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O programa de televisão “La France a un incroyable talent” do canal M6 deu a conhecer o trabalho do duo Claire & Antho, numa mistura de mimo, dança, poesia e muita técnica.

Por detrás do duo está Claire Théault e Antony Figueiredo. Anthony é filho de pai português e de mãe francesa, da Bretagne, mas foi a mãe que lhe transmitiu a “saudade” por Portugal.

Anthony Figueiredo nasceu em Paris mas os pais separaram-se quando ele tinha apenas dois anos e meio. E com 10 ou 11 anos, uma pequena televisão no quarto “que apenas apanhava o canal 5, a preto e branco” influenciou aquilo que seria mais tarde a vocação do jovem franco-português. “O canal 5 passava, uma vez por semana, os filmes de Charlie Chaplin e penso que isso condicionou efetivamente a minha vocação”.

Com 15 anos seguiu para a Lozère onde a mãe abriu um albergue. Foi ali que passou a adolescência. “Fala-se muitas vezes de crianças em dificuldade nos subúrbios das grandes cidades, mas no meio rural também é muito difícil, não há muita gente, não há transportes coletivos” diz numa entrevista ao LusoJornal conduzida por Isabel Ribeiro. “Estamos muitas vezes sozinhos e quando estamos sozinhos… a nossa imaginação desenvolve”.

Ainda passou por Montpellier onde fez estudos de desporto e regressou a Paris com 24 anos. “Vim sem pressão” conta Anthony Figueiredo. Trazia na bagagem uma formação desportiva e sabia que não queria focalizar-se numa só área artística, quem sabe se já influenciado pelo génio Charlie Chaplin. “Não fiz conservatório, não queria fazer uma escola de mimo, de canto ou de teatro… queria inspirar-me de tudo isso”.

 

Indiaye Zami e Claire Théault

Quando trabalhou na Disney, em Marne-la-Vallée, encontrou Indiaye Zami, o parceiro que lhe faltava para subir aos palcos. Entenderam-se bem, “ele trabalha sobretudo a mímica facial, a expressão da cara, e eu o lado mais sóbrio, mais sarcástico também. Somos muito complementares” diz na entrevista-vídeo a Isabel Ribeiro.

O duo Vice-Versa começou a trabalhar e no fim de 2019 levou ao palco o espetáculo “Imagine”. Depois chegou a pandemia… “parámos de representar quando o espetáculo estava em plena ascensão”, queixa-se. Adeus Festival de Avignon, adeus Festival de Edimburgo… Agora há que esperar que esta “fase negra” pare e que volte a “vida normal”.

“Estamos a escrever um próximo espetáculo, tranquilamente” confessa Anthony Figueiredo.

Foi neste contexto de “espera” que também nasceu um novo duo: Claire & Antho. O casal já tinha feito dois vídeos, com uma perspetiva mais poética, mas durante o confinamento “não tínhamos trabalho, estávamos no salão e criámos um primeiro vídeo em perspetiva. Quando o colocámos nas redes sociais, teve logo um grande sucesso e foi a M6 que veio ter connosco e nos propôs de fazer isto na televisão”.

O desafio foi grande, aquilo que funcionava num salão, podia não funcionar num palco para televisão. “Foram necessárias várias semanas de trabalho com as equipas da M6 para conseguirmos aquele resultado” confessa Anthony Figueiredo ao LusoJornal.

Este era precisamente o universo que Anthony Figueiredo queria desenvolver. Claire traz-lhe um universo mais poético, mais doce. “Quando fazemos humor, é necessário ser eficaz, é necessário ser sempre engraçado, que haja constantemente piadas. Há coisas que eu queria fazer, um pouco mais poéticas, que acabei por conseguir fazer agora com a Claire”.

 

Saudades de Portugal

Portugal nunca desapareceu do universo de Anthony Figueiredo, apesar de só voltar a ver o pai quando tinha 30 anos, e este faleceu um ano depois. Agora, vê regularmente as duas irmãs que tem, filhas do pai.

“A minha mãe tinha saudades do meu pai e dos momentos que passou com ele” conta Anthony Figueiredo ao LusoJornal. “E ela desenvolveu um amor incondicional por Portugal e transmitiu-me isso. É curioso, mas não foi o meu pai português que me transmitiu esse amor por Portugal, mas sim a minha mãe que estava apaixonada pelo meu pai, que era português”!

Ainda hoje, Anthony Figueiredo vai uma ou duas vezes por ano a Portugal. Recorda as viagens com a mãe por Lisboa, Peniche, Óbidos, Nazaré,… Recorda as camisolas com motivos inspirados nos pescadores portugueses e as meias da Nazaré que mãe comprava. “Na altura, eu achava aquilo muito feio”.

Diz que não fala bem português, “mas quando vou a Lisboa, alugo um carro, vou passear até Sintra, não sei porquê, sinto-me bem” diz ao LusoJornal. “Não me sinto verdadeiramente um filho de imigrante, mesmo se o meu pai era imigrante, mas a minha história de vida fez com que isso não fosse um problema para mim. Mas esta saudade por Portugal, esta nostalgia, não a consigo explicar”.

Quem sabe se este assunto, esta dupla identidade cultural, não será, um dia, transposto para um espetáculo? Quem sabe?

 

Veja a entrevista AQUI.

 

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