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Morreu ontem à tarde, domingo 5 de abril, num Lar de idosos onde se encontrava, na região parisiense, o Poeta Rogério do Carmo, cofundador da Rádio Alfa. Aquele que no dia 5 de outubro de 1987, nos primeiros estúdios da Rádio Alfa, em Paris 13, foi a primeira voz da estação portuguesa de Paris. Depois fez passar um tema de Amália Rodrigues, da sua coleção pessoal. Começou nesse dia, eram 14h00, a aventura da Rádio Alfa, que criou com Fernando Silva, Artur Silva, Jaime Mendes e Helena Machado, aos quais se juntou António Cardoso.

No último livro de Rogério do Carmo, “Puzzle”, publicado pela Chiado Editora, e que foi apresentado no Consulado Geral de Portugal em Paris, em 729 páginas, o autor apresentou-nos a sua autobiografia. Desde que nasceu até àquele momento, Rogério do Carmo entregou-se ao papel para desabafar de uma forma poética e provocadora com o leitor, contando os principais episódios que marcaram a sua vida desde pequeno. “A intenção é de mostrar que não somos nós que escolhemos as nossas vidas, o nosso destino, a nossa sexualidade, mas sim a natureza. Tive uma vida bastante complicada mas se pudesse começar de novo voltaria a ter a mesma”, declarou na altura.

Rogério do Carmo nasceu no Sobreiro, Freguesia de Mafra, na Casa da Brasileira, no dia 2 de fevereiro de 1935. Era sábado, dia de São Purificado, e quando Rogério lançou o seu primeiro grito de medo, espanto, ou revolta, soaram as doze badaladas do meio dia no relógio da sala. Seu pai, às dez da manhã tinha saído chamar a parteira, mas caiu num buraco e quando a parteira chegou à Casa da Brasileira, sua mãe cheia de coragem, tivera-o sozinha e sozinha lhe tinha cortado o cordão umbilical. Muitos anos mais tarde, ela lhe diria que ele tinha sido o último dos seus 8 filhos a saírem do seu ventre, mas que na vida ele seria sempre o primeiro!

Rogério do Carmo confessava certos períodos difíceis, detalhando em “Puzzle” como foi violado aos 6 anos de idade pelo próprio irmão, que tinha 14 anos. “Descobri que o sexo não servia apenas para urinar, mas também para nos reproduzirmos, para a continuidade da vida”. Muito rapidamente Rogério do Carmo descobriu a sua homossexualidade que assumiu claramente desde muito jovem. “Era um jovem bonito e gostava de explorar a minha sexualidade com uns e com outros”, referiu sem complexos.

O autor evocou ainda uma passagem muito importante durante a sua infância, a sua grande paixão por aquela que durante alguns anos vibrou com o seu coração e que jamais esqueceu. “Eu tinha apenas 13 anos e ela 33, apaixonei-me loucamente por ela. Ia a casa dela aprender a tocar piano”, recordou. “Era uma mulher magnífica que mexeu muito comigo, foi uma das 3 mulheres que eu tanto amei! Mas como a diferença de idade era enorme, e eu ainda muito novo, as pessoas falavam e tivemos que nos separar um do outro”.

A sua mãe que sempre aceitou como ele era, e a célebre Amália Rodrigues que tantas vezes entrevistou, foram os seus grandes apoios para a definição da sua personalidade.

Nos anos 60, o jovem português decidiu ir para Israel à procura das suas raízes. No livro, fala dos seus pais, descendentes de judeus. “O meu pai trabalhava no Registo Civil e foi despedido por ter ajudado demasiado os Judeus” e foi em Tel Aviv que durante 6 anos viveu plenamente a sua juventude. No regresso, após um salto pela Itália e por Londres, acabou por se instalar em Paris, nos finais dos anos 60.

Rogério do Carmo sempre falou com muito carinho da rádio Alfa. Contava como nasceu o projeto, em casa dele, em Villejuif. “A rádio abriu com a minha voz e graças ao meu material”, apontava com orgulho. Durante vários anos animou o programa “Bica e Copo de Água”. Mais recentemente ainda participou pontualmente numa emissão de poesia com Anabela da Cunha, mas que acabou por deixar.

“Comecei a escrever as minhas memórias, para não me esquecer e poder partilhar mais tarde”, explicou ao LusoJornal. Desconhece-se se vão ser editadas.

Muito agarrado a Portugal, Rogério do Carmo confessava porém que o país das suas raízes era Israel, onde esperava ir morrer. Mas não foi e acabou por ser ceifado pelo novo Coronavirus. Na semana passada foram dados os primeiros sinais de dificuldades para respirar e acabou por falecer este domingo.

Aquando da apresentação do livro em Paris, Rogério do Carmo falou também, com alguma emoção, do filho e dos seus netos que deixou em Israel. “Ele não sabe que eu sou pai dele, mas ao olhar para a cara dele e dos filhos, vi que era muito parecido comigo e estou impaciente para lhe revelar a verdade”. Não deve ter tido oportunidade para o ter feito!

“Puzzle” – que inicialmente se devia ter chamado “Tudo em pratos limpos” – foi o 3° livro de Rogério do Carmo, após “Sombras” e “Vagas”. Aliás, o seu primeiro livro de poemas “Sombras”, foi agraciado com o “Prémio Internacional de Poesia Florbela Espanca”, em Paris, em 1991!

A notícia da morte de Rogério do Carmo foi dada esta manhã, na antena, por Fernando Silva, que ainda é o Diretor técnico da rádio Alfa. Completou a notícia com um poema de Rogério do Carmo, oportunamente escolhido, dedicado a Fernando Pessoa.

Mais tarde foi Fernando Lopes, o atual Diretor Geral da Rádio Alfa, que diz ter conhecido Rogério do Carmo em 1994. “Tinha destas estrelas nos olhos como uma criança que recebe uma prenda pelo Natal” diz numa mensagem de condolências. “Ele tinha o seu caracter e uma vontade permanente da perfeição. Ajudava sempre os novos membros que integravam a rádio. Lembro-me dos conselhos sobre a importância de respirar no bom momento para evitar que os outros se apercebam”.

Em Mafra, nas paredes da Biblioteca municipal, fica um quadro de D. João V que ele próprio desenhou quando tinha apenas 14 anos de idade.

Quando, há uns anos, foi atropelado por uma lambreta, em Meudon-la-Fôret, onde vivia, escreveu que preferia que tivesse sido um camião de 200 toneladas! “Assim, deixaria de andar por aqui aos trambolhões, à mercê de criaturas que ainda não perceberam que estamos todos sobre esta terra apenas de passagem”.

A passagem de Rogério do Carmo por esta Terra acabou ontem. “Morrer é como nunca ter nascido! Viemos do nada para o nada! Do ventre da Mãe ao ventre da Terra, apenas um atalho!” escreveu. Pat, o companheiro com quem partilhou uma grande parte da vida, e os gatos que os dois tinham, vão certamente sentir a sua falta. Mas não serão os únicos a chorarem a morte do Poeta.

 

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