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E chegamos ao limiar de um novo mês e de uma nova/requentada e agora também estranha realidade. Novas regras de comportamentos controlados (mais controlados, menos controlados, controlados às vezes, outras não, controlados para uns, para outros nem tanto….).

Chegamos a um mês que habitualmente importa mais pela quantidade de bens que consumimos do que pela quantidade de Bem que durante estes dias poderíamos ter consumado. Tentemos, ao menos, que o nosso consumo ajude a economia em crise e as pessoas que dependem dos bens que adquirirmos. Aqui falamos essencialmente do consumo de bens culturais.

Compremos livros! Continuamos por isso, aqui, as nossas leituras mantendo referência à literatura portuguesa em França e ainda à poesia e ainda a livros que podem arriscar passar despercebidos.

Falo-vos de um livro editado em Portugal pela Paulinas Editora (cujo prefácio, apenas, da autoria de Miguel Real, aparece traduzido para francês). O seu autor, é José Luís Monteiro, sacerdote dominicano, Diretor da importante Bibliothèque du Sauchoir (biblioteca provincial e patrimonial da Província Dominicana de França), em Paris, instituição que, só por si, mereceria referência e reportagem.

“Que quase nada se sabe” é o significativo título desta vasta recolha de poemas. É uma poesia que não se afasta dos temas que enuncia; que se expande (em imagens e digressões) em redor desses temas, mas não se distancia nunca do objeto do seu interesse. É uma poesia que se interioriza e nos aproxima das coisas, que as segura através das palavras e nos assegura da realidade das coisas. Mas é também uma poesia que nunca deixa de duvidar das suas próprias capacidades para ligar o poeta, sujeito que pensa (que olha, que toca, que imagina, que sente, que deseja) e o tema que escolhe ou que surge diante de si como uma evidência ou que se esconde, fugindo aos meios que a palavra lhe fornece ao para o encarar, compreender e fixar.

O poeta, olhando o mundo e as suas criaturas imediatas (imanentes), as naturais e as humanas, olha para dentro de si mesmo procurando unir essas duas realidades que o ultrapassam (que o transcendem) a uma transcendência maior (explicação última de todas interrogações) que é a transcendência de Deus.

Miguel Real fala, no esclarecido prefácio da obra, da necessidade que há, em José Luís Monteiro, de fusão entre o horizonte limitado do conhecimento e a abertura (ilimitada) aos sinais do sagrado. De facto, o poeta encontra e fala do sagrado a partir do real e da materialidade da vida e dos corpos – porque não há outras palavras, nem outras imagens para exprimir o amor do divino e ao divino senão a realidade das palavras e das imagens que temos para falar do amor profano.

Esta poesia, de um lirismo intenso e forte sensualidade, sendo sempre controlada pelos métodos da introspeção, exprime um não menos explícito desejo de encontrar caminhos para uma salvação individual e coletiva, atualizando a poesia mística da poesia de São João da Cruz ou de Santa Teresa de Ávila ou das angústias filosóficas de Maria Zambrano, nossa quase contemporânea. Miguel Real chama-lhe poesia de mistério, “reveladora de um não sei Quê (Quem?) que se manifesta escondendo-se”.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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