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Filme de Mário Barroso nas salas francesas a partir de 30 de setembro

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Na quarta-feira, dia 30 de setembro, vai sair nas salas francesas o filme “L’Ordre Moral”, realizado por Mário Barroso, em que a atriz principal é Maria de Medeiros e com produção de Paulo Branco.

O filme é baseado na história verdadeira de Maria Adelaide Coelho da Cunha, a herdeira e proprietária, no início do século passado, do jornal Diário de Notícias. Uma mulher rica que se apaixonou pelo motorista, mas o marido e o filho internaram-na num hospital psiquiátrico.

“Acho que é uma história rara, pouco conhecida em Portugal. Uma história que eu conheço desde criança. Um dia, há 2 ou 3 anos, o Paulo Branco pediu-me para eu escrever qualquer coisa e a história que me veio à ideia foi essa” explica Mário Barroso numa entrevista ao LusoJornal. “É efetivamente a história de uma mulher riquíssima, proprietária de um jornal, que aos 50 anos – na altura era uma idade já considerável, hoje com 50 anos as mulheres ainda são umas crianças – ela decide abandonar tudo, a família, a fortuna, o meio social privilegiado no qual ela vivia, para fugir com o motorista que tinha 26 anos menos do que ela, e foi viver de uma maneira modesta”.

“Mas ela não estava a contar com uma reação do marido e do filho, que descobrem onde ela estava, vão buscá-la, e internam-na num hospital psiquiátrico. Eles conseguem interditá-la, tornarem-na irresponsável, retirar-lhe a gestão do seu próprio património, vendem o jornal que era dela, e ela tinha-se oposto a essa venda. É a história de uma mulher livre, que decida assumir a sua liberdade, que partiu abandonando tudo o que tinha e eu gostava de ver essa história no cinema”.

A história da paixão finalmente não interessava Mário Barroso. “No filme, a paixão é posta de lado” diz o realizador. “Eu não sei, ninguém sabe, se ela estava realmente extremamente apaixonada. Do nosso ponto de vista, meu e do argumentista Carlos Saboga, ela não estaria assim tão apaixonada. Estava farta do machismo reinante” e acrescenta que “é a história de uma mulher que luta pela sua liberdade”.

Quando o marido e o filho decidem internar Maria Adelaide num hospital psiquiátrico, baseiam-se em relatórios de Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid. Há quem diga que foram corrompidos para assinar o auto de internamento. Mas Mário Barroso discorda. “Não partilho esse ponto de vista e penso que é muito mais grave do que se houvesse corrupção” diz o realizador ao LusoJornal. “O diagnóstico que Egas Moniz, Júlio de Matos e Sobral Cid fazem, é um diagnóstico sincero” explica. “O filme mostra uma ordem moral que reinava em Portugal, mas não só em Portugal, em que a mulher era considerada como um ser inferior”. Por isso, Mário Barroso considera que “eles não inventaram um diagnóstico, eles fizeram o diagnóstico que era cientificamente justo para eles, o que torna muito mais grave a situação”.

O realizador de ‘L’Ordre Mora” explica também que tanto o marido, como o filho, sentiram-se humilhados com a fuga da mulher com um amante. “O marido, Alfredo da Cunha, era um escritor, um poeta, Diretor do Diário de Notícias e de repente a mulher vai-se embora com o motorista. Esta é uma humilhação que só é atenuada se ela for considerada louca, se as pessoas disserem que ela era irresponsável”.

O filme foi escrito pelo amigo e cúmplice Carlos Saboga. “O trabalho entre o realizador e o argumentista é um trabalho muito importante. Eu não tenho a mais pequena dificuldade, sobretudo porque no nosso caso temos uma grande cumplicidade”.

Mário Barroso fez mais de uma centena de filmes enquanto Diretor de fotografia, mas realizou muito poucos filme “porque sou um preguiçoso”.

Queria ser ator, certamente influenciado pela tia, Maria Barroso, mulher de Mário Soares. Mas veio para França em 1967, por razões políticas. Em 1973 entrou no IDHEC – Institut des Hautes études cinématographiques. “Ainda se pôs a hipótese de eu ir para Portugal, mas tinha tido a chance de entrar numa escola de prestígio, decidi ficar até ao fim” explica. “Depois, a direção de fotografia foi o que me permitiu sobreviver. Eu não poderia ganhar a minha vida sobretudo em Portugal. Nunca tinha previsto ser Diretor de fotografia, mas as coisas foram-se encadeando. Era gratificante socialmente e materialmente”.

Quando saiu do IDHEC ainda pediu para ser assiste num filme de Manoel de Oliveira, mas “não calhou”. Mais tarde, em 1980, o realizador português chamou-o para ser ator no filme “Francisca”. “A partir daí, fiz praticamente todos os filmes de Manoel de Oliveira enquanto Diretor de fotografia. Não fiz o ‘Non ou a vã glória de mandar’ porque demorava muito tempo e eu senti que ia ficar muito tempo afastado de França”.

Só para o “Mestre” português, filmou “Mon cas”, “Canibais”, “O dia do desespero”, “Val Abraão”, “A Caixa” e “O Convento). Mas trabalhou também com José Fonseca e Costa em “Kilas, o Mau da Fita”, com Antonio Pedro Vasconcelos em “Aqui D’El Rei!”, com João César Monteiro em “A Comédia de Deus”, “Le Bassin de J.W.”, “Les Noces de Dieu”, “Blanche Neige” e “Vai e Vem” e com Carlos Saboga em “Photo” e “A une heure incertaine”. Mas a maior parte dos filmes que fez foi com realizadores franceses.

Em “L’Ordre Moral”, Mário Barroso é realizador e Diretor de fotografia. “Ser Diretor de fotografia de si próprio é extremamente fácil. Difícil é ser Diretor de fotografia dos outros” diz a sorrir numa entrevista “live” ao LusoJornal. Aliás já foi assim para os filmes que realizou: “O Milagre segundo Salomé” (2004), “Um Amor de Perdição (2008) e em “Mário Soares: Memórias do Portugal futuro”, um documentário que fez para a RTP.

Maria de Medeiros foi “a escolha natural” e confessa que “a Maria de Medeiros foi a atriz que, ainda antes do argumento estar terminado e talvez mesmo antes do argumento ter começado, o Carlos Saboga e eu pensamos nela. O resto do casting é feito de uma maneira muito particular, essencialmente a partir de amigos”. Refira-se Marcello Urgeghe, João Pedro Mamede, João Arrais, Albano Jerónimo, Júlia Palha, Dinarte Branco, Ana Bustorff e a participação especial de Isabel Ruth, Rui Morisson e Teresa Madruga.

Na entrevista “live” de Mário Barroso ao LusoJornal, que pode ver no fim deste artigo, o realizador deixa-nos o desejo de realizar um filme sobre Carolina Love, uma militante comunista portuguesa que se apaixona por um agente da Pide. Uma história que Mário Soares lhe contou quando ele ainda estudava cinema e que um dia gostava de realizar.

Para já, espera que os Portugueses de França possam ir conhecer um pouco mais da história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, com “L’Ordre Moral”. A história é interessante e o casting, o guarda roupa e as imagens são excecionais.

 

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