
Foi pela citação “Mesmo ausentes, continuamos a existir em todos os momentos” de José Luís Peixoto em “Dentro do Segredo” que a professora Aida Batista iniciou a sua palestra “Narrativas e Representações: uma nova cartografia de afetos em contexto de ausências” durante a conferência apresentada no âmbito do colóquio do 14 e 15 de maio, no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa, sobre “Migrações Portuguesas – Conhecer, Investigar e Difundir”, uma iniciativa promovida pela socióloga Maria-Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, em parceria com a Academia Internacional da Cultura Portuguesa.
Maria Aida Costa Batista, professora, escritora e vice-Presidente da Associação Mulher Migrante (AMM), tem trabalhado, refletido sobre o impacto emocional da emigração nas famílias portuguesas, destacando as ausências, os reencontros e as ruturas afetivas vividas por muitas crianças separadas dos pais emigrantes.
Através das suas investigações e publicações (*), Maria Aida Costa Batista tem dado voz às experiências de mulheres e famílias em contexto migratório, sublinhando como os movimentos migratórios redesenham relações de pertença, memórias e afetos.
Da conferência de Maria Aida Batista retiramos, resumimos:
A partida como destino
As histórias da emigração portuguesa sempre foram feitas de partidas, silêncios e reencontros. Durante décadas, em quase todos os movimentos migratórios conhecidos e documentados, era o homem quem partia primeiro, procurando criar condições económicas que permitissem, mais tarde, a reunificação familiar. Embora as últimas décadas tenham assistido à feminização dos fluxos migratórios, essa transformação não anulou por completo os modelos anteriores.
O chamado “chefe de família” deixava para trás filhos pequenos, muitas vezes privados da sua presença durante anos. Algumas dessas crianças cresceram conhecendo o pai apenas através de fotografias penduradas na parede ou de cartas vindas de longe. Em certos casos, nem sequer houve despedida. O pai simplesmente desapareceu do quotidiano, deixando um vazio impossível de explicar.
A investigadora Alzira Serpa Silva lembra que o cancioneiro açoriano “aponta para a sobrevivência do amor na ausência, sustentado pela saudade e pela memória de um ente querido”. Mas a experiência concreta de muitas famílias mostra que a ausência nem sempre fortalece os laços afetivos; por vezes, cria ruturas profundas e difíceis de reparar.
Infâncias marcadas pela ausência
Ao longo dos anos, multiplicaram-se testemunhos de crianças confrontadas com rostos desconhecidos na sua própria cartografia emocional. Algumas cresceram sem memória do rosto dos pais; outras nem sequer conservaram a recordação da sua voz.
A socióloga Natália Ramos sublinha que é no espaço familiar que se constroem “laços de solidariedade e identidades”, desenvolvendo-se competências emocionais e sociais fundamentais. Quando esse espaço é interrompido pela distância, surgem inevitavelmente consequências afetivas.
O caso de Emanuel Melo, açor-americano radicado em Toronto, é paradigmático. O pai emigrou quando ele era ainda criança e regressou três anos depois para reunir a família. Contudo, Emanuel nunca conseguiu ultrapassar o sentimento de abandono. Já depois da morte do pai, escreveu uma carta comovente onde confessava: “Pai, agora que aqui já não estás, sinto a tua ausência; agora que já te foste embora por mais tempo do que eu julgava ser possível, sinto a tua falta. Enquanto eras vivo, nunca te compreendi. Escondi-me de ti e nunca mais me achaste depois do dia em que emigraste… Como podia eu, criança, compreender que tinhas de emigrar por motivos que só os adultos sabiam? A minha mãe disse-me, depois de eu acordar sem ti ao meu lado, que te foste embora, e o meu mundo de criança desfez-se em desilusão. Não me disseste adeus, apenas desapareceste”.
A frase resume o drama silencioso vivido por muitas crianças da diáspora portuguesa: a dificuldade em compreender uma ausência decidida pelos adultos, mas sofrida profundamente pelos filhos.
Também Ana Medeiros guardou durante anos uma relação distante com o pai emigrado no Canadá. Quando finalmente se reuniram, confessou que lhe custou reconhecê-lo como figura paterna. Só muitos anos mais tarde conseguiu criar “uma ligação especial com ele”.
Avós: o colo que ficou
Mas a ausência não se limitava à figura paterna. Muitas mães emigraram igualmente, deixando os filhos aos cuidados de avós, tias ou outros familiares. Adelaide Vilela recorda a partida da mãe para Angola como uma ferida que marcou a sua infância. Maria de Lurdes, entregue aos avós enquanto os pais emigraram para a Venezuela, cresceu alimentando a imagem dos pais através de fotografias e postais enviados de longe.
Em muitos destes percursos, os avós tornaram-se verdadeiros pilares afetivos. Foram eles quem embalaram, educaram e consolaram crianças privadas da presença dos pais. Em vários testemunhos, a figura da avó surge associada à ideia de porto seguro, de continuidade e pertença.
A escritora Isabel Maria Fidalgo Mateus descreve essa realidade de forma particularmente tocante em “A Terra do Chiculate”, onde escreve: “Antes dos doze meses, tinha perdido contra a França a mãe que me possuíra nas suas entranhas. Aos vinte e um anos, desaparecera, para junto de Deus, a que me embalara”.
Entre o útero e o colo, era muitas vezes o colo que vencia. Porque os afetos constroem-se na presença, no toque, na rotina dos dias.
Entre fotografias e memórias
Também a escritora Adelaide Freitas, autora de “Sorriso por Dentro da Noite”, retrata a experiência das famílias açorianas separadas pela emigração. Na obra, a protagonista cresce entregue à avó, conhecendo os pais apenas através de fotografias enviadas da América. Quando eles regressam, instala-se a dúvida e o estranhamento: “Eu nunca os senti, nunca os palpei. Não sei qual o cheiro da sua pele”.
A emigração não provoca apenas separações familiares. Ela rompe igualmente com lugares, objetos, paisagens e rotinas que fazem parte da identidade de cada pessoa. A casa deixada para trás continua a existir na memória através de pequenos detalhes: um quintal, o cheiro do alecrim, uma estante de livros, uma laranjeira.
Deixar a terra natal é abandonar também uma linguagem íntima feita de pertenças físicas e emocionais.
Estrangeiros em dois mundos
Talvez por isso tantos emigrantes confessem sentir-se estrangeiros em dois lugares ao mesmo tempo: no país que os acolheu e na terra onde nasceram.
Arlinda Frota descreve esse sentimento de forma clara: “Descobri o que é ser duplamente estrangeiro, na terra onde se vive, mas também na terra onde se nasceu. Aprendi a dizer que o melhor lugar do mundo para se viver é aquele onde se está em cada momento”.
A mesma sensação atravessa os testemunhos de emigrantes espalhados pelo Canadá, Brasil, Suíça, Argentina ou Macau. Depois de décadas fora, muitos regressam e descobrem que já não pertencem inteiramente a lado nenhum.
Andreia, que regressou a Portugal na adolescência por decisão da família, recorda o choque desse reencontro com o país de origem: “Emigrar é sentir-me imigrante em duas pátrias: aquela onde nasci e que nunca pensei que me sentisse tão estrangeira no meu próprio país”.
Entre partidas e regressos, cria-se uma espécie de existência suspensa, marcada pela ideia de provisoriedade. Vive-se muitas vezes entre dois mundos, dois tempos, duas culturas e duas formas de pertença.
A saudade como território
As despedidas tornam-se então parte integrante da identidade migrante. Há quem nunca aprenda verdadeiramente a despedir-se, porque cada separação reabre memórias de perdas anteriores.
No fundo, as experiências migratórias desenham uma nova cartografia de afetos: feita de ausências, reencontros breves, memórias fragmentadas e identidades partilhadas entre vários lugares.
Maria Aida Costa Batista, termina a sua conferência com o autor da epígrafe com quem a iniciou, Luís Peixoto: “O perigo não é a distância física, os milhares de quilómetros que muitas vezes nos separam, o perigo é deixarmos de nos entender”.
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(*) Parte das citações da conferência de que aqui realizamos artigo estão incluídas nos livros : “Menina e Moça me levaram” da autoria da conferencista, Ana Batista e “Mulheres Portuguesas no Quebeque – Caminhos de Liberdade”, também de Ana Batista e de Joaquina Pires.






