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Tiago Rodrigues é o primeiro Diretor não francês do Festival d’Avignon, mas não teme ser escrutinado, até porque tem uma história familiar com França, um país que sempre o apoiou, reconheceu e promoveu.

“O meu pai, no final dos anos 60, depois de ter recebido a notícia de que o irmão mais velho tinha morrido na guerra colonial, em Angola, e de que ele próprio ia ser destacado para a guerra [nesse país], resolveu exilar-se em França, onde viveu cerca de três, quatro anos, em Paris”, contou Tiago Rodrigues em entrevista à Lusa, recordando seu pai, o jornalista Rogério Rogrigues (1947-2019), que fez parte da redação do Diário de Lisboa e do grupo fundador do semanário O Jornal, assim como do matutino Público, onde foi grande repórter.

Este exílio, aliado a ter mais família que, por razões económicas ou políticas se instalou em terras gaulesas, levou Tiago Rodrigues a manter “uma relação de grande admiração por França”, como um regime democrático que compensou para muitos portugueses “o obscurantismo de mais de quatro décadas de ditadura”.

“A minha relação com França é tocada por essa gratidão coletiva, mas também tocada pela forma como França, desde os meus 21 anos, é um dos países onde mais apresentei o meu trabalho, que mais me apoiou, onde mais fui reconhecido, promovido e acarinhado”, declarou à Lusa.

Esta ligação torna a sua escolha para dirigir o Festival d’Avignon ainda mais “emocionante”, não o levando a recear um escrutínio acrescido por não ser francês. “Nada na minha história pessoal com França e com o teatro francês me leva a crer que o facto de ser português ou de não ser francês possa vir a influenciar negativamente aquilo que é a aventura de dirigir o festival de Avignon”, referiu.

Mas o escrutínio, tal como em qualquer cargo de destaque na cultura, existirá, embora o encenador português assegure que é algo que está habituado, após sete anos à frente do Teatro Nacional D. Maria II. “Tenho noção de que dirigir o festival é estar sujeito a um escrutínio e a um nível de crítica muito superior a muitos outros cargos, mas é preciso também não subestimar as complexidades e dificuldades de ser Diretor artístico do D. Maria II”, concluiu.

O encenador e dramaturgo português foi ontem anunciado pela organização do Festival d’Avignon, em França, como seu próximo Diretor, sucedendo a Olivier Py, uma escolha “óbvia” e “doce”, com uma proposta cheia de “poesia”, apresentada pela Ministra francesa da Cultura, Roselyne Bachelot.

Dramaturgo, encenador e ator, Tiago Rodrigues soma uma carreira de mais de duas décadas, contando com a presença regular em palcos internacionais, tendo sempre por base Portugal, através da companhia que criou, Mundo Perfeito, ou à frente do Teatro Nacional D. Maria II, que dirige desde 2014.

 

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