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Lázaro vai contando a sua história – aquela que todos os que tiveram uma educação de índole judaico-cristã (sejam ou não crentes) conhecem – ao seu neto Yaphiel.

Esta simples premissa deu origem a “Lazare” (lançado há uma semana em França pela Cherche Midi), mais um magnífico romance de Richard Zimler, e que ajuda a provar duas coisas: primeiro, que existem histórias que nunca envelhecem; e, segundo, se essa reescrita/adaptação das histórias da mitologia cristã forem bem alicerçadas ao nível da investigação, o autor corre o risco de ter em mãos um sucesso literário.

Ora, o escritor luso-americano Richard Zimler percebeu isso e transformou a mais conhecida das histórias ocidentais num page-turner. O sucesso comercial e a aclamação da crítica em relação à versão portuguesa, “O Evangelho segundo Lázaro”, é disso prova.

Lázaro (ou Eliezer em hebraico), 57 anos, a viver em Rodes – hoje uma ilha grega, então parte do Império Romano – conta a história da sua vida (e da sua morte) ao neto. Esta narrativa na primeira pessoa decorre do principal objetivo do autor – ele di-lo na nota introdutória da versão francesa – que é a de restituir a Lázaro a sua “judéité”, as suas raízes judaicas que, ao longo de 2000 anos de história, foram helenizadas, latinizadas e cristianizadas.

Zimler acrescenta, e com razão, que “nada, no Novo Testamento, indica que Jesus renunciou à sua fé judaica”. Este facto, se fizermos o esforço de olhar criticamente para o passado, faz a cabeça andar à roda. Afinal, quantos Pogroms, quantos massacres – um deles também explorado por Zimler no magistral “O último cabalista de Lisboa” de 1996 – vitimizando judeus foram executados em nome de alguém, Jesus, que era tão judeu como aqueles que foram assassinados?

Nascido em 1956 em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque, e naturalizado português, Richard Zimler, no sentido de atribuir esse indelével caráter judaico às personagens, atribui-lhes o seu nome judeu. Se é verdade que esta medida ajuda o leitor a mergulhar na Palestina do século I, não devemos esquecer que, segundo muito especialistas, Jesus falava aramaico e não hebraico. Mas nada disso interessa e parece pequeno perante a narrativa monumental de Zimler, através da qual se explora a relação de grande intimidade entre Lázaro e Jesus, ou melhor, entre Eliezer e Yeshua. Para muitos, quiçá, uma intimidade excessiva.

Uma história de vida, morte e ressurreição – Lázaro não tem qualquer memória dos dias que passou morto antes de ser ressuscitado – que acompanha a vida destas duas figuras maiores da mitologia cristã desde a infância até à morte. Uma obra marcante sobre uma das mais antigas histórias do mundo.

 

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