faz-se através da publicação de jornais, a divulgação de artigos, reuniões, associações, é uma resistência menos ativa, mas também temos que ver que Jaime de Morais já tem uma certa idade para continuar na revolução ativa”.

 

Espólio descoberto por acaso

O espólio de Jaime de Morais foi descoberto, “por mero acaso” pela historiadora Heloísa Paulo que conheceu, no Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, um familiar de Jaime de Morais. No seguimento desse encontro a Fundação Mário Soares passou a ser a depositária do espólio, que contém cartas, documentos e também manuscritos que o próprio Jaime de Morais escreveu.

O livro acaba por ser uma compilação de textos. “Nós não fomos as autoras do livro, nós coordenámos, organizámos os textos porque há várias versões dos mesmos episódios, em textos diferentes. Mas nós fizemos um trabalho de compilar o que o próprio Jaime de Morais escreveu” explica a investigadora da Universidade de Paris 8.

“Recordar, homenagear e relembrar a grande figura que foi Jaime de Morais, o engajamento, a luta, os combates destes resistentes portugueses, não só em Portugal, mas também em Espanha, em França, no Brasil e no mundo, é uma maneira de fazer viver e perpetuar a memória destes heróis portugueses empenhados na defesa da liberdade, da democracia, dos direitos do homem, da república e dos valores universais da humanidade” escreve no prefácio Manuel Dias Vaz, o vice-Presidente do Comité francês Aristides de Sousa Mendes e Diretor das Editions Quatorze.

O livro está editado em língua portuguesa, mas Cristina Clímaco diz que não se justifica a sua tradução para francês. “Isto diz mais respeito a uma história da Oposição em Portugal, do que propriamente uma história que possa ser lida em francês, sem a devida contextualização”.

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