“Le Brésil sans Bolsonaro”, de Charles Vanhecke, um manifesto contra as trevas

Cultura

 

Poucos francófonos conhecerão tão bem o Brasil e a sua história mais recente como Charles Vanhecke, autor de “Le Brésil sans Bolsonaro”, ensaio lançado na semana passada pela l’Harmattan.

Correspondente do jornal “Le Monde” durante os anos de chumbo da ditadura militar de extrema-direita (1964/85), Vanhecke assistiu, ao longo dos últimos 50 anos, às transformações que abalaram o enorme “continente” brasileiro. Foram avanços e recuos tão radicais que, desde então, construíram um Brasil praticamente irreconhecível. Entre as mutações sociais criadas pelo progressismo social dos governos Lula/Rousseff que contrastam com o regresso a uma política identitária e de liberalização do porte de arma e da violência promovidas pelo governo Bolsonaro, passando pela conquista (e destruição) das terras virgens rasgadas por milhares de quilómetros de novas estradas que facilitaram uma desflorestação colocada ao serviço do agronegócio, e pelas politicas oscilantes que tanto protegeram as populações indígenas e outras minorias durante a década lulista como a discriminaram e perseguiram ao longo do curto (mas doloroso) calvário bolsonarista.

É este Brasil de múltiplas facetas que Charles Vanhecke revela ao leitor francês, enfatizando, tal como título da obra deixa bem claro, os quatro anos de presidência (2019/2023) do anterior Presidente populista de extrema direita, que, na opinião do autor, não passa de “um machista e racista assumido”.

Charles Vanhecke não pretendeu escrever um livro imparcial (será possível mantermo-nos imparciais perante um discurso que fomenta o ódio racial, a misoginia e o ecocídio?), bem pelo contrário. Esta obra é um manifesto que se ataca ao “legado” bolsonarista e denuncia uma atitude “virilista, ultranacionalista, ultraliberal” refém das igrejas evangélicas, uma invenção “reacionária forjada nos Estados Unidos”.

Vanhenke explica que Bolsonaro nunca deixou de demonstrar desprezo pelos mais pobres ou de exacerbar as querelas sociais e raciais, interrompendo, devido à brutalidade das políticas económicas levadas a cabo, os esforços de milhões de brasileiros para escapar à pobreza. Um presidente que cresceu inesperadamente, catapultado pelas mais sórdidas polémicas onde se viu envolvido ao longo de 30 anos de carreirismo parlamentar e ajudado por uma elite que vê com maus olhos, considerando perigoso para o seu poder, que os pobres se emancipem graças a uma política de maior justiça social.

O autor conduz o leitor para a frente da batalha amazónica onde ecologistas combatem a elite BBB (boi, bíblia e bala) e a sua exploração predatória, e onde encontrará as populações indígenas que lutam pela sobrevivência e os pequenos fazendeiros em conflito com as grandes empresas pela posse da terra, não deixando de relatar a devoção de padres e missionários católicos (religião hoje ultrapassada pela pressão evangélica) que, presentes nas favelas e no interior do sertão, tentam ajudar quem podem. Ele explica igualmente como os afrodescendentes, que constituem metade da população e sempre estiveram na base da pirâmide social, sujeitos ao racismo estrutural que corrói a sociedade, reivindicam hoje o lugar que lhes é devido.

Um retrato de meia década de retrocesso que, em alguns momentos, roçou a barbárie, sempre na esperança de que o Brasil encontre, enfim, o destino que o grande escritor austríaco, Stefan Zweig, lhe vaticinou: “Brasil, país do futuro”.

 

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