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Professor na Universidade de São Paulo, João Paulo Pimenta publicou, juntamente com a sua colega Andréa Slemian, em 2003, “O nascimento político do Brasil: as origens do Estado e da Nação, 1808-1825”, um trabalho que se tornou uma obra de referência para o estudo da independência do Brasil. A versão francesa chegou o mês passado às livrarias com o título “Naissance Politique du Brésil”.

Este livro retrata portanto um período importantíssimo não só para o Brasil e toda a América Latina, mas também para Portugal. Uma época marcada pelas guerras napoleónicas e consequente ocupação de Portugal pelas tropas francesas, o que conduziu à fuga de João VI e da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, facto que tornou a independência da joia da coroa do império português, o Brasil, não só em algo inevitável como imperioso.

A grande vantagem deste pequeno livro é, ao contrário das versões glorificadas e caricaturais que tanto afetaram a historiografia da nação brasileira ao longo do século XX, aparecer, por um lado, devidamente inserido no panorama mundial da Era das Revoluções e, por outro, articulado com os colapsos dos Impérios Ibéricos, pois, por essa mesma altura dá-se também a independência das colónias da América espanhola.

Eis então um belo livro de divulgação histórica, sério e apurado, mas sem deixar de ser acessível a qualquer um.

 

João, para um não especialista, há uma questão que se coloca sempre que se fala do fim dos impérios coloniais ibéricos na América. Por que razão a América portuguesa, o Brasil, se manteve coeso, enquanto a América espanhola se desmembrou em uma multitude de Estados?

É verdade, essa é uma grande questão. Se compararmos simplesmente o resultado entre a América espanhola e a América portuguesa, nós deixamos de lado algumas coisas muito importantes. É muito importante nós compreendermos que a unidade do Brasil não estava pronta antes da independência. Essa unidade não estava destinada a ocorrer. A unidade do Brasil foi o resultado do processo de independência e precisou de ser construída. Às pessoas bastava simplesmente transformar uma palavrinha nas suas ideias sobre a História do Brasil e com isso elas entenderiam melhor o que ocorreu. Em vez de dizerem que houve a “manutenção” da unidade, elas deveriam dizer que houve a “construção” de uma nova unidade. Sem dúvida nenhuma que a presença da corte portuguesa no Rio de Janeiro a partir de 1808 desempenhou um papel fundamental na construção dessa unidade. A corte vai para o Brasil não para produzir a independência, mas o contrário, para evitar que o império português se esfacelasse como viria a acontecer pouco depois com o império espanhol. No entanto, a presença da corte portuguesa no Brasil crias as condições para um projeto político de separação que até então não era pensado nem imaginado por praticamente ninguém. Essa presença da corte vai criando tensões, criando novas situações, vai diferenciando interesses entre os portugueses do Brasil e os portugueses de Portugal. Até que chega essa separação em 1822. Mas não é uma separação pacífica. A independência do Brasil foi um projeto imposto por algumas partes do Brasil a outras partes. De modo que houve guerras de independência no Brasil, de modo que essa unidade precisou de ser construída a partir, também, da força. Essas guerras de independência são a demonstração que não houve uma naturalidade dessa unidade. Houve, sim, a construção de uma nova unidade.

 

Então, João Paulo, levando em conta a “construção” dessa unidade, dessa coesão, e deixando de lado a teoria da “manutenção” de uma unidade pré-existente, não é correto dizer-se, como tanta gente diz, que a História nacional brasileira começa em 1500. Devemos dizer, sim, que começa em 1822. Estou certo?

Sim. A História nacional, sim, podemos dizer que começa em 1822. No entanto, as coisas importantes na História não começam num único ano, mês ou dia. Antes de 1822 não há uma nação brasileira. Mas para compreender por que razão a partir daí começa a surgir uma nação brasileira, é necessário, lógico, voltar a algumas décadas antes. É importante então nós dizermos isso com todas as palavras: não havia uma nação brasileira antes da independência em 1822. A independência, portanto, não foi o resultado de uma luta entre as nações brasileira e portuguesa, entre portugueses e brasileiros. Essa diferença, que é uma diferença de tipo nacional, foi sendo construída ao longo do processo de independência, principalmente depois de 1822. As independências das Américas em geral, e isso vale também para os Estados Unidos e para toda a América espanhola, não foram lutas nacionalistas, de nações oprimidas contra as suas metrópoles. Foram, sim, processos políticos, lutas, embates entre colónias e metrópoles, de interesses muito mais complicados que foram sendo criados pelo próprio processo e que resultaram então, aí sim, numa diferença clara entre nações. Mas eu repito: não foram lutas nacionalistas, não havia uma nação colonial e uma nação metropolitana, tudo isso são invenções, são mitos criados posteriormente e muita gente acredita neles simplesmente por falta de acesso a um material mais especializado, a suportes de conhecimento criteriosos que possam então contar uma história mais verdadeira.

 

Este vosso livro, João Paulo, chamou-me à atenção por ser uma obra de divulgação com qualidade. Sobre este tema, sobre o início do século XIX brasileiro, já tive a oportunidade de apanhar alguns infelizes best-sellers que na sua generalidade são francamente maus. É impressão minha ou no mercado editorial brasileiro não abundam os bons livros de divulgação histórica?

Existem bons livros de divulgação histórica no mercado editorial brasileiro, mas eles têm uma concorrência muito desigual de livros ruins. Esses livros são ruins porque eles são produzidos basicamente para vender e não para informar ou qualificar o público leitor. Aí todos têm um pouco de responsabilidade. Sejam as editoras que investem neste tipo de material, sejam os próprios autores que estão, claro, interessados na sua vendagem e na sua celebrização, sejam, também os meios de comunicação, que são muito tímidos ou, francamente, evitam criticar esses materiais; e mesmo o público consumidor, que acaba sendo um público pouco qualificado por essas obras, mas que também pouco se qualifica para reagir a essas obras. Cria-se então um mercado muito conservador. Esses livros de má qualidade, sim, eles prestam um serviço positivo que é atender a esse gosto pela História fora das universidades. Eles são escritos em linguagem simples e acessível, mas isso, acredito eu, não basta, porque o seu conteúdo é fraco. Eles fazem muitas generalizações, eles simplificam demasiado, distorcem a realidade e, invariavelmente, eles dizem aquilo que as pessoas mais ou menos já sabem. Não são, portanto, livros que cutucam a mente do leitor, que incomodam no bom sentido, que despertam o senso critico. Não, são livros que dizem o que o leitor já sabe e que quer escutar, confirmando, assim, as suas “convicções e certezas”. É difícil reagir a isso, porque depende de uma mobilização de todos os agentes envolvidos nesse processo: editores, autores, leitores, a imprensa e outros meios de comunicação.

 

Mas este vosso livro é a prova cabal de que historiadores profissionais são capazes de escrever um livro de qualidade, que informe e qualifique, e, ao mesmo tempo, utilizando uma linguagem e um estilo acessíveis.

Claro, e foi justamente daí que surgiu a ideia do livro. Em 2003, nós já nos incomodávamos com essa situação. Ou seja, o mercado editorial oferecia ao público material de má qualidade. Então, este livro foi uma tentativa nossa, há 17 anos, de oferecer um trabalho de qualidade para um público generalizado sobre um tema no qual nós somos especialistas. Foi editado numa editora pequena, mas mesmo assim teve uma boa circulação e, passados estes anos todos, surgiu a oportunidade de, fazendo uns acréscimos e uma atualização bibliográfica, lançar esta edição francesa que, basicamente, possui as mesmas características: é um livro escrito de maneira simples, próximo do leitor, mas, no entanto, sem abrir mão da qualidade, do tratamento temático, do amparo em fontes. Tudo o que está dito no livro é dito segundo o ponto de vista de especialistas.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Luís Corredoura autor de “A Recriação do Mundo”

Quarta-feira, 18 de março, 9h30

Domingo, 22 de marco, 14h25

 

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