Fatoumata Diallo: “Quero estar com os melhores, quero ser uma das melhores”

Fatoumata Binta Diallo descobriu o atletismo em Olhão, depois de chegar a Portugal aos 12 anos. Mudou-se para França em 2019 e divide hoje a sua vida entre o território francês e os Estados Unidos, onde prepara os próximos desafios. Pelo caminho, chegou a pensar em desistir, entre o trabalho, os treinos e as dificuldades financeiras. Em agosto, conquistou a medalha de bronze nos 400 metros barreiras nos Campeonatos da Europa de Birmingham.

Em entrevista ao LusoJornal, a atleta portuguesa recorda a adaptação a uma nova língua, o papel de quem a ajudou a começar e a experiência nos Jogos Olímpicos de Paris. Fala também do regresso ao Clube Oriental de Pechão, depois da passagem pelo Benfica, e das condições necessárias para continuar no alto rendimento.

.

Nasceu na Guiné e chegou a Portugal aos 12 anos. Como recorda essa mudança?

No início, não queria sair da Guiné. Estava habituada às pessoas, à minha avó e à vida que tinha lá. Mas, por outro lado, queria juntar-me aos meus irmãos e à minha mãe. Acho que foi uma boa escolha ter vindo para Portugal, para a Europa. Depois de ultrapassar as dificuldades iniciais, gostei muito de estar em Portugal.

Como foi a adaptação à escola e à língua portuguesa?

Foi muito difícil, porque a cultura era completamente diferente e eu não falava nada de português. Entrei logo na escola e estava rodeada de miúdos que falavam uma língua que não percebia. Como já falava um pouco de francês, tive uma professora que me ajudava e com quem ia à biblioteca estudar. Também tive de aprender a ler nessa altura. Foi complicado, mas acabei por me adaptar.

Como surgiu o atletismo na sua vida? Houve alguém que a incentivou?

Foi o meu professor de Educação Física. Sempre gostei de correr. Na Guiné, a escola ficava muito longe de onde vivia e tínhamos de andar bastante para lá chegar. Gostava de fazer desporto, mas ainda não sabia o que era o atletismo. Também ouvia dizer que o desporto era para os rapazes e não para as raparigas. Em Portugal, o meu professor achou que eu tinha talento e inscreveu-me numa corrida de corta-mato escolar. Ganhei essa corrida e depois outra com várias escolas. Foi então que me apresentou ao Paulo Murta, treinador de atletismo. Perguntaram-me se queria experimentar e disse logo que sim. Foi assim que começou a minha vida de atleta.

O que a levou a escolher os 400 metros barreiras?

Gostava de transpor uma barreira, ver a seguinte e continuar. Era um desafio de que gostava muito. Quando era iniciada, experimentei várias provas, o que me ajudou a perceber em qual poderia evoluir e chegar mais longe. Nos 400 metros barreiras, é importante conseguir transpor as barreiras tanto com a perna direita como com a esquerda, e eu tinha essa facilidade. Pensei que, se trabalhasse bem, poderia conseguir bons resultados. Continuo a fazer outras provas, mas, internacionalmente, dedico-me aos 400 metros barreiras.

Que importância teve Paulo Murta na sua formação?

Foi o único treinador que tive em Portugal e ajudou-me muito. Ensinou-me imensas coisas, tanto no atletismo como na vida. Lembro-me de me comprar sapatilhas e de nos levar a comer, a mim e aos meus amigos. Numa altura em que não estava tão próxima dos meus pais, esteve muito presente. Há muitos detalhes e muitas experiências por trás dessa relação. É difícil resumir numa frase tudo o que fez por mim.

Em 2019, mudou-se para França. O que motivou essa decisão?

A minha família estava em França e eu já não tinha ninguém em Portugal. Era muito nova e havia responsabilidades que eram difíceis de assumir sozinha. Tinha medo de sair da minha zona de conforto. Tinha começado o atletismo em Portugal e perguntava-me quem iria encontrar em França para continuar a treinar. Mas a minha mãe estava cá e a minha família achava que eu era demasiado nova para viver sozinha. Acabei por vir.

Foi fácil dar continuidade ao atletismo em França?

Consegui encontrar contactos e pessoas que me indicaram treinadores na zona onde vivia. Mas não foi um percurso fácil. Alguns treinadores queriam que eu mudasse de prova e eu queria continuar nos 400 metros barreiras. Tive de mudar várias vezes até encontrar uma forma de trabalhar que funcionasse. Também foi difícil conciliar os treinos com o trabalho e a vida familiar. Houve uma altura em que trabalhava das quatro da manhã à uma da tarde e depois ia treinar, a mais de uma hora de casa. O meu corpo estava muito cansado.

Chegou a pensar em abandonar?

Sim, antes de 2023 pensei em desistir, porque sentia que nada estava a funcionar como queria. Trabalhava muito, tanto no emprego como nos treinos, e estava cansada. Os meus pais também não aceitavam o atletismo como aceitam hoje. Queriam que trabalhasse e ganhasse dinheiro. Mas tinha muitos objetivos e não conseguia abandoná-los sem tentar concretizá-los. Fiquei contente por não ter desistido, porque os bons resultados acabaram por chegar.

Em agosto, conquistou o bronze nos Campeonatos da Europa de Birmingham. O que representa esta medalha?

Representa muito, mesmo. Penso nos sacrifícios, na coragem, no trabalho e em nunca deixar de acreditar que tudo é possível. Para continuar a evoluir, decidi ir para os Estados Unidos. Fiquei longe da família, dos amigos e de tudo aquilo a que estava habituada. Foi a primeira vez que vivi sozinha numa casa, a pagar uma renda. É assustador, porque não sabemos se vai funcionar. Esta medalha representa também esse caminho.

Depois de representar o Benfica, regressou ao Clube Oriental de Pechão. O que significa voltar ao clube onde começou?

Representar o Benfica foi uma experiência muito boa, foi um prazer. Agora voltei ao clube onde comecei o atletismo e estou muito feliz. O Clube Oriental de Pechão representa muito para mim. Voltar a fazer parte desta família, que me apoiou desde o início, faz-me muito bem ao coração.

Representa também algum clube francês atualmente?

Neste momento, não. Representei o clube de Franconville, mas o meu agente está à procura de um clube para mim em França. Atualmente, represento apenas o meu clube em Portugal.

Como se organiza com o clube português, vivendo entre França e os Estados Unidos?

O clube compreendeu a minha situação e os meus objetivos. Estando nos Estados Unidos, não posso estar constantemente a ir a Portugal e a voltar. À medida que crescemos como atletas, os objetivos também vão mudando. Em Portugal, os Campeonatos de clubes são muito importantes, tanto no inverno como ao ar livre. Mas nem sempre consigo estar presente, porque a minha preparação começa mais tarde e há outras competições a ter em conta. Fico muito contente por ter um clube que aceita isso e me acompanha na concretização dos meus objetivos. Também é importante poder voltar ao Algarve, representar o clube, falar do meu percurso e estar com os mais novos para lhes dar motivação.

Que lugar ocupa Portugal na sua vida?

Portugal ocupa um lugar muito grande no meu coração. Foi onde comecei o atletismo e é um país que marcou a minha vida. Tenho uma boa relação com a Federação e com as pessoas que me acompanham. Quero continuar a representar Portugal. Não vejo razões para mudar.

Como viveu os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024?

Foi incrível. Senti-me em casa. Queria chegar o mais longe possível, mas fiquei muito contente com a experiência. O meu sonho era estar nos Jogos Olímpicos. Poder fazê-lo em Paris, que também é uma casa para mim, com a minha família e os meus amigos por perto, deixou-me de coração cheio. Adorei e mal posso esperar por voltar a viver uma experiência assim, ou ainda melhor.

O que mudou na sua preparação para continuar a melhorar os resultados?

A ida para os Estados Unidos e o trabalho com uma equipa de acompanhamento fizeram muita diferença. Tenho treinador, fisioterapeuta, nutricionista e acompanhamento médico. Também comecei a conhecer melhor o meu corpo e a prestar mais atenção à alimentação e à recuperação. Cuidar de mim mudou muita coisa. Agora, é continuar a trabalhar e tentar fazer ainda melhor do que no ano anterior.

Quais são as maiores dificuldades para se manter no alto rendimento?

A questão financeira é muito importante. Temos de pagar o treinador, a pista, as viagens, a renda e os tratamentos. Este ano investi muito do meu dinheiro na preparação nos Estados Unidos. Neste momento estou bem, mas não sinto que tenha estabilidade. Precisamos dos clubes, da Federação, das marcas e de vários apoios. Também ganhamos dinheiro nos meetings, mas há pagamentos que só chegam no final do ano. Uma coisa é receber um ou dois meses depois; outra é esperar até ao fim do ano. Tenho o apoio do Comité Olímpico de Portugal, do meu clube e da Adidas, além da ajuda da Federação em algumas despesas. Esses apoios fazem muita diferença. Ter mais ajuda permitir-me-ia trabalhar com maior tranquilidade.

Quais são os seus próximos objetivos?

Primeiro, estar saudável para poder treinar bem e trabalhar muito. Quero preparar os Campeonatos do Mundo e participar em meetings da Diamond League e de outros circuitos internacionais. Quero chegar aos 52 segundos nos 400 metros barreiras e ser finalista nos Campeonatos do Mundo. Quero estar com os melhores, quero ser uma das melhores. Para já, estou concentrada na próxima época. O objetivo é chegar o mais longe possível, bater novos recordes nacionais e conquistar medalhas.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca