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A Oxalá, editora sediada na Alemanha e vocacionada para os autores da Diáspora, mantém a sua aposta nos contos com uma coletânea inteiramente feminina. A coletânea “Correr Mundo”, lançada no passado Dia Internacional dos Direitos da Mulher e prefaciada por Ana Cristina Silva, sucede a “Contos da Emigração: Homens que sofrem de sonhos”, coletânea de sucesso lançada há dois anos e que chegou à segunda edição.

O editor Mário Santos apostou então em dez autoras residentes fora de Portugal de maneira a que as histórias contadas garantam a autenticidade de quem efetivamente sente na pele a condição de emigrante. Uma visão feminina, portuguesa, mas também transcontinental, pois as autoras vivem em países tão distintos como o Canadá e o Luxemburgo. Em Toronto vivem Irene Marques e Maria João Dodman. Na Alemanha residem Paula de Lemos (Trier), Luísa Costa Hölzl (Munique), Helena Araújo (Berlim) e Luz Marina Kratt (Bodensee). Gabriela Ruivo Trindade vive em Londres. São Gonçalves escreve no Luxemburgo. Na região parisiense vivem Altina Ribeiro e Luísa Semedo.

Estas duas representantes da emigração portuguesa em França, com duas histórias pessoais muito distintas, falaram ao LusoJornal da importância desta abordagem literária totalmente feminina.

“Quando fui convidada para fazer parte de uma coletânea de textos à volta da emigração, ignorava que seria 100% feminina”, conta-nos Altina Ribeiro, que continua dizendo “para mim é uma linda surpresa partilhar a obra com nove mulheres e considero que foi uma iniciativa original. Como gosto imenso de desafios, sobretudo literários, mais ainda tratando a emigração, tema que já abordei nos meus livros, não pensei duas vezes e aceitei de imediato. Estou impaciente para descobrir a pena das outras escritoras. Espero que esta iniciativa editorial contribua para dar voz à Diáspora, muitas vezes esquecida, senão mesmo ignorada, na literatura e em outras formas de expressão artística”.

Por seu lado, Luísa Semedo julga “importante as mulheres poderem através da literatura exprimir as suas próprias vivências”. Considerando a literatura “um mundo predominantemente masculino”, Luísa Semedo diz “ser essencial que tenhamos acesso à visão das mulheres sobre todas as temáticas, inclusive sobre a experiência particular da emigração”, achando a autora nascida em Lisboa que as escritoras que participam nesta coletânea “possam servir de modelo para impulsionar outras mulheres a investirem na criação literária”.

Altina Ribeiro e Luísa Semedo apresentam ao leitor dois contos bastante distintos. Altina Ribeiro opta, num tom autobiográfico, por narrar a dureza e o choque de realidades de quem trocou a região pobre de Trás-os-Montes por Paris em fins dos anos 60, referindo que deixou “uma aldeia sem eletricidade e encontrei-me num Paris iluminado por toda a parte”. Altina Ribeiro desenvolve: “entre uma aldeia perdida de Portugal e a capital francesa, a diferença era espetacular, como se tivéssemos realizado uma viagem através do tempo para aterrar no futuro. Em poucos dias, fomos propulsados meio século para a frente”.

A autora refere que em primeiro lugar sentiu “uma grande excitação em descobrir Paris e, além de tudo, muita alegria de viver de novo com o meu pai que nos tinha deixado na aldeia, à minha mãe, à minha irmã e a mim durante seis anos, enquanto ele tentava oferecer-nos uma vida melhor”. “Em segundo lugar”, continua, “senti a preocupação de viver num país estrangeiro, sem conhecer a língua, nem as pessoas. Além disso, sentia já a falta dos amigos e familiares deixados atrás de nós. Mas, apesar de tudo, queria desfrutar dos primeiros momentos com a família enfim reunida”.

Luísa Semedo neste seu conto narra-nos uma história contemporânea da emigração portuguesa em França. De salientar que no seu romance de estreia, “O Canto da Moreia”, publicado em Portugal há uns meses, a autora também nos conta uma outra história de emigração: a da diáspora cabo-verdiana em Lisboa. “Há sempre pontos em comum em todo o movimento migratório”, explica a autora, “como as questões de desenraizamento, de esperança na nova vida, de integração, de isolamento, de culpa em relação aos que ficaram, a saudade”.

Porém a autora refere que não há histórias iguais e compara a emigração cabo-verdiana para Portugal com a emigração portuguesa rumo a França, trazendo à colação a questão do racismo. “Cada história pessoal, cada percurso de vida, as motivações para sair do seu país são diferentes. A imigração de um cabo-verdiano para um país onde a questão da língua não é uma barreira é diferente de um português que veio para França, mesmo tendo algumas noções. Tal como é diferente em relação ao racismo, um cabo-verdiano negro será sempre visto como estrangeiro, um português branco em França podem-lhe relembrar a sua origem eventualmente através do nome, mas se o tiver afrancesado, por exemplo, é um francês e não vive de todo os mesmos problemas de discriminação”.

Sobre o seu conto, intitulado “Eu empresto-te a Mariá”, Luísa Semedo salienta a veracidade de certos elementos dentro do seu conto. “Esta história é baseada em vários elementos de histórias verídicas com as quais convivi diretamente. Portuguesas qualificadas que não encontravam trabalho em Portugal e que em França, porque não falam suficientemente a língua, ou não têm as equivalências necessárias vão fazer limpezas ou baby-sitting, e esta desqualificação é vivida como um verdadeiro sofrimento”. Saltando da realidade para a ficção, a autora fala da protagonista do conto. “É importante compreender isso para que se perceba o nível de mágoa e de humilhação a que a minha personagem está submetida e que condiciona os seus atos. O caso com o patrão não tem a ver com vingança, tem a ver com o desespero, com a situação de vulnerabilidade afetiva e necessidade de segurança, com o sentir-se agradecida pelo patrão lhe ter estendido a mão no pior momento da sua vida, tem também a ver com a esperança de poder sair da sua condição de subalterna”.

Já Altina Ribeiro termina o seu conto com algo muito próximo do que sentem os imigrantes portugueses em França: “em França seremos sempre portugueses e em Portugal somos franceses”. Então como vive a autora essa alteridade? “Ser portuguesa em França nunca foi um problema para mim, mas sei que se tornou complicado para muitas pessoas”. E aproveita para falar do caso da sua família. “Os meus pais, nunca viveram a emigração como uma fatalidade e nunca esconderam o facto de serem portugueses, mas também não o reivindicavam”. E, não deixando espaço para dúvidas, constata: “éramos simplesmente uma família estrangeira que vivia em França, mais nada”.

Por outro lado, Altina Ribeiro considera que “o facto de os emigrantes serem considerados franceses em Portugal é mais difícil de aceitar”. Mas ela nota uma clara evolução. “Sinto essa alteridade cada vez menos visível porque o país evoluiu, pelo menos nas cidades”. E Altina Ribeiro termina com um pouco de humor luso-francês. “Pessoalmente, sinto-me mais francesa em Portugal porque sou traída pelo meu sotaque…”.

Não sofremos todos nós do mesmo?

 

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