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“Amadeo – a vida e obra entre Amarante e Paris” é uma banda desenha que acompanha o trajeto do artista plástico português Amadeo de Souza-Cardoso, desaparecido há exatamente 100 anos. Publicada pela editora Saída de Emergência, o álbum foi desenhado por Eduardo Viana e o argumento escrito por Jorge Pinto, o nosso convidado desta semana.

Tal como Amadeo, Jorge Pinto nasceu em Amarante em 1987 e estudou engenharia. Hoje, vive em Bruxelas, onde estuda Filosofia Política e Social, e é um dos membros fundadores do Partido LIVRE.

Amadeo de Souza-Cardoso, que teve honras de uma grande exposição retrospetiva no Grand Palais de Paris há poucos anos, foi um artista que aproveitou as contradições do seu tempo e da sua própria vivência, forçando a Arte portuguesa a entrar de rompante na modernidade trazida pelo século XX. Das serranias amarantinas para a grande Paris, do conservadorismo rural para a descarada ousadia da Arte moderna, o percurso de Amadeo permitiu dar novos ares à Arte portuguesa.

Entre 1907 e o começo da Grande Guerra, Amadeo viveu no bairro de Montparnasse e conviveu com os intelectuais e artistas do seu tempo que também escolheram Paris, na altura o umbigo do mundo, como lugar de liberdade.

A sua morte, aos 30 anos, quando estava em plena maturação e afirmação internacional, fizeram com que a obra de Amadeo de Souza-Cardoso fosse longamente esquecida até à sua recente redescoberta.

 

Jorge, a bela exposição dedicada ao Amadeo de Souza-Cardoso aqui no Grand Palais despertou em ti a vontade de escrever algo sobre a sua vida e a sua obra. Conta-nos como decorreu esse processo e como é que tudo desembocou num álbum de banda desenhada.

A escrita da obra, e o facto de ser uma obra biográfica, foi um processo que se autoimpôs. Eu e o Eduardo Viana tínhamos decidido há pouco tempo fazer uma banda desenhada, uma história ficcional. Eu já tinha escrito o resumo, embora não o argumento completo. E foi exatamente ao visitar essa exposição que referiste que tive essa vontade de fazer uma banda desenhada sobre o Amadeo. Em primeiro lugar porque gosto muito de banda desenhada e leio bastante banda desenhada, entre as quais várias histórias biográficas sobre uma série de pintores, alguns deles amigos do Amadeo. E foi então ao visitar a exposição que percebi que havia ali imenso material para fazer uma banda desenhada sobre o Amadeo enquanto artista, mas também sobre o Amadeo enquanto pessoa. O que mais me surpreendeu nesses trabalhos, que eu já conhecia, foi perceber que o Amadeo era um artista no sentido pleno, pois era alguém que tinha uma grande sensibilidade, visível não apenas nos quadros mas também nas cartas que escrevia à namorada e futura mulher, aos amigos e à família. Foi o ter descoberto essas cartas e a maneira que ele tinha de escrever, de expressar os seus sentimentos, que me fez querer escrever esta banda desenhada. Logo depois da exposição, falei com o Eduardo Viana e disse-lhe que era melhor fazer uma banda desenhada sobre o Amadeo. E ele, que é um arquiteto apaixonado pelas artes plásticas e visuais, aceitou de imediato o desafio. Foi um processo relativamente longo, que durou dois anos desde a ideia inicial até à sua publicação. Envolveu claro bastante pesquisa bibliográfica. Nós queríamos que quem lesse o livro pudesse estar certo de que o que ali está representado corresponde ao que foi a realidade da vida do Amadeo.

 

Jorge, por um lado, tu, tal como o Amadeo, és amarantino e, por outro, vives em Bruxelas que é a capital mundial da banda desenhada. Esses factos contribuíram para o nascimento deste álbum?

Sim, sem dúvida, foram elementos importantes. Mas o que me levou mesmo a querer escrever esta banda desenhada foi o facto de eu ter percebido que alguém nascido na minha cidade cem anos antes de mim, o Amadeo nasceu em 1887, tivesse emigrado mais ao menos com a minha idade. E percebi nas cartas dele que as inquietações que ele sentia, as suas divisões internas e psicológicas, faziam com que ele não se sentisse bem em casa, em Manhufe, mas também deixasse de se sentir bem ao fim de algum tempo em Paris. Outro exemplo é a questão da luz, que é algo que nós, portugueses, falamos sempre, já há cem anos o Amadeo falava disso. Ele dizia que a atmosfera em Paris era pardacenta, anémica, uma “luz anémica”, como ele dizia. E esta espécie de inconformismo, de nunca se estar bem onde se está e de querer sempre mudar. E mesmo no seu trabalho, o Amadeo revelou isso, pois mudava constantemente de estilo e recusava ser associado a uma única escola artística. E foi ao ler uma banda desenhada biográfica de um outro pintor que pensei que o Amadeo tinha todas as características, todos os ingredientes para uma história interessante que falasse não só do seu percurso artístico mas também desta divisão que aliás é retratada de uma forma magnífica na capa, num desenho em que o Eduardo Viana mostra de um lado Manhufe, uma ambiente de campo, a sua casa, as montanhas, e, do outro lado, mostra Paris, a grande cidade com a torre Eiffel já lá bem no alto, uma cidade cinzenta, tal como o Amadeo a via em termos de luz.

 

Dá-nos então em três ou quatro pinceladas os momentos mais importantes da vida do Amadeo.

Houve vários. O primeiro foi certamente a partida para Paris. O Amadeo estudou no ensino médio em Coimbra e em Lisboa, sendo suposto tornar-se arquiteto. O Amadeo vinha de uma família bastante rica, o que lhe permitiu ter este estilo de vida. E foi ao ter ido para Paris para estudar arquitetura que foi exposto a outros horizontes. O segundo momento que me parece crucial foi aquele em que decidiu abandonar arquitetura para se dedicar exclusivamente à arte. Inicialmente, dedicou-se às caricaturas e posteriormente à pintura, que é o formato onde ele conseguiu maior reconhecimento. Há claro outros momentos que o terão inspirado. O facto de ter conhecido a Lucie, que se tornou sua esposa. O facto de ter conhecido outros artistas, primeiro os portugueses e depois os estrangeiros. O Modigliani, com quem chegou a organizar uma miniexposição em sua casa. Houve também, claro, a influência do seu regresso forçado a Portugal.

 

Que coincide com o começo da Grande Guerra?

Sim, logo em 1914. Se dependesse da vontade do Amadeo, ele teria continuado a viver em Paris. É em certa medida forçado a voltar a Portugal. O que se reflete também num período bastante bom, talvez o mais conhecido, do seu trabalho, muito influenciado pelo casal Delaunay, franceses que foram viver para Portugal para fugir à Grande Guerra. A influência dos Delaunay fizeram-no virar-se mais para as culturas locais, as culturas portuguesas, que até aí tinham sido pouco retratadas na obra do Amadeo.

 

E morreu pouco depois, levado pela gripe espanhola…

Sim, não só ele, mas muitos membros da sua família.

 

É verdade. Mas diz-nos Jorge, como achas que teria sido a carreira de Amadeo caso não tivesse morrido tão cedo? Estaria ao nível de alguns dos grandes artistas da época? O Picasso, o Dali…

É sempre um exercício interessante, curioso, mas sempre especulativo. Nessa altura, o Picasso já estava acima de todos os outros, já era o mestre de muitos pintores da geração do Amadeo. Mas, tendo continuado a trabalhar, não vejo razões para que o Amadeo não estivesse ao nível de um Georges Braque, do Modigliani… todos artistas com quem ele trabalhou. Não só trabalhou, mas trocou influências. Eles influenciavam-se mutuamente, como é lógico, morando todos muito próximos uns dos outros. Eram vizinhos e frequentavam os mesmos locais. Por isso é bastante provável que o Amadeo se tivesse tornado um nome relevante. E mesmo assim, o trabalho que ele deixou, uma obra bastante grande para quem morreu com apenas 30 anos, já pode ser colocada na lista dos grandes nomes, e isso está cada vez mais a acontecer. A prova é que pouco tempo depois dessa exposição no Grand Palais, ele foi exposto no principal museu de artes de Bruxelas, onde dois quadros do Amadeo estavam na sala dos modernistas com todos os grandes nomes da época. Ou seja, os curadores da exposição de Bruxelas optaram por colocar o Amadeo nessa sala, algo que não teria acontecido há dez ou vinte anos. Houve uma redescoberta da obra do Amadeo que terá começado com a exposição de 2006 na Gulbenkian em Lisboa. Eu lembro-me de a ter visitado à uma da manhã. A afluência foi tal que tiveram de a manter aberta toda a noite.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Julieta Monginho, autora de “Um muro no meio do caminho”

Quarta-feira, 21 de novembro, 9h30

Domingo, 25 de novembro, 14h25

 

 

 

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