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O pernambucano Álvaro Filho é jornalista e vive em Lisboa há alguns anos. “Alojamento Letal”, o seu mais recente livro, é um policial, um romance negro cheio de humor, que aborda um dos grandes dilemas portugueses da atualidade: o turismo. Dilema porque ao mesmo tempo que garante uma parte importante do PIB e do emprego (quase sempre mal pago), o turismo de massas pode não só desvirtuar o charme das cidades portuguesas, matando assim a galinha dos ovos de ouro, mas pode também – na verdade já está – infernizar a vida dos Portugueses que querem viver no centro das cidades.

Muitos lisboetas ou portuenses já não têm meios financeiros para viver nas próprias cidades, sendo praticamente expulsos para os subúrbios.

É este dilema que serve de pano de fundo a “Alojamento Local”, lançado este verão pela Editora Planeta.

Neste romance, as ruelas de Alfama veem acontecer uma série de crimes relacionados com a pressão imobiliária e turística. O principal suspeito destes crimes é o senhor Ming, um milionário chinês, proprietário de vários imóveis, que é acusado de assediar os moradores habituais com o objetivo de converter esses prédios em alojamento local para assim beneficiar com o maná turístico.

O senhor Ming, todavia, deseja provar a sua inocência e, tendo isso em vista, toma a mais inusitada das decisões: decide recorrer aos serviços de Nuno Cobra, um escritor de policiais mais habituado a descrever as paisagens nórdicas do que a resolver crimes verdadeiros em terras lusitanas.

 

Álvaro, chegaste a Portugal no começo deste boom turístico que afeta as cidades portuguesas e foste viver para Alfama onde também viveste uma situação dramática. O que mudou no bairro nestes últimos quatro anos?

Bem, eu não posso dizer como era Alfama antes. Quando visitei Lisboa pela primeira vez, em 2004, Alfama ainda não era uma área turística, era uma área “manhosa”, como se diz. Era preciso um certo conhecimento para andar por lá em determinados horários. Eu conheci pouco, não era um setor turistificado como é agora. Em 2004, eu fiquei muito mais pelo Bairro Alto que era onde os turistas caminhavam. Em 2016, fui então viver para Alfama, e percebi que a massificação do turismo tem acuado os moradores tradicionais de duas formas. Primeiro, a questão monetária, o bairro começou a ficar demasiado caro, uma noite custa cerca de 70€ que é mais ou menos o que se pagava antes de renda mensal. Segundo, a atividade turística traz componentes, pessoas novas para o bairro. Muitos comerciantes estrangeiros. O idioma que circula hoje em Alfama é o inglês, que é hoje o idioma universal. Isso faz com que as pessoas mais idosas, que não falam inglês, tenham muita dificuldade em comunicar. O comércio tradicional tem dificuldades em competir. Não tem os meios das grandes multinacionais e não tem a agressividade dos trabalhadores imigrantes cujas lojas abrem mais cedo, fecham mais tarde, não fecham para o almoço. Quando eu cheguei fui atrás do Portugal autêntico e deparei-me com o Portugal turistificado.

 

Na tua opinião, como é que achas que o Estado português, o Governo e as câmaras municipais estão a lidar com esta dicotomia entre o turismo e o direito à habitação?

O Estado agiu, embora tenha demorado um pouco a agir. Isso acontece também em França, na Alemanha. Portugal tem seguido essa tendência, embora não com o mesmo modelo. Alguns países limitam o número de noites que o alojamento local pode oferecer, outros, como creio ser o caso de Paris, limita a área onde o alojamento local se pode estabelecer. Em Portugal optou-se por se controlar o número de alojamento local, não permitindo o seu aumento. Existe um impasse. As pessoas não estão abrindo mais empreendimentos, já não é tão vantajoso como antes, é mais caro abrir um alojamento local agora, mas regressar ao arrendamento a longo prazo requer uma mudança de estatuto que é cara. O empreendedor ficou nesse meio-termo. Mas, sim, deu um freio, deu um travão aqui no processo, embora ainda seja tudo muito agressivo. No verão você passeia – eu morei no bairro e volto lá frequentemente – e percebe-se que, embora não tenha aumentado no mesmo volume, é um volume muito alto ainda.

 

Vamos falar sobre o Brasil. Desde os incêndios na Amazónia, o Brasil tem estado no olho do furacão aqui em França. A madame Macron ainda está chocada com os insultos misóginos de que foi alvo. Muitos Franceses ficaram indignados. Aqui na Europa, o personagem Bolsonaro não é muito bem recebido pela maioria da população. Claro que existem franjas que gostam do senhor, mas a esmagadora maioria não gosta. Bem, a verdade é que existe uma curiosidade mórbida e as pessoas querem ouvir falar do Bolsonaro. Qual é a tua opinião, tu achas que o Brasil corre perigo?

Eu acho que sim. O Bolsonaro é um dos vértices do polígono que inclui o Presidente dos EUA, inclui também, ou incluía, o Salvini na Itália, agora inclui o Boris Johnson, o Primeiro-ministro do Reino Unido… São todos personalidades que vivem da produção de notícias que atrapalham mais do que explicam, justamente porque enquanto se debate toda essa informação e desinformação, nós deixamos de prestar atenção ao essencial. A França lá conseguiu escapar…

 

Por pouco…

Sim, por pouco. O Bolsonaro tem um modus operandi em que usa as redes sociais, não se preocupa com o que é verdadeiro. Aliás quanto mais mentiroso melhor porque isso gera rumores nas redes sociais e em vez de as pessoas debaterem o que é importante estão debatendo o que é ridículo e grosseiro. O Bolsonaro vai muito para além da grosseria, ele trabalha para os interesses… ficou muito claro em relação aos interesses na Amazónia, o caso do agronegócio, que estava atuando enquanto ele tentava convencer as pessoas que o filho dele, apesar de não falar inglês e de não ter qualquer formação em diplomacia, poderia ser o embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Enquanto se gastava esse tempo, o filho, o Eduardo Bolsonaro, dizendo que estava apto para o cargo porque tinha trabalhado numa hamburgueria nos Estados Unidos, enfim… Enquanto se gerava um buzz com esse tipo de informação, por trás as queimadas estavam acontecendo, o agronegócio estava avançando. Só se prestou atenção nisso quando houve um descontrolo devido ao radicalizar das queimadas e se provocou esses fogos na Amazónia. O Brasil é uma jovem Democracia, mas não deve revalidar o mandato do Bolsonaro daqui a três anos. Eu não acredito que isso aconteça.

 

Quatro anos de destruição poderá obrigar a dez anos de reconstrução.

Poderá levar o tempo de uma geração todinha. Não é só a questão das queimadas, que é uma questão global, porque mexe com o ecossistema que regula o clima no mundo, mas existem também os direitos trabalhistas… Tudo isso é votado em surdina enquanto eles geram um factoide no Twitter. Não há um dia em que o Governo Bolsonaro não gere alguma coisa. Quando não é ele é alguém ligado a ele. Dantes era local e agora torna-se internacional. Todo o dia, a desinformação, as notícias falsas propositadas tornam tudo muito cansativo e desesperançoso. Vim para Portugal para estudar há três anos. Tinha a intenção de regressar para o meu país, mas agora é impossível o retorno pelo facto de este não ser o Brasil que eu deixei lá atrás. Este não é um Brasil que eu reconheça.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Luísa Semedo autora de “O Canto da Moreia”

Quarta-feira, 09 de outubro, 9h30

Domingo, 13 de outubro, 14h25

 

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