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A biografia histórica escrita pela historiadora Joana Pinheiro de Almeida retrata a vida da mulher portuguesa mais famosa do século XVII: Catarina de Bragança.

Princesa de Portugal e Rainha de Inglaterra, filha de João IV, o Restaurador, e esposa de Carlos II, the Merry Monarch (o Monarca Alegre), Catarina de Bragança foi a responsável por ter levado – juntamente com o seu dote, que incluiu as então cidades portuguesas de Tânger, em Marrocos, e de Bombaim, oficialmente Mumbai, a cidade das sete ilhas, hoje a maior e a mais importante da Índia – para a corte londrina alguns dos hábitos da nobreza portuguesa que, com a passagem dos séculos, quase todos consideram agora uma tradição intrinsecamente inglesa. Falo, claro, do costume inglês de beber chá. Mas não só. Diz-se também que Catarina Henriqueta, assim se chamava a dama, insatisfeita com os modos austeros e secos, para não dizer algo bárbaros, dos súbditos do marido, levou para os palácios ingleses hábitos mais civilizados: o de comer marmelada (existe uma teoria que refere que a palavra inglesa marmalade vem do português marmelo que em inglês se diz quince… embora a marmelada inglesa seja feita com laranjas!), de fumar tabaco e, veja-se lá, de comer com garfo, pois parece que os ingleses debicavam os repastos apenas munidos de faca e colher.

“Catherine de Bragance: infante du Portugal et reine d’Angleterre”, publicada pela editora “Le Poisson Volant”, porém, nas suas densas 343 páginas de pura historiografia, não se fica pelos fait-divers dos costumes lusitanos que impregnaram a sociedade inglesa.

Catarina de Bragança nasceu em 1638, durante o crepúsculo da União Ibérica, e o seu pai, elevado a Rei em 1640, viu, em pleno contexto da Guerra da Restauração contra Espanha, na diplomacia matrimonial um dos principais meios de garantir alianças não só para preservar a própria independência metropolitana, mas também o controlo de um vasto império com colónias em cinco continentes. Assim, Catarina Henriqueta viu-se, desde tenra idade, no papel de joguete político-diplomático até que, enfim, em 1661, foi assinado um contrato nupcial com Carlos II, o Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Isto numa época em que as ilhas britânicas tinham acabado de viver a sua única (e sangrenta) experiência republicana protagonizada pelo Lorde protetor Oliver Cromwell.

Catarina abandona então o seu país natal mergulhado numa guerra de independência para se tornar Rainha consorte num país ainda a lamber as feridas das suas próprias guerras civis. Uma católica, uma papista, dizia-se à época, num país orgulhosamente protestante, anglicano desde que Henrique VIII decidira ver-se livre das esposas. E isto tudo num continente europeu ainda devastado pelos oito milhões de mortos causados pela Guerra dos Trinta Anos (1618/1648), um confronto bélico eminentemente religioso que produziu um pouquíssimo cristão banho de sangue entre católicos e protestantes. Uma Rainha católica em Inglaterra não era portanto coisa pouca.

Pouco popular por ser católica, Catarina teve um casamento infeliz. Não teve filhos (três abortos), embora o Rei os fosse tendo graças às suas inúmeras amantes. Catarina mante-se em Inglaterra até mesmo depois da morte de Carlos II em 1685. Em 1693, após uma longa viagem, regressou a Lisboa onde viveu confortavelmente até à sua morte em 1705.

Este livro de Joana Pinheiro de Almeida não é para ser lido como um romance. A grande quantidade de notas de rodapé e o registo académico fazem dele uma leitura lenta, sem pressas, capaz de nos fazer compreender as atribulações diplomáticas e jurídicas da operação matrimonial levada a cabo por João IV de Portugal. Uma maneira bem historiográfica, clássica, de penetrar naquele opaco mundo das cortes. Um mundo que era o de Catarina de Bragança, uma portuguesa que ficaria na memória popular anglo-saxónica graças à obsessão da velha Albion pelo chá das cinco e ao bairro nova-iorquino de Queens, assim batizado em sua homenagem.

 

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