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Leonardo Tonus, o escritor e professor universitário que organiza todos os anos o festival “Printemps Littéraire Brésilien”, explicou ao LusoJornal que no próximo ano, o festival pode dar destaque à “literatura pandémica”.

Se não fosse precisamente a pandemia de Covid-19, o Printemps Littéraire Brésilien teria realizado este ano a sua 7ª edição, juntando sete dezenas de romancistas, poetas, ensaístas, professores, que apresentam livros, participam em aulas de literatura, nas universidades, claro, mas também nas bibliotecas, em algumas livrarias e mesmo em liceus. “Este festival diferencia-se de outros eventos culturais literários porque tem um objetivo pedagógico. A ideia nasceu de trazer escritores do espaço lusófono contemporâneo para se encontrarem com os meus estudantes, uma vez que o estudo da literatura contemporânea há 10 anos atrás ainda não tinha o espaço que ocupa hoje” explica Leonardo Tonus numa “entrevista Live” conduzida por Dominique Stoenesco para o LusoJornal. “Eu queria que os estudantes tivessem uma implicação direta na organização do festival, não só como público passivo, mas também organizando as mesas, fazendo parte das moderações, organizando o próprio evento, que tivessem uma participação ativa”.

No início, o Printemps Littéraire Brésilien limitava-se aos muros da Sorbonne ou de alguns outros estabelecimentos de ensino universitário. “Desde 2017, eu decidi dar esse salto para o exterior, internacionalizar o evento, primeiro nos países limítrofes, onde há uma comunidade lusófona importante – como por exemplo Portugal, Bélgica e Luxemburgo – e há 2 anos demos um outro salto transatlântico, participando em diversas universidades norte-americanas, nos Estados Unidos e no Canadá”.

Na 7ª edição de 2020, que acabou por não ter tido lugar, estavam previstas as participações de cerca de 70 convidados, e muitas instituições parceiras, entre as quais está, evidentemente, o LusoJornal. “A outra particularidade, que infelizmente não pudemos realizar este ano, é que pela primeira vez nós estaríamos não apenas na Europa e na América do Norte, mas também na África. Estávamos a prever realizar um evento no Senegal. É importante destacar o trabalho que os colegas do Senegal têm feito em favor da literatura e da língua portuguesa, uma vez que o país é francófono mas onde o português é a língua mais lecionada nas universidades” diz, entusiasmado, Leonardo Tonus.

O festival tem tivo uma evolução natural durante os anos, tornando-se um ponto de encontro entre escritores da nova geração e aborda temas que a nova literatura também aborda, tornando-se numa forma de “resistência”.

“Inicialmente o festival limitava-se à difusão da literatura e ao aspeto pedagógico” confirma Leonardo Tonus. “Mas por conta da situação mundial e também da situação política e económica do Brasil, surgiu essa necessidade de uma discussão à volta de outras temáticas entre as quais, claro, a questão das minorias, que me parece essencial que se discuta, o racismo, a questão da mulher e como a literatura pode ou não dar conta dessas situações. E claro, a própria situação política do Brasil, com as derivas totalitaristas, o que explica que no ano passado nós tivemos a presença do Deputado João Luís, alguém que está numa situação trágica de exílio, mas que é também escritor e contista”.

Leonardo Tonus lamenta que a tradução de obras brasileiras em francês esteja a decrescer. “Já representava cerca de 1% das traduções publicadas em França, o que não ia além de 3 ou 4 obras publicadas anualmente. Mas com a situação política e económica, com o fim dos subsídios para a tradução, eu penso que vamos passar por um período de recesso no que diz respeito à divulgação dessa literatura traduzida” diz ao LusoJornal, na entrevista conduzida por Dominique Stoenesco.

No próximo ano, “se houver festival”, o Printemps Littéraire Brésilien poderá abordar a literatura pós-pandemia. “Está a ser um objeto de estudo para mim. Há uma literatura pandémica. Há uma literatura que já se produz sobre essa questão, e eu tenho andado a procurar muito o que significa viver a cidadania, viver enquanto professor, enquanto cidadão, enquanto escritor, neste período. Se pudermos ter uma Primavera no próximo ano, sim, eu penso que esse pode ser um tema norteador”.

Na entrevista foi também abordado o facto de Leonardo Tonus programar mais escritores do Rio de Janeiro e de São Paulo do que do resto do Brasil. “Se analisarmos os autores publicados, os que são mais distribuídos pelo Brasil, é claro que a concentração do Rio de Janeiro e de Porto Alegre é bem maior. Na medida do possível eu tenho tentado reequilibrar e tenho trazido autores fora do eixo Rio-São Paulo”.

Leonardo Tonus tem um vasto currículo. É professor de literatura brasileira na Sorbonne, tem desenvolvido o tema das migrações. Foi condecorado pelo Ministério da Educação e também teve a Medalha de Chevalier des Arts et des Lettres do Ministério francês da cultura. Foi curador do Salão do livro de 2005, ano do Brasil em França, e também foi curador, no Centro Georges Pompidou, de um trabalho sobre Oswaldo de Andrade. Para além de ter criado o Printemps Littéraire Brésilien, escreveu também vários livros, como por exemplo “Agora vai ser assim”, e no ano passado “Inquietações em tempos de insónia”.

 

 

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